João Pessoa(PB) – O administrador e escritor cearense Cássio Cavalcante consumiu oito anos de exaustivas pesquisas para lapidar “Nara Leão – A Musa dos Trópicos”, livro que será lançado, na próxima quinta-feira(30Abr2009), às 19h00m, na Livraria Esquina das Letras, do Zarinha Centro de Cultura, localizado na Avenida Nego, 140, Tambaú, telefone (83) 4009-1130.
Um dos primeiros leitores que melhor definiram a qualidade da obra é o intelectual Marco Antônio Bompet, ex-namorado de Nara Leão: “Li com atenção seu livro sobre Nara e fiquei tanto satisfeito como, de certa forma, surpreendido com o seu conteúdo”, afirma Bompet, em carta ao autor e inserida por este, à guisa de prefácio, no conjunto de textos de apresentação da obra.
Bompet se diz satisfeito por ter constatado a meticulosidade e seriedade da pesquisa, mesmo estando o autor afastado geograficamente das principais fontes de investigação para um trabalho dessa envergadura, e surpreendido favoravelmente com o fato de ter captado, como ninguém antes – que ele tenha visto – traços importantes da personalidade e do caráter da cantora.
Cássio Cavalcante é taxativo ao afirmar que Nara Leão, mais que uma cantora, foi uma das personagens do Brasil mais importante na época em que viveu. “Musa da Bossa Nova, o apartamento de seus pais foi um dos berços do movimento musical que ganhou o mundo”, ressalta.
O autor lembra que o primeiro disco de Nara Leão causou grande surpresa nos meios musicais brasileiros, ao resgatar o samba de morro, ou de pura raiz, quando se esperava canções na linha do amor,d o sorriso e da flor. ”Ela foi porta voz de toda população intelectual do País após o golpe militar de 1964, no show de protesto "Opinião" ao lado de Zé Kety e João do Vale. Quando todos estavam protestando, a artista cantou com o Brasil "A Banda”, destaca.
Cássio Cavalcante rememora ainda que Nara Leão lançou talentos como Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo, além de apoiar artistas no início da carreira, como Martinho da Vila e Fagner. “Ela foi a primeira cantora consagrada que deu apoio ao movimento tropicalista, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil”, completa.
Nara Leão, no entanto, foi mais além. “Simpatizou com a Jovem guarda, de Roberto e Erasmo Carlos, e foi a primeira intérprete a gravar um disco só com músicas do "Rei" e do “Tremendão”, destaca o autor. E teve o mérito adicional de ser o primeiro artista brasileiro a gravar no sistema de compact disc, o CD. “Não aderia a modas, as fazia”, sublinha.
Em seu texto, Cacá Diegues – que foi casado com a artista – assinala que Nara Leão foi uma das mulheres brasileiras mais importantes do século 20, por sua independência, inteligência, insatisfação e inquietação que a fez descobrir, para a sua geração, tanta coisa nova que se tornou definitiva. “Além, é claro, do enorme valor artístico de seu canto”, arremata.
“Todos nós – prossegue o cineasta -, que tivemos o privilégio de termos sido seus contemporâneos, como também aqueles que a ouvem até hoje, somos tributários permanentes do que ela nos deixou”.
Cacá Diegues costuma dizer que o paradoxo de Nara Leão é que ela nunca correu atrás do sucesso e, no entanto, o sucesso sempre a perseguiu, certamente por causa da radical sinceridade de sua obra. “Era ele que não podia viver sem ela, e não o contrário”, observa.
Segundo o cineasta, em um País de tanto excesso e tanta hipérbole, a elegância discreta de Nara Leão, sua voz limpa e serena, suas idéias tão claras, seu gosto apurado, “são uma jóia a ser preservada e cultuada por todo brasileiro que se preza”.
Diz ainda Cacá Diegues: “Por trás de sua doçura feminina, estava a luz de uma mulher rigorosa que exigia, de si mesma e do mundo à sua volta, a virtude permanente da verdade”. Disse tudo, o polêmico cineasta.
Sobre o autor

Cássio Murilo Coelho Cavalcante, administrador, cearense, nascido em Fortaleza(CE), é casado e mora em Recife(PE). Adepto da oficina literária do escritor pernambucano Raimundo Carrero desde 2003, iniciou-se na literatura como contista, e tem contos publicados em antologias a exemplo dos cinco números de Contos de Oficina, organizados por Raimundo Carrero, e Antologia das Águas. Organizou e participou do livro os Mistérios de Cada Um.
Publicou ainda na revista Caruaru Hoje e nos jornais Gazeta do Escritor e Gazeta Nossa. Neste ultimo se tornou colaborador com a coluna Bate-papo Literal, onde entrevista os principais nomes que fazem a literatura pernambucana. Já passaram pela coluna Raimundo Carrero, Abelardo da Hora, Marcus Aciolly, Fátima Quintas e Luzilá Gonçalves, entre outros.
É secretário geral da UBE–PE, União Brasileira dos Escritores, secção pernambucana, na qual coordena dois projetos: Ficção Pernambucana, na livraria Saraiva, e A Cultura e a Arte em Pernambuco, na livraria Cultura.