O Bê-a-bá do Sertão

Muammar al-Khadafi desafia manifestantes e diz que morrerá como mártir

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Em meio a protestos, Muamar Kadafi conclama partidários a reprimir manifestantes que pedem sua renúncia.

Trípoli(Líbia) – Em seu segundo pronunciamento em menos de 24 horas, o líder líbio, Muamar al-Khadafi, rejeitou nesta terça-feira(22Fevereiro2011) deixar o país, prometendo combater os manifestantes que reivindicam sua renúncia e morrer como um "mártir". Gritando e falando com o punho fechado em um discurso de desafio na TV estatal, que pareceu ter sido gravado previamente, kadafi também conclamou seus partidários a expulsar das ruas os manifestantes que exigem sua renúncia.


Gritando, Muamar Khadafi se declarou "um guerreiro", proclamando: "A Líbia quer a glória, quer estar no cume do mundo. Sou um lutador, e morrerei como um mártir no final". "Ainda não ordenei o uso da força, não ordenei o disparo de uma única bala… quando o fizer, tudo queimará".

Muamar Khadafi ameaçou os opositores com uma resposta similar à usada em Tiananmen(a repressão na Praça Celestial, na China, em 1889) e de Fallujah(no Iraque), onde as tropas americanas teriam usado armas incendiárias de fósforo branco.


Ele conclamou seus partidários a sair às ruas para atacar os opositores. "Vocês homens e mulheres que amam Kadafi… saiam de suas casas e lotem as ruas", disse. "Saiam de suas casas e os ataquem em suas toques. A partir de amanhã saiam e os combatam".

"De hoje à noite para amanhã, todos os homens jovens deveriam formar comitês locais para a segurança popular", disse, pedindo que usem braçadeiras verdes para se identificar. "A população líbia e a revolução popular controlarão a Líbia".

O discurso de Muamar Khadafi, que apareceu envolto em um robe e turbante marrons, foi transmitido em um telão para centenas de partidários na Praça Verde, no centro de Trípoli. O local do pronunciamento é um pódium estabelecido na entrada de um prédio bombardeado que parece ser sua residência em Trípoli, que foi atacada por bombardeios dos EUA e deixada danificada como um monumento de desafio.

Em alguns momentos durante o discurso, a câmera focalizava um monumento dourado em frente do prédio, mostrando um punho destruindo um jato com uma bandeira americana nele.

Segundo Muamar Khadafi, covardes e traidores tentam retratar a Líbia em um caos, afirmando que os inimigos do país tentam prejudicar a imagem da nação. Kadafi afirmou que, como um líder revolucionário do país, tem de se sacrificar pela Líbia.


O pronunciamento foi feito enquanto aumentam os sinais de que o líder está perdendo apoio no país.

Embaixador nos EUA
Mais um diplomata líbio desertou o regime de Muamar Khadafi nesta terça-feira(22Fevereiro2011), o embaixador do país nos Estados Unidos, Ali Aujali, disse que não representa mais o “regime ditatorial” de seu país e pediu pela saída de Kadafi. “Renuncio a meu serviço ao atual regime ditatorial. E peço a ele(Kadafi) que deixe nosso povo em paz”, disse Aujali.

Na véspera, diplomatas que até há pouco serviam ao regime de Khadafi haviam anunciado que se aliariam à oposição ao líder. Foi o caso do vice-embaixador da Líbia na ONU, Omar Al-Dabbashi, que qualificou de “genocídio” a reação governamental aos protestos nas ruas da capital Trípoli, onde, segundo relatos, aviões e franco-atiradores dispararam contra manifestantes civis.

Também na segunda-feira(21Fevereiro2011), o embaixador líbio na Índia, Ali Al-Issawi, disse que decidiu deixar o cargo em protesto contra o uso de violência por parte do governo e afirmou que mercenários estrangeiros foram mobilizados para atuar contra cidadãos líbios.

Também renunciaram o embaixador líbio na Liga Árabe e na China e o ministro da Justiça do país, Mustafa Abdal Khalil, segundo o jornal Quryna.



Há relatos de deserção também entre membros das forças de segurança. Segundo a rede Al-Jazeera, parte da fronteira entre Líbia e Egito havia sido abandonada pelos guardas que faziam o controle de passagem, forçando as autoridades egípcias a enviar mais soldados à divisa.

