João Pessoa(PB) – A artista plástica paranaense Cristina Strapação inaugura nova exposição individual na próxima quinta-feira(14Maio2009), com vernissage às 19h00m, na Galeria e Oficina de Arte Solo, no Zarinha Centro de Cultura, localizado na Avenida Nego, 140, Tambaú. “Maria das Águas”, título da mostra, reúne pinturas em óleo sobre tela e desenhos a lápis de cor, todos inspirados nas praias do Cabo Branco, Seixas e Penha, no litoral sul de João Pessoa.
A gênese dos novos trabalhos de Cristina – suaves e coloridas “marinhas tropicais”, divididas em telas panorâmicas, de grande, médio e pequeno portes – pode ser encontrada em “Caminho do mar”, poema que a artista compôs especialmente para dar suporte conceitual à exposição:
Ando pela imensidão da praia,
respiro no ar cheiro de algas,
meus dedos colhem conchas e pedras.
Ouço no murmúrio a canção que se repete,
meus olhos divagam,
fotografando instantes.
No infinito e sucessivo
vai e vem das águas
o mar ensina a beleza da forma.
Escorrem imagens
que desabam em espumas brancas,
azuis, violetas, amarelas.
Com elas a minha alma desenha quadros, com luzes de artista,
que minhas mão oferecem.

Cristina explica que, para falar do ofício de pintar, é necessário, primeiro, lembrar, antes de tudo, que a pintura é a linguagem que há tempo, desde a pré-história, o homem escolheu para se exprimir e comunicar. “Pintar é, então, comunicação e deve se valer de todos os recursos para uma maior difusão da obra de arte, que, assim, só tem sentido quando tem por objetivo alcançar o espectador”, acrescenta.
Para Cristina, pintar é também a habilidade, a criatividade de exprimir o que já existe, o que muitos já fotografaram, filmaram, escreveram e encenaram com uma outra linguagem, nova e pessoal. “É um ato – prossegue a artista – que nos aproxima das pessoas, um ato muitas vezes de contestação, pode ser o que nos comove ou o que nos deslumbra”.
A invenção artística, na opinião da artista, é uma transgressão à rotina e ao aborrecimento da vida cotidiana. “A prática da arte – esclarece – é a via que liberta e afasta do tédio, das submissões que a sociedade nos impõe. Ela é um território livre, um grande espaço de liberdade onde podemos nos mover da forma que desejamos, seguindo nossos sentidos”.
Em texto que escreveu especialmente para o catálogo de “Maria das Águas”, o artista plástico, cantor, compositor e poeta paraense Bené Fonteles afirma que Cristina depurou-se, libertando-se do reino da figuração explícita. “Agora as paisagens se minimalizam e chegam à praia do essencial. Quase hai-kais. Uma visão eivada de simplicidade e respeito que presta um culto oculto ao natural se remetendo mais a natureza da artista do que adentrando num possível mar… Sábia, já sabe que o ato de pintar não só requer a maestria do fazer e a soltura do imaginário. Fazer arte é transgredir a realidade, ir ao que transcende, mas não cinde a cultura e a natureza”, comenta Fonteles.
A marchand Roseli García, da Galeria de Arte Gamela, no texto que escreveu para o convite da exposição “Uma janela para o infinito”, dá uma idéia precisa da arte de Cristina, quando afirmas que a artista não oculta o gosto pelo surrealismo, escola que teve em Salvador Dalí e René Magritte dois de seus maiores mestres. “Ela constrói com motivação uma panorâmica visual de cores entre os azuis, cinzas, verdes, ocres e brancos, com transparências bem resolvidas, na técnica do óleo sobre tela. Enxerga o seu desempenho, sem se preocupar com tendências e modismos outros: simplesmente traz a essência contida na sua linguagem prazerosa”, completa.
Sobre a artista
Cristina Strapação(Foto) é natural de Curitiba(PR), onde viveu até 2003. Hoje reside em João Pessoa. Formada em Serviço Social, deixou a profissão para estudar pintura. Frequentou cursos de desenho e pintura ministrados pelos artistas Danilo Lorusso, Daniel Freire, Hélcio Croseta, Dalva Lobo, Luís de Andrade Lima e Sérgio Prata, em Curitiba.
Tem curso em Restauração em Pintura pela Associació d`Amics de lês Antiguitats, de Barcelona, Espanha; de Anatomia pela Casa Elizalde; de Pintura sobre Vidro e Técnica de Vitral pela Fundación Del Vidre, e de Especialização sobre a obra de Antoni Gaudí pela Universidade Politécnica da Catalunya.
Realizou exposições individuais e coletivas em Curitiba(PR), Natal(RN), João Pessoa e Roma(Itália), e tem exposições permanentes em Curitiba, João Pessoa, Recife(PE) e Gramado(RS).
