O Bê-a-bá do Sertão

População teme novo derramamento de sangue

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Itaporanga(PB) – O ano tem corrido sangrento no Vale. De janeiro para cá, pelo menos dezenove pessoas foram mortas à bala na região, sem contar o número expressivo de tentativas de homicídio.

Alguns desses crimes chocaram profundamente o Vale, a exemplo do que ocorreu na madrugada da sexta-feira, 23 de abril, na cidade de Santana de Mangueira, quando um casal foi brutalmente executado dentro de sua própria casa.

Carlos Batista Pereira, de 51 anos, e Cícera Pereira da Silva, de 49, dormiam no momento em que a residência foi arrombada e invadida por dois homens vestindo coletes à prova de bala e fortemente armados.

Apesar de aparentemente bem planejado, o crime deixou rastros e, poucas horas depois de sua execução, a polícia conseguiu identificar dois suspeitos: o policial civil Francisco Renato Pereira Júnior, de 28 anos, que atuava na Delegacia Regional de Itaporanga e apresentou-se um dia após o delito, e o militar José Alênio Leal Bezerra, que trabalhava na cidade de Sousa e apresentou-se na segunda-feira(26Abril2010), em Cajazeiras.

Os dois estão presos em Patos por medida de segurança, mas negam o crime. A perspicácia da Polícia Militar de Conceição e o depoimento de uma menina de 12 anos que sobreviveu à chacina foram fundamentais para a elucidação do crime, conforme o delegado Cristiano Santana, que foi auxiliado por três outros delegados, Walber Virgolino e Gean Francisco, do GOE(Grupo de Operações Especiais), e Cristiano Jacques, do GTE(Grupo Tático Especial), de Patos.

Os delegados estão convencidos de que foram os dois policiais que executaram o casal. A Justiça também está convicta disso, tanto que decretou a prisão temporária dos dois no dia seguinte ao crime, e horas depois Francisco Renato foi preso: ele encontrava-se na cidade cearense de Porteiras, onde reside o outro suspeito, e, ao saber que estava sendo investigado, apresentou-se espontaneamente na delegacia regional de Itaporanga, onde foi ouvido e depois conduzido a Patos.

Francisco Renato nega veementemente que tenha cometido o crime, mas admite que esteve com o policial militar na véspera do fato, inclusive visitaram juntos a Companhia de Conceição, segundo ele, com o objetivo de rever alguns amigos.

Com o indiciamento dos dois supostos executores, o trabalho da polícia agora será identificar os mandantes do crime.


Alvo era o filho do casal

Os homens arrombaram a porta da casa, dispararam vários tiros de pistola e espingarda 12 contra o casal e fugiram em uma moto, que foi abandonada durante a fuga e que se encontra em poder da polícia. A mulher dormia em um colchão na sala da casa e foi a primeira a ser morta; enquanto seu esposo, que repousava no quarto e sofreu vários disparos, ainda foi socorrido para o hospital de Itaporanga, mas não resistiu aos ferimentos. Duas crianças netas do casal também estavam na residência: C. F. B. P., de apenas 2 anos, foi ferido de raspão, e a menina, T.B. de S., de 12 anos, não sofreu nenhum dano físico, mas o trauma de presenciar a morte brutal dos avós é uma ferida emocional que deve acompanhá-la pelo resto da vida.

O casal deixou Curral Velho para residir em Santana de Mangueira para evitar possíveis conflitos com uma família rival depois do episódio sangrento que precedeu a eleição de 2008 no município curralvelhense. A casa simples e pequena que o abrigava localiza-se na Rua Antônio de Sousa Mangueira, em Santana de Mangueira cujos moradores ficaram chocados, assim como toda sociedade da região.

Carlos e Cícera Pereira(Foto) eram pais de Cícero Batista Pereira, conhecido por "Filho", que havia saído da prisão há três semanas por determinação da Justiça. Ele é acusado da morte de João Alves Barbosa Filho, filho do agropecuarista de mesmo nome, conhecido como João Carnaúba, fato ocorrido na madrugada de 30 de agosto de 2008 durante uma seresta em um bar da cidade de Curral Velho.

A morte de João Alves Barbosa Filho culminou com o assassinato, potivada por vingança, minutos depois do crime, de Silvino Pereira de Marrocos, conhecido por "Gato", então candidato a vice-prefeito de Curral Velho e parente do acusado da morte do filho de João Carnaúba.

Reacendia ali um antigo conflito entre setores das famílias Pereira e Carnaúba. A Polícia Civil não tem dúvidas que o alvo dos homens era "Filho", que havia saído há poucas semanas da cadeia e estava morando na casa dos pais, mas, na noite do fato, ele resolveu dormir na residência de uma irmã, que mora nas imediações.

Não há dúvidas de que a intenção era matar o filho do casal, inclusive ele próprio confirmou isso em depoimento”, comenta Dr. Cristiano, que também ouviu a menina. Ela disse que acordou com as pancadas na porta e rapidamente os homens invadiram a casa dizendo que eram a polícia, ordenaram que ela olhasse para baixo e iniciaram os disparos.

Foram vários tiros disparados contra o casal. Dona Cícera, que dividia o seu tempo entre a costura e os serviços domésticos, morreu passivamente; enquanto que o esposo ainda tentou fugir dos disparos, protegendo-se sob a cama, mas não houve escapatória.

Com relação à moto utilizada pelos acusados e apreendida pela polícia, o delegado disse que ela em nada contribuiu para a elucidação do crime já que se trata de um veículo adulterado. “A moto é certamente produto de furto, com placa fria, e isso já era esperado porque esse pessoal não iria cometer um crime usando um veículo legalizado”, comenta Dr. Cristiano.

A investigação
Foram policiais militares de Conceição que despertaram para a possibilidade do crime ter sido cometido pelos dois acusados, já que, na véspera do fato, a dupla esteve visitando a Companhia, algo não costumeiro. Mas a suspeita acentuou-se, principalmente, porque alguns militares conceiçoenses sabiam que um dos visitantes, no caso Francisco Renato, era comissário de polícia em Curral Velho.

Diante dessas evidências, os delegados imprimiram fotos do policial civil e do militar e levaram-nas até à criança, que os reconheceu como os homens que invadiram a casa dos seus avós.

Depois disso, os delegados solicitaram a prisão temporária dos acusados: Renato apresentou-se espontaneamente e foi recolhido em uma cela do batalhão da Polícia Militar de Patos, mas está à disposição da Justiça de Conceição; assim como o policial militar, que se apresentou na segunda-feira, três dias após o crime, e também está recolhido no batalhão patoense.

A prisão temporária por trinta dias deverá ser convertida em prisão preventiva pela Justiça de Conceição por solicitação do delegado Cristiano Santana. O delegado também pediu ao judiciário a inclusão da menina, principal testemunha do crime, no programa de proteção a testemunhas, ou seja, a criança vai ficar sob a proteção do Estado para ter garantida sua integridade física.

Polícia teme novas tragédias
O cearense Francisco Renato Júnior há mais de três anos integrava os quadros da Polícia Civil de Itaporanga e era considerado um policial destemido e combativo. Ele também era comissário de polícia na cidade de Curral Velho, onde recebeu Votos de Aplausos da Câmara pela sua importante atuação polical quando da tentativa de assalto contra a prefeitura local em 26 de janeiro deste ano.

Para o delegado regional Ivaldo Dias, o suposto envolvimento de Renato no crime foi mais uma surpresa desagradável: no começo de março deste ano um outro exintegrante dos quadros da Polícia Civil regional, Claudemir Soares, também foi preso. Este por usurpação de função pública e um suposto recebimento de propina, delito que o ex-delegado nega peremptoriamente.

Mas Dr. Dias esclarece que atualmente Renato prestava serviço em Nova Olinda, e vinha à delegacia regional apenas para dormir. Além do dissabor de ver um dos agentes de investigação da Delegacia Regional supostamente envolvido no crime, Dr. Dias teme que o duplo homicídio em Santana de Mangueira produza novos derramamentos de sangue.

Diante desses fatos e, principalmente, devido ao acúmulo de serviços em função da deficiência de pessoal em que se encontra a Polícia Civil regional, Dr. Dias solicitou, no final da semana passada, afastamento da Delegacia Regional por 60 dias para descansar.

* Matéria transcrita da Edição nº 167(Ano IX – De 14 de Abril à 04 de Maio de 2010) do Jornal Folha do Vale. O jornal de maior circulação na região do Vale do Piancó, no sertão do Estado da Paraíba.

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