Cairo(Egito) – O presidente egípcio, Hosni Mubarak, ordenou que o toque de recolher no Cairo, Alexandria e Suez seja ampliado em uma hora e a partir de segunda-feira será das 15h00m locais às 08h00m, informou neste domingo(30Janeiro2011) a televisão estatal.

O toque de recolher, instaurado na sexta-feira(28Janeiro2011) devido aos protestos da população para exigir a renúncia de Mubarak(Foto acima), foi gradualmente ampliado, mas não é respeitado pela população. A medida anterior durava das 16h00m às 08h00m.
Na noite deste domingo, o opositor Mohamed ElBaradei(Foto abaixo), encarregado de negociar com o regime do presidente Hosni Mubarak, juntou-se à multidão que se concentra na Praça Tahrir para pedir a renúncia do presidente. O local é o centro de protestos na cidade. ElBaradei desobedeceu o toque de recolher que começou às 16h00m(12h00m, em Brasília).
Ele prometeu aos manifestantes que "a mudança chegará… Vocês reconquistaram seus direitos e o que começamos não pode ter volta", discursou aos milhares de manifestantes presentes. "Temos uma demanda principal – o fim do regime e o começo de um novo estágio, um novo Egito".
O Prêmio Nobel da Paz saiu de um carro perto da praça, cujo acesso era controlado por soldados em tanques de guerra. Ele caminhou rodeado por manifestantes que gritavam "O povo quer a queda do presidente" e "Vamos sacrificar nossa alma e nosso sangue pelo país".
As forças de oposição do Egito, lideradas pela Irmandade Muçulmana, encarregaram o dissidente Mohamed ElBaradei de negociar com o regime do presidente Mubarak, alvo dos protestos que já duram seis dias e paralisaram o país. A decisão foi divulgada neste domingo(30Janeiro2011) pelo professor universitário Saad al-Katatni(Foto abaixo), um dos líderes do movimento islamita.
A Coalizão Nacional por Mudança, que reúne vários movimentos de oposição egípcios – incluindo a Irmandade Muçulmana, que foi proscrita pelo governo – escolheram o Prêmio Nobel da Paz para representá-los "nas negociações com as autoridades", disse al-Katatni a agência de notícias Reuters.
Logo após a confirmação, ElBaradei disse que o presidente Hosni Mubarak deve deixar o cargo neste domingo(30Janeiro2011) para abrir caminho para um governo de unidade nacional em uma eleição "livre" e "justa". ElBaradei disse também que a política dos Estado Unidos no Egito está perdendo a credibilidade.
A polícia egípcia receberá nas próximas horas novas ordens que implicarão um replanejamento de sua missão para que assuma a partir de segunda-feira a defesa da segurança pública, disseram fontes oficiais neste domingo à Agência EFE .
As fontes afirmaram, no entanto, que a praça Tahrir, epicentro dos protestos dos últimos dias, seguirá sob custódia do Exército, que na sexta-feira passada recebeu ordens de apoiar a Polícia para manter a segurança do país.
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Governo cativa militares
Por sua vez, Mubarak visitou um quartel-general e reuniu os comandantes de alta patente neste domingo(30Janeiro2011). A reunião foi divulgada pela televisão estatal. A emissora mostrou Mubarak em reunião com o recém-nomeado vice-presidente Omar Suleiman, o ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi, o chefe de gabinete Sami al-Anan e outros.
A agência oficial de notícias divulgou que Mubarak conferiu também o trabalho das Forças Armadas no comando das operações de segurança.
A ofensiva política do governo consiste em cativar os militares. Por isso, o ex-ministro da Aviação Civil, Ahmad Shafic, foi confirmado pelo governo como primeiro-ministro. Shafic, que é um ex-comandante da Força Aérea, será o responsável por formar o novo gabinete de ministros, que foi dissolvido neste sábado(29Janeiro2011).
Além disso, o presidente egípcio, que não escolheu um vice-presidente desde sua posse em 1981, nomeou o seu chefe de inteligência e confidente Omar Suleiman, para o cargo. Muitos viram a nomeação como o fim das pretensões do filho do presidente, Gamal, de assumir a presidência.
Hosni Mubarak recusa-se a deixar o cargo, apesar da pressão da população. Como reforço à posição do presidente, o Parlamento egípcio anunciou neste sábado que não tem planos para antecipar as eleições.
Mubarak mandou também soldados e tanques para a capital Cairo e para outras cidades. O envio de tropas do exército para ajudar a polícia mostrou que Mubarak ainda tem o apoio dos militares, a força mais poderosa do país. Porém, qualquer mudança de opinião dos generais poderá selar o seu destino.
Líder espiritual muçulmano defende renúncia
A tensão aumenta ainda mais com a posição do xeque Yusef Al Qardaui a favor da renúncia do presidente Hosni Mubarak. O egípcio Yusef Al Qardaui é considerado o pregador mais influente do mundo árabe. Em entrevista à televisão Al Jazeera, o líder afirmou que a renúncia poderia resolver a crise no Egito.
"Mubarak, tenha misericórdia sobre essas pessoas e fuja antes que a destruição se estenda no Egito", afirmou o teólogo sunita que lidera a União Mundial de Sábios Muçulmanos e é um dos líderes espirituais da Irmandade Muçulmana no mundo.
