Segundo pesquisadores norte-americanos, atletas estão sofrendo contusões crônicas que podem ter efeitos no futuro.
Washington(EUA) – Uma das maiores preocupações da NFL(a liga de futebol americano profissional dos Estados Unidos) atualmente, os choques cabeça contra cabeça são responsáveis por originarem lesões crônicas no cérebro de praticantes da modalidade, segundo estudo da Universidade de Purdue(Indiana, EUA). Os efeitos dos choques prejudicam tanto profissionais quanto atletas de ligas universitárias e colegiais, e as lesões no cérebro preocupam porque muitas vezes não apresentarem sintomas claros.
Com sensores colocados em capacetes de atletas que disputam jogos das ligas colegiais dos Estados Unidos, os pesquisadores chegaram a medir choques duros entre atletas. Em um deles, as cabeças se bateram com força 300 vezes superior à da gravidade. No momento, o jogador que sofreu o choque não apresenta sintomas de concussão cerebral. O problema é que os repetidos choques causam as lesões crônicas no cérebro, diz o estudo.

Segundo levantamento de Eric Neuman, professor de engenharia biomédica em Purdue, há cerca de um milhão de atletas por ano em ligas colegiais nos Estados Unidos. Destes, 67 mil apresentam algum tipo de problema no cérebro decorrente das trombadas. Segundo Neuman, jogadores de ligas colegiais sofrem 150 choques na cabeça por semana durante a temporada, um total de aproximadamente 1500 por ano.
Se em ligas estudantis o número de choques entre atletas já é alto, na NFL o perigo fica ainda maior. Tentando acabar com as trombadas perigosas, a liga profissional dos EUA vem aplicando multas a atletas que usem força desproporcional durante as partidas. Pela trombada que pode ser vista no vídeo ao lado, o atleta Asante Samuel recebeu multa de US$ 40 mil(cerca de R$ 67 mil).
A descoberta das lesões crônicas foi feita enquanto pesquisadores de Purdue comparavam radiografias dos cérebros de atletas que haviam sofrido choques na cabeça com cérebros supostamente normais, de jogadores que não haviam sofrido impactos na cabeça. Para surpresa dos especialistas, a maior parte dos jogadores apresentava algum tipo de lesão cerebral crônica, decorrente de jogos e temporadas passadas.
“No começo, achamos que nosso scanner estivesse quebrado. Depois, notamos que está sendo criado um grupo de jogadores ‘danificados’”, disse o professor Eric Neuman. O especialista não sabe ao certo o que as lesões crônicas podem causar aos atletas, mas crê que, ao longo da vida, eles sofrerão com problemas na fala, na memória e na orientação espacial. A maior parte dos jogadores avaliados por Neuman apresenta problemas no lobo frontal do cérebro, que controla movimentos.
Professor alerta contra capacetes
Segundo Eric Neuman, os capacetes usados pelos jogadores de futebol americano são efetivos para prevenir fraturas no crânio, mas não conseguem evitar as lesões crônicas no cérebro causadas pelo repetidos choques na cabeça. Pelo fato de se sentirem bem protegidos pelos capacetes, os praticantes da modalidade muitas vezes se chocam com força excessiva, acreditando que nada vai lhes acontecer. Neuman diz justamente o contrário e alerta os jovens.
Expectadores norteamericanos lotam estádios em jogos de Futebol Americano.
“Se você tem uma lesão traumática no cérebro e continua jogando, corre um enorme risco de ter um problema sério mais tarde. Como os jovens(pesquisados pela Universidade de Purdue) não apresentam nenhum sintoma evidente, eles continuam jogando e se expondo a um trauma neurológico”, afirmou o professor.
Homens e mulheres que sofreram concussão cerebral se recuperam de maneira diferente.
Orlando, Flórida(EUA) – De acordo com os achados de um estudo apresentado durante o Encontro Anual de 2008 da American Orthopaedic Society for Sports Medicine, os jogadores e jogadoras de futebol que têm história de concussão recuperam-se mais lentamente do que aqueles sem esse antecedente.
O estudo detectou que o sexo e a história de concussão são responsáveis por diferenças significativas nos resultados das avaliações após a lesão. Devido a essas diferenças, os pesquisadores recomendam, de maneira veemente, que os médicos e técnicos tenham uma abordagem individualizada para o tratamento desses pacientes.
Dr. Alexis Chiang Colvin, fellow de medicina esportiva do departamento de ortopedia da University of Pittsburgh Medical Center, Pennsylvania, e co-autor do estudo disse em sua apresentação que “estes resultados sugerem que os médicos não devem ter uma abordagem única e padronizada para o atendimento das concussões. Nosso trabalho demonstra que pacientes com história de concussão apresentam uma resposta pior nos testes cognitivos após a lesão traumática do que aqueles sem esse histórico”.
Além disso, os pesquisadores detectaram que as mulheres apresentam resultados piores do que os homens nas testagens cognitivas após o trauma.
Dr. Colvin disse que a maioria dos estudos sobre lesões relacionadas com a concussão foi realizada entre jogadores de rúgbi ou hóquei do sexo masculino. Os autores decidiram estudar os jogadores de futebol devido a sua grande popularidade entre ambos os sexos, pelo fato de ser um esporte praticado sem capacete e com as mesmas regras para todas as categorias independentemente do gênero dos participantes.
Disse ainda que, a cada ano, estima-se que ocorram cerca de 1 a 4 milhões de concussões relacionadas com a prática esportiva nos Estados Unidos. As causas mais comuns de concussão no futebol são o choque entre cabeças, a queda ao solo e o choque entre a cabeça e outras partes do corpo.
A concussão é uma lesão encefálica que resulta em perda transitória da função cerebral geralmente causada por mecanismo de