E, na segunda-feira(21Fevereiro2011), dois soldados líbios aterrissaram em Malta alegando que se recusavam a usar sua aeronave para alvejar a população.

Tensão
Em Trípoli, o clima é de tensão. As ruas estão quase vazias, mas há filas para comprar pão e gasolina. A maioria do comércio está fechada. Há relatos de distúrbios e incêndios em alguns locais, e a presença do Exército é constante pelas ruas.

Muitas pessoas temiam sair de casa após uma noite de confrontos duros. Testemunhas relataram cenas de massacre e de corpos que se acumulavam nas ruas em algumas partes da cidade.


Eles não fazem distinção(entre civis e militares), estão atirando para limpar as ruas”, disse nesta terça à BBC News um morador de Trípoli, que não quis se identificar. “(Os atiradores) não são humanos, não sei o que são.

Não é possível obter uma confirmação oficial sobre o número de mortos, que já são centenas. Mas a ONG Human Rights Watch diz que, apenas em Trípoli, ao menos 62 morreram nos distúrbios desde domingo(20Fevereiro2011).

Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de estrangeiros tentam deixar a Líbia, mas muitos países – caso do Brasil – enfrentam dificuldades em obter autorização para pousar seus aviões em solo líbio e resgatar seus cidadãos.

Na noite de segunda-feira(21Fevereiro2011), Muamar Khadafi discursou menos de 30 segundos, apenas para confirmar que não havia deixado o país rumo à Venezuela e para dizer que a imprensa estrangeira está divulgando “rumores maliciosos”.

Muitos líbios reagiram com indignação ao discurso, pelo fato de Khadafi não ter se manifestado sobre os confrontos nas ruas de Trípoli.

Perfil

Kadafi tem formação militar e chegou ao poder após golpe
No governo há 42 anos, Muammar Abu Minyar al-Gaddafi (Muammar al-Khadafi) tem formação militar e chegou ao poder depois de um golpe de Estado que derrubou o então rei Idris. Aos 27 anos de idade, fez parte das tropas revolucionárias que em 1º de setembro de 1969 tomaram o governo do país e colocaram na liderança Al Magrabi. Logo depois, com a deserção de Al Magrabi, Kadafi assume o comando com o título de coronel.

Vaidoso, o estadista escreveu em 1975 o Livro Verde, no qual resume sua ideologia e defende a “democracia islâmica”, definida como socialismo árabe para a Líbia.

Nos anos 80, o presidente líbio dá apoio a grupos considerados terroristas pelo Ocidente, como o irlandês IRA e facções palestinas. A Organização das Nações Unidas impõe sanções ao país, acusando Kadafi de financiar o terrorismo.

Depois de a Líbia assumir formalmente responsabilidade pelo atentado contra o avião da Pan AM, em Lockerbie, na Escócia, em 1988 – com 270 mortos, e ter abandonado o programa de armas de destruição em massa, a ONU suspende as sanções e o Ocidente reata relações com o país africano.

Em maio do mesmo ano, Kadafi é atingido por um tiro, mas sobrevive a um atentado executado pelo grupo extremista Movimento de Mártires Islâmicos.

WikiLeaks
Em telegramas diplomáticos americanos vazados recentemente pelo site WikiLeaks, Muamar Khadafi é descrito pela diplomacia americana como “obssessivamente dependente de um pequeno núcleo de funcionários de confiança”. Segundo os documentos, o líder não pode viajar se não estiver com uma “voluptuosa” enfermeira ucraniana que o acompanha.

O presidente é conhecido também por preferir uma tenda beduína a um quarto de hotel. No interior da tenda é preciso haver computador, telefone, ar condicionado e banheiro. Uma guarda feminina e um grupo de homens bem armados completam segurança do líder.

O presidente líbio passa a maior parte do tempo em uma zona árida nos arredores de Trípoli, capital da Líbia. Ali costuma receber políticos, empresários e líderes internacionais.

Filho de um casal de nômades beduínos, Muamar Khadafi nasceu em 1942 na desértica região de Syrte. A data exata de seu nascimento, no entanto, é um mistério. Apesar de alguns historiadores afirmarem que ele nasceu em junho, outros falam em setembro. O líder, no entanto, se recusa e confirmar a data exata.

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