Atlanta(Geórgia/EUA) – Começaram nos Estados Unidos os primeiros testes oficiais do mundo feitos com células-tronco embrionárias humanas, com aval de reguladores estatais.
Em Atlanta, médicos estão usando as células-tronco para tratar lesões severas na coluna vertebral, após autorização da FDA, agência governamental americana que regula medicamentos e alimentos. Os médicos informaram que já têm um paciente para os testes iniciais.

A técnica envolve a retirada de células de minúsculos embriões humanos, que têm o potencial de se converter em diferentes tipos de células do corpo, inclusive no sistema nervoso.
Durante os testes, serão injetadas células-tronco na coluna vertebral dos pacientes, para avaliar se o procedimento é seguro. Nos estudos realizados com animais, camundongos com paralisia recuperaram alguns movimentos. Mas ainda não se sabe se o método trará benefícios a seres humanos.
Experimental
A cada ano, cerca de 12 mil pessoas sofrem lesões na coluna nos Estados Unidos. As causas mais comuns são acidentes automobilísticos, quedas, tiros e lesões esportivas. Nos testes de Altanta, pacientes que se lesionaram nos 14 dias anteriores ao estudo receberão o tratamento experimental.
A empresa responsável pelos testes, Geron Corporation, defende que a técnica pode no futuro ajudar a regenerar células nervosas em pacientes com paralisia. Já críticos do método consideram-no um experimento com seres humanos e pedem que seja banido.
‘Décadas’
O presidente da empresa, Thomas Okarma, comemorou a autorização para iniciar os testes. "Quando começamos a trabalhar com células-tronco embrionárias, em 1999, muitos imaginaram que se passariam décadas até que uma terapia celular fosse aprovada para testes clínicos humanos".
Mas é possível que a confirmação de que o tratamento é seguro – e eficiente – ou não só venha depois de anos de testes rigorosos. "As notícias são empolgantes, mas é importante(lembrar que) o objetivo dos testes nesta etapa deve ser primeiro confirmar se(não causa) nenhum mal aos pacientes, e não buscar benefícios", disse o professor Ian Wilmut, diretor do centro de pesquisas regenerativas da Universidade de Edimburgo. "Quando isso for confirmado, o foco será o desenvolvimento do novo tratamento", pontuou.
Chris Mason, especialista em medicina regenerativa da Universidade College London, disse que pesquisadores britânicos pretendem seguir os passos de seus colegas americanos e começar testes no ano que vem com células-tronco, para combater uma degeneração celular que causa cegueira.
O governo dos Estados Unidos atualmente briga na Justiça para permitir o financiamento público de pesquisas com células-tronco. No mês passado, um tribunal de recursos do país suspendeu uma decisão judicial prévia que proibia pesquisas com células-tronco embrionárias financiadas com verbas do governo federal.
O debate, no entanto, não envolve as pesquisas realizadas em Atlanta, que são feitas com financiamento privado de US$ 170 milhões, da própria Geron.
Teste em humanos
Duas décadas depois de a ciência conseguir cultivar, com sucesso, células-tronco embrionárias em laboratório, uma companhia de biotecnologia anunciou, ontem, a primeira experiência terapêutica com esse tipo de estrutura em um paciente humano. Cercado de sigilo, o teste da Geron Corporation, será realizado em uma pessoa com lesão na medula espinhal, problema causado por um traumatismo que resulta na perda de diversas funções locomotoras e sensitivas. A empresa americana foi a primeira a receber, no país, autorização governamental para manipular as controversas células embrionárias com esses fins.
A Geron não forneceu informações sobre o paciente – idade, sexo, gravidade da lesão – mas afirmou, em comunicado à imprensa, que ele estava cadastrado no Shepherd Center(Foto acima), um hospital com centro de pesquisas clínicas de reabilitação em Atlanta, na Geórgia. Também foi informado que as células-tronco embrionárias utilizadas na pesquisa provêm de uma clínica de tratamentos para infertilidade, cujos embriões não implantados foram doados à ciência. Como têm capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula, as estruturas embrionárias serão manipuladas para darem origens a células nervosas. Teoricamente, elas poderiam se deslocar até o local da lesão e ajudar os nervos a se regenerar.
Ainda não se trata, porém, de uma pesquisa com o objetivo de cura ou tratamento da lesão. Na fase 1, o estudo vai verificar o nível de segurança das estruturas obtidas por meio das células-tronco embrionárias quando injetadas no organismo do paciente. “A função primária dessa fase é assegurar a tolerância nos pacientes com lesões espinhais”, diz o comunicado.
Mesmo que a pesquisa ainda esteja no início, trata-se de um grande avanço. A FDA(agência americana similar à Anvisa brasileira) já havia reprovado estudos desse laboratório, significando que o fato de uma agência tão rigorosa ter aprovado agora, depois que as exigências foram adequadas ao exigido, indica que é um procedimento seguro. Pacientes de todo o mundo estão “com os olhos voltados” ao experimento da Geron, no entanto é preciso cautela, pois a pesquisa pode não dar certo e frustrar quem deposita as esperanças no teste.