Santana dos Garrotes(PB) – Uma sucessão de tragédias tem marcado com sangue e lágrimas este Vale nos últimos 18 meses. Se não bastasse o grande número de homicídios e morte no trânsito, atos de violência ainda mais extremos e chocantes têm arruinado famílias e horrorizado a sociedade regional.
Parte de toda essa violência é motivada pela precariedade da segurança pública regional. Palco da mais recente tragédia, Santana dos Garrotes, por exemplo, embora sede de comarca e um dos seis municípios mais populosos do Vale, está sem delegado há seis meses e apenas dois policiais fazem a segurança de Santana, que tem dois distritos e um povoado.
“É uma das áreas rurais mais povoadas da região, concentrando metade da população municipal, e não resta dúvida de que a falta de segurança é um incentivo ao crime”, opina o secretário municipal Lindoberto Costa de Araújo.
“A coisa é séria, mas eu não quero tratar disso por telefone, e o que eu posso dizer é que estamos agindo”, diz o pároco local Luiz Gonzaga.
“Somente neste mês, foram mais de oito assaltos aqui no município, enquanto isso a cidade só conta com dois policiais empurrando uma viatura”, lamenta o vereador Zé Paulo, que pretende realizar audiências públicas para debater a problemática da segurança local.
E foi um desses assaltos que resultou em um crime dos mais brutais já registrados em Santana dos Garrotes. Noite de quarta-feira, 18 de março: depois de preparar-se para uma prova marcada para o dia seguinte, o estudante e missionário católico Isaac Araújo de Sousa, de 18 anos, descansa sobre uma rede armada na sala. Seu pai, Judivan Araújo de Sousa, de 44 anos, e sua mãe, Ivonete Epaminondas de Sousa, de 56, também estão em casa. Haviam chegado há pouco tempo da novena.
A casa fica localizada no sítio Exu, a pouco mais de 600 metros da cidade, às margens da BR-426, mas é um local desabitado. De repente, dois homens encapuzados e armados de facapeixeira invadiram a residência.
Isaac foi o primeiro a ser dominado. “Eu estava na cozinha e ouvi o grito de Isaac, então corri pensando que ele tinha sofrido um choque, e quando cheguei já vi um homem encostando ele na parede e com uma faca em sua cabeça”, narra emocionada Ivonete, ao afirmar que “eles diziam que não iam fazer mal a ninguém, mas eu não sei porque fizeram isso com Isaac, que não falou nada durante o tempo que esses homens tiveram aqui”.
Enquanto o jovem foi dominado por um dos bandidos, o outro cuidou em amarrar o casal com cordões de rede e depois revirou toda a casa em busca de dinheiro e objetos de valor, mas conseguiram apenas dois celulares e 50 reais. E o pior é que sequestraram o jovem e, horas depois, mataram cruelmente o rapaz, que era franzino e de baixa estatura. “Eles levaram Isaac nos braços e eu não sei se estavam de moto; se estavam, deixaram lá na frente, porque eu não ouvi zuada”, comenta a mãe, acrescentando que “Meu filho era um menino bom, querido, estudioso e sua rotina era de casa para a igreja”.
Encontro do corpo e prisão de suspeitos
Minutos depois da saída dos bandidos, Ivonete e Judivan encostaram-se, uniram as mãos e um conseguiu desamarrar o outro. Depois de soltos, iniciaram uma corrida por socorro. Em pouco tempo, um grupo de pessoas foi mobilizado e começou a procurar o jovem.
A procura estendeu-se por toda a noite até as primeiras horas da manhã da quinta-feira, quando o corpo do estudante foi encontrado em um matagal às margens de um açude no sítio Picotes, a aproximadamente quatro quilômetros do local onde ele foi sequestrado.
A brutalidade e a covardia com que o crime foi praticado chocou a população e comoveu a família, que ainda alimentava esperança de encontrar o jovem com vida, mas o que se viu foi um trucidamento: o rapaz recebeu golpes de faca por todo o corpo, inclusive na garganta. “Uma coisa terrível o que fizeram com o rapaz”, lamentou o delegado regional Ivaldo Dias, ao comentar que a hipótese mais provável para o crime é que os acusados tenham desconfiado de que o jovem pudesse tê-los reconhecido e, por isso, decidiram matá-lo.
Como o município está sem delegado, o dr. Antônio Gonçalves Leite, da delegacia de Aguiar, foi solicitado para apurar o caso. E a Polícia Militar, que estava mobilizada desde a noite anterior, intensificou as diligências e, poucas horas depois do encontro do corpo, prendeu o primeiro suspeito, José Cleber Antas de Sousa, de 24 anos, que, segundo informações policiais, já tem passagem anterior por roubo e tentativa de estupro.
Na tarde da sexta-feira(19Março2010), dois dias depois do crime, o segundo suspeito foi preso: Valdir Ferreira de Sousa Lima, conhecido por Tripa Seca, que tem 21 anos e inúmeras passagens pela polícia por furto e outros delitos. “Esse rapaz pratica crime em Santana desde os sete anos”, diz dr. Ivaldo Dias.
Os dois acusados são de Santana dos Garrotes e, conforme o delegado Antônio Gonçalves, foram reconhecidos por algumas testemunhas, pessoas que teriam visto os dois circulando na noite do crime, segundo o delegado, que indiciou os acusados por latrocínio(roubo seguido de morte), mas eles negam qualquer envolvimento no caso.
As características físicas dos elementos(dois homens magros e altos) que invadiram a residência descritas pela mãe de Isaac batem com o biótipo dos suspeitos. “Mas nós vamos continuar investigando o caso, buscando mais provas e evidências contra os dois e fortalecer o inquérito para que a Justiça aceite a denúncia contra os acusados”, diz o delegado.
Sepultamento e muita comoção
Na tarde da sexta-feira, 15 horas depois da chegada do corpo do Instituto de Medicina Legal(IML) de Campina Grande, Isaac Araújo de Sousa foi homenageado na igreja que serviu durante muito tempo e, em seguida, sepultado em meio às lágrimas de centenas de pessoas. “O que me conforta é saber que ele está em um bom lugar”, desabafa a mãe do jovem, que era seu único filho. “Eu também tive uma filha, mas morreu há dez anos”, comenta dona Ivonete.
Isaac servia à igreja desde criança: era coroinha, missionário católico e membro do Encontro de Jovens com Cristo(EJC). Ele fazia o último ano do ensino médio na escola Felizardo Dantas e era um jovem querido e muito conhecido na cidade pela dedicação aos estudos e às obras da igreja.
Além dos estudos, ele também ajudava o pai no cultivo de uma horta nos arredores da casa. A família sobrevive do cultivo e venda de verduras, mas é provável que não continue residindo no local. “Eu vou combinar com Judivan pra gente vender essa terra, porque eu não vou aguentar continuar morando aqui”, diz emocionada a mãe de Isaac, ao voltar os olhos para o quarto do filho.
* Transcrita da Edição nº 165(Ano IX – De 03 à 23 de Março de 2010) do Jornal Folha do Vale. O jornal de maior circulação na região do Vale do Piancó, no sertão do Estado da Paraíba.
