Livro da atriz e antropóloga Adriana Mariz será lançado nesta sexta-feira(08Agosto2008), às 19h00s, na Livraria Esquina das Letras, traça uma visão antropológica do corpo no teatro de pesquisa
João Pessoa(PB) – Antropologia Teatral e Teatro Antropológico. Estes dois conceitos podem soar alienígenas para uma boa parcela dos leitores brasileiros. Concebidos e desenvolvidos pelo encenador italiano Eugenio Barba, no entanto, têm provocado abalo na compreensão clássica do comportamento cênico.
Em quê o teatro dialoga com a antropologia?. Quanto de sua própria cultura o ator põe em uso no momento de conceber um personagem?. Como fugir dos recursos usuais e cotidianos e surpreender o público?. E o teatro precisa mesmo de público?.
A Ostra e a Pérola, segundo Adriana(Foto), apresenta uma leitura da filosofia e do processo de trabalho do encenador italiano radicado na Dinamarca Eugenio Barba e dos atores de seu grupo, o Odin Teatret, em contraponto com o trabalho de outros dois mestres da encenação mundial, o polonês Odin Teatret,e o brasileiro Antunes Filho.
“Barba, Grotowski e Antunes, cada um, a seu modo, desenvolveram um caminho para a preparação corporal do ator, compreendido como ator-pesquisador, que enfrenta as limitações impostas pelo ambiente cultural e extrapola as fronteiras pessoais e antropológicas. Como diz Barba – um ator que enfrenta sua própria identidade“, ressalta a autora.
Além do mais, como escreve o filósofo e escritor Adauto Novaes no prefácio no livro, a obra alcança a potência de mexer com as certezas do leitor, com sua visão de mundo e com sua idéia de teatro. “O olhar da antropóloga procura, de maneira incessante, decifrar o olhar do outro. (…) o olhar da atriz, em diálogo muitas vezes silencioso com o outro, constrói um mundo de imagens, idéias e sentimentos, que ganham expressão no teatro. O livro é, pois, o entrecruzamento da teoria e da experiência”, destaca Novaes.
Gênese
A Ostra e a Pérola nasceu, primeiro, como tese de mestrado, sob orientação do antropólogo e professor José Jorge de Carvalho, na UnB, em 1998, para depois despertar a atenção e o interesse do mercado editorial. Ganhou edição na prestigiada coleção Estudos, dirigida por J. Guinsburg para a Editora Perspectiva. José Jorge e J. Guinsburg assinam os belos textos de apresentação do livro.
O pioneirismo de Barba
O trabalho desenvolvido pelo italiano Eugenio Barba o distingue de tudo o que é feito no mundo sobre a arte teatral. Para Barba, o Teatro Antropológico só é possível com uma dedicação integral do ator ao ofício teatral, com uma viagem de prospecção do intérprete à história e à cultura de outros países. Antropologia teatral provoca o ator a deixar o eixo seguro e buscar o risco da troca.
O livro de Adriana(que inclui entrevistas inéditas com Barba e Antunes) se propõe a comentar o trabalho do diretor italiano e muitas vezes colocá-lo à luz das experiências desenvolvidas por Grotowski e Antunes. “Os três, cada um a sua maneira – explica a autora -, trabalham dentro de visões particulares do mundo e da arte de interpretar, integrando elementos da filosofia, da religião, da política, da ciência”.
Para alcançar tal resultado, Adriana empreende um trajeto que o leitor acompanha com prazer. Ela inicia seu livro comentando as noções que o teatro tem no Ocidente, passeia pela história do teatro e seus rituais, apresenta um panorama da arte teatral no século XX(comentando alguns dos grandes revolucionários da linguagem, como Stanislávski e Brecht) e chega ao objeto de seu estudo: os centros de pesquisa teatral, que, segundo a autora, buscam o elo perdido, o teatro com seu caráter de transcendência, de ritual.
O livro promete se transformar num guia tanto para atores quanto para antropólogos. Adriana caminha com grande intimidade entre os dois mundos. Para o ator e criador teatral, a obra pode ser um norte para repensar a noção de teatro e da arte de interpretar – ou reafirmar certezas. Um fio condutor na descoberta do corpo como mapa simbólico, com aportes para exercícios e treinamento dentro da concepção de mundo e da anatomia teatral de cada um dos três criadores. Para o antropólogo oferece a possibilidade original de apresentar o estudo sobre um universo, visto de dentro e de fora deste mesmo universo, já que Adriana olha o teatro tendo como base sua própria vivência de atriz, rompendo barreiras cristalizadas entre as disciplinas acadêmicas.
Sobre a autora
Fez cursos e treinamentos com os diretores Eugenio Barba, Ariane Mnouchikine(do Théâtre du Soleil) e Antunes Filho. Foi das privilegiadas “testemunhas” escolhidas para assistir a uma das famosas “pesquisas parateatrais” dirigidas por Grotowski em seus últimos anos de vida. Ou seja, conhece intimamente o objeto de sua pesquisa.