TV Al-Jazeera é proibida de atuar no país
O ministro da Informação do Egito, Anas El Feki, proibiu neste domingo(30Janeiro2011) a rede de televisão Al-Jazeera de operar no país. O anúncio foi feito pela agência oficial Mena. A maior emissora de televisão do Qatar fazia uma ampla cobertura das manifestações contra o regime do presidente Hosni Mubarak. Ela transmitia em tempo real o movimentos nas ruas das principais cidades egípcias, Cairo, Alexandria e Suez, com comentários em inglês e árabe.
Em comunicado, a Al -Jazeera afirmou que a decisão das autoridades do Egito de proibir a cobertura das manifestações tem como objetivo "silenciar o povo egípcio".
Até agora, pelo menos 100 pessoas morreram no Egito desde o começo das manifestações contra o governo do presidente Hosni Mubarak, na última terça-feira(25Janeiro2011). O número foi apurado pelas agências de notícias Reuters e France Presse com fontes de segurança e médicas. Ainda não há dados oficiais sobre as vítimas.
A embaixada dos Estados Unidos no país aconselhou neste domingo os americanos a deixar o Egito o mais rapidamente possível. "Os voos para os pontos de evacuação começarão a deixar o Egito na segunda-feira, 31 de janeiro", declarou a embaixada em comunicado.
Toque de recolher
Milhares de egípcios desobedeceram o toque de recolher estabelecido para este sábado(29) e domingo(30Janeiro2011), apesar de as Forças Armafdas terem exigido que os manifestantes obedecessem a ordem. Houve relatos de saques e habitantes de subúrbios ricos do Cairo relataram a chegada de veículos militares nestas localidades, com o objetivo de impedir novos ataques.
O toque de recolher começou às 16h00m(12h00m, em Brasília) e terminou às 08h00m de domingo (04h00m, em Brasília) no Cairo e nas cidades de Alexandria e Suez.
A brasileira Larissa Amorim, que mora nos arredores da capital, revelou que o medo era muito grande na sua vizinhança devido aos saques que ocorriam na cidade. "Meu marido foi à rua juntamente de outros homens do bairro com facas e bastões para proteger as propriedades", contou ela, que é casada com um egípcio e mora no país desde 2007. "Nós estamos muito nervosos, mas os moradores falaram que, por enquanto, não havia sinais de distúrbios na área".
A rede de TV CNN exibiu imagens de pessoas armadas nas ruas do Cairo. Portando rifles, pistolas e outros instrumentos mais simples, como bastões e até tubos de aspirador de pó, eles tentavam espantar grupos que circulam em motos, supostos saqueadores.
Prédios do governo também foram alvos de tentativas de invasão, que deixaram dezenas de feridos. Os militares disseram que vão agir ‘com firmeza‘ para restabelecer a ordem e impor o toque de recolher. Em uma prisão no Cairo, os detentos armaram uma tentativa de fuga em massa, que foi contida. Oito presos morreram.
A brasileira Rossana dos Santos, que mora em Alexandria, outra cidade sob toque de recolher, disse, em entrevista, que ali também há homens armados tentando proteger os edifícios.
Depois da oficialização da estratégia anunciada na sexta-feira(28Janeiro2011), o presidente egípcio, que não escolheu um vice-presidente desde sua posse em 1981, nomeou o seu chefe de inteligência e confidente Omar Suleiman, para o cargo. Dessa forma, o presidente garante aliados militares no novo governo a ser formado.
Ataque ao Ministério do Interior
O exército egípcio guarda a sede do Ministério do Interior, no centro do Cairo, neste domingo. Dois carros blindados e um tanque montavam guarda na frente do edifício, que foi evacuado por causa de ataque de manifestantes neste sábado.
A polícia abriu fogo contra cerca de mil manifestantes egípcios que tentavam invadir o Ministério do Interior. A reação teria acontecido após um grupo de pessoas atirar contra o prédio e só parou quando tanques de guerra foram enviados ao local. Na ação, a polícia teria matado pelo menos três manifestantes, de acordo com a rede de televisão Al Jazeera.
O Exército tenta restaurar a ordem em meio a saques depois que as forças de segurança retiraram as seguintes ruas enormes manifestações na semana passada. Também no Cairo, tanques do exército egípcio e tiros disparados no ar foram usados neste para controlar pessoas que tentavam atacar a entrada do prédio do Banco Central, onde é impresso o papel moeda. Os manifestantes usavam pedaços de madeira e desistiram da abordagem depois de ouvir os tiros.
Ministros renunciaram
O gabinete de ministros do Egito anunciou oficialmente a renúncia neste sábado após dias de protestos da população contra o governo de Hosni Mubarak. Porém, a mudança não será suficiente para conter a onda de protestos no país.
O líder opositor Mohamed ElBaradei, afirmou que Hosni Mubarak terá de sair. Segundo ele, o discurso do presidente televisionado na sexta-feira(28Janeiro2011) foi "praticamente um insulto à inteligência das pessoas". El Baradei, chefe da Assembleia Nacional para a Mudança, chegou na última quinta-feira(27Janeiro2011) ao Cairo.
* G1.