Sobre a artista, Bené Fonteles escreveu:
O templo da natureza nordestina é a paisagem d’alma de Cristina. A passagem de um tempo que nada tem haver com a eternidade, mas está a desenhar nuvens sobre a riscadura de horizontes, que não divide nosso olhar parcial sobre a paisagem pintada. Ele é cúmplice da luminosidade transparente em que a destreza de suas pinceladas desafiam o real sobre a brancura da tela a criar novos climas que já não dependem só de um estado onírico. O sonho já está explícito em revisitar o paraíso nunca perdido que ela oferta generosa a si mesma e ao outro.
Cristina está posta herética entre o mar e as nuvens, pagãos, como foram os indígenas potiguaras que primeiro povoaram e descobriram antes dos invasores a felicidade na costa paraibana. Ela desenha sob o olhar da mesma pureza uma linha de horizonte que divide duas paisagens quase distintas: numa, a luz n’água marinha é de intenso verde, noutra, é o intenso azul quase turquesa sobre os quais pairam as nuvens densas prontas a chover ou verter o inesperado luminoso dos raios.
Aportam nas praias através da meticulosa artesania da artista, os barcos que aprendeu a amar no litoral paranaense, ou, as jangadas nativas de nossa vasta costa. Ela sonha com olhos praieiros e pinta o som do ritmo de ondas e marés…
Não há mais só o preciosismo técnico ou o máximo desvelo da artesã a impressionar com seu apurado hiper-realismo, ou ainda, com as facilidades dos climas surreais. O desafio agora é maior no embate onde termina a natureza e começa a arte.
A oportuna boa nova de amar a pintura através da paisagem desvelada sobre a superfície da tela-retina pede agora um outro ousado olhar, ainda mais sensível e carinhoso sobre sua própria natureza interna.
Cristina deita sobre esta “tela-retina” o gesto da vera alquimista que traduz em cor e coragem através das sutilezas cromáticas. Quer ir além de uma terra que sobe para um céu que desce… ambos reencontram-se na linha horizontal de uma natureza recriada para romper as fronteiras do real. Só o olhar poético pode captar as sutilezas do transcendente que ela nos oferece por inteira.
Cristina depurou-se. Libertou-se do reino da figuração explícita. Agora as paisagens se minimalizam e chegam à praia do essencial. Quase hai-kais. Uma visão eivada de simplicidade e respeito que presta um culto oculto ao natural se remetendo mais a natureza da artista do que adentrando num possível mar…
Sábia, já sabe que o ato de pintar não só requer a maestria do fazer e a soltura do imaginário. Fazer arte é transgredir a realidade, ir ao que transcende, mas não cinde a cultura e a natureza. Faz uma arte que enobrece e dá força e luz ao espírito. Traz para a retina-cor-ação o que não é só maré no mar, ou o que pesa ou é leveza nas nuvens, ou ainda, o que é notícia da tarefa árdua que nos reporta às vivências nas embarcações sobre água e areia.
A ausência do humano na envergadura dos barcos e jangadas sugere também a presença sutil do pescador, que se impõe sobre todas as coisas pintadas.
“Marca o homem sobre o chão
leva no coração uma ferida acesa
dono do sim e do não
diante da visão da infinita beleza
finda por ferir com a mão
esta delicadeza
a coisa mais querida
a glória da vida”.
Assim como os versos da canção de Caetano, Cristina pinta com gestos de luz e cor, querendo não ferirem com a dura mão, estas delicadezas naturais da paisagem que, por enquanto, até pintá-las, são solitariamente suas e da intimidade do atelier luminoso na Ponta do Seixas.
Estes recortes utópicos – que por querer bem ao litoral paraibano, deseja, permaneça belo e sã – são a recriação de um paraíso perdido. E ela nos lembra que este paraíso é ainda mais solidário dentro de nós mesmos e que é possível habitá-lo com criativa responsabilidade além da realidade pintada. Um lugar de ousar ser, e como disse Gauguin, para também se “atrever a tudo”. Nele, enfim, se guarda e nos aguarda a visão privilegiada, não só imaginosa, da “infinita beleza”.
Bené Fonteles
Brasília, março de 2009.
Confira outro poema da artista:
Caminho do mar
(C. Strapação)
"Ando pela imensidão da praia,
respiro no ar cheiro de algas,
meus dedos colhem conchas e pedras.
Ouço no murmúrio a canção que se repete,
meus olhos divagam,
fotografando instantes.
No infinito e sucessivo
vai e vem das águas
o mar ensina a beleza da forma.
Escorrem imagens
que desabam em espumas brancas,
azuis, violetas, amarelas.
Com elas a minha alma desenha quadros,
com luzes de artista,
que minhas mão oferecem".