O Bê-a-bá do Sertão

Sertão paraibano convive com uma das piores secas dos últimos 100 anos

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Itaporanga(PB) – Um ano de vacas magras, espigas e açudes murchos. Esta pode ser considerada uma das maiores secas dos últimos cem anos no Vale. Mesmo não havendo estatísticas oficiais que provem isso, ninguém pode duvidar da palavra de homens com 30, 50 e até mais de 75 anos de agricultura. Todos são unânimes em afirmar que nunca viram um inverno tão irregular e com tão pouca chuva como este.

Realmente: as chuvas, além de escassas, foram irregulares, o que agravou ainda mais o quadro da estiagem. Bem diferente de 2009, quando a média de precipitações no Vale, de janeiro a junho, ultrapassou 1.200 milímetros. Mas este ano, considerando o mesmo período, o município regional(Aguiar) que mais choveu não alcançou nem metade desse volume pluviométrico.

“Desde que eu me entendo de gente nunca vi o agricultor passar o ano sem comer uma espiga de milho, e este ano aconteceu isso”, lamenta Dodó Porcino, que reside no sítio Barrocão. Ele tem mais de 30 anos de agricultura e acredita que os piores efeitos da estiagem serão sentidos a partir de agosto, com a escassez total da pastagem e o agravamento da falta d’água em várias comunidades rurais.

O agricultor aposentado João Bandeira tem 85 anos e já passou por muitos períodos de estiagem, dois dos mais difíceis foram em 1953 e 1941, quando teve que migrar com a mãe e os irmãos para o interior do Pernambuco em busca de trabalho. Órfão de pai, precisou assumir os rumos da família quando ainda era apenas uma criança. A retirada para o sertão pernambucano foi feita a pé e a duras penas, mas quando retornou a Itaporanga três anos depois, a coisa por aqui já estava melhor.

Sobre o momento atual, seu João não tem dúvida que esta é uma das piores estiagens que já testemunhou. “Choveu pouco e atrapalhado”, resume, ao observar que hoje as pessoas não sofrem tanto porque o governo mantém assistência permanente aos mais pobres e existem outras fontes de renda, além da agropecuária, “mas se essa seca fosse em tempo passado, o sofrimento ia ser grande por aqui”.


Um outro retirante da seca do começo da década de 40 foi Pedro de Moisés, hoje com 80 anos. Ele também escapou no Pernambuco e em 1951 migrou para São Paulo. Foi um dos primeiros itaporanguenses a buscar o interior paulista. Com a experiência de quem já enfrentou inúmeras estiagens ao longo da vida, seu Pedro comenta que este tem sido um dos anos mais secos que ele já viu.


É fato que as secas da atualidade já não provocam tanta calamidade social a exemplo do que ocorria no passado, quando as pessoas passavam fome literalmente e tinham que migrar para outras regiões como único meio de sobrevivência, mas, mesmo hoje, as estiagens ainda são extremamente prejudiciais para a região: a falta de pasto para o gado e o difícil acesso à água em muitas comunidades rurais são os efeitos mais notórios.


Sem produção no campo e com o gado sem ter o que comer, a agropecuária regional vive um dos seus piores momentos, com efeitos drásticos para a economia do Vale, entre os quais redução do rebanho e fome na casa do agricultor, cuja subsistência ainda depende do que ele tira da roça. “A coisa só não está ainda tão difícil por conta dessas Bolsas do Governo Federal, mas para quem não tem nenhum benefício, a situação está insustentável”, comenta o líder comunitário rural Manoel Osmindo, que prevê um agravamento da situação nos próximos meses, principalmente, segundo ele, por causa do endividamento bancário de grande parte dos agricultores regionais: “sem produção e com o rebanho desvalorizado, fica difícil o produtor rural pagar suas contas e obter novo crédito para atravessar esse momento difícil”.



Níveis preocupantes

Este ano, como choveu pouco e irregular, os açudes que abastecem muitas comunidades rurais e urbanas estão com um nível reduzido e podem não resistir a mais um ano de estiagem. A questão é preocupante porque pode comprometer grandes aglomerados urbanos, a exemplo de Itaporanga, que tem a maior população regional e um reservatório insuficiente para longos períodos de estiagem. Hoje o açude de Cachoeira(Foto), única opção de abastecimento, está com pouco mais de 60% do seu volume total e, se não chover nos próximos meses, esse nível deverá cair ainda mais: processos como a evaporação, infiltração e o elevado consumo d’água pela população urbana são fatores cruciais na redução do volume.

Conforme a Cagepa local, o açude perde um centímetro por dia. “Mas, por enquanto, a questão não nos preocupa porque o açude tem água suficiente para garantir o abastecimento sem necessidade de racionamento até o próximo ano, e o que também nos tranquiliza é que há previsão de chuva para a região”, comenta Pedro Ferreira, gerente do escritório local da Cagepa.

Pedro esclarece também que, ao contrário do que algumas pessoas comentam na cidade, a nova adutora, que deverá ser inaugurada este ano, “não vai secar o açude porque a vazão, ou seja, retirada d’água, vai aumentar apenas mais 15 litros por segundo, totalizando 60, que é o que Itaporanga necessita hoje”.

As chuvas foram tão poucas que nos três maiores municípios regionais as precipitações não chegaram a 40% do volume médio de chuvas no ano passado: conforme dados do escritório regional da Emater e da Aesa, a agência estadual que gerencia a água, em Piancó, por exemplo, choveu apenas 370 milímetros; enquanto que em Itaporanga as precipitações de janeiro ao começo de junho foram de 407 mm. Já Conceição registrou 474 mm no período mencionado.

Dos grandes açudes regionais, quatro estão com níveis considerados baixos: Santa Inês, que está com menos de 35% do seu volume total; Emas, cujo nível está em 40%; Cafundó, em Serra Grande, que está apenas com metade do seu volume; e Cachoeira, em Itaporanga, que registra pouco mais de 60% de sua capacidade. Já o maior açude da região, o Coremas/Mãe D’água, ainda acumula cerca de 80% de seu volume máximo.


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Matéria transcrita da Edição nº 169(Ano IX – De 26 de Maio à 15 de junho de 2010) do Jornal Folha do Vale. O jornal de maior circulação na região do Vale do Piancó, no sertão do Estado da Paraíba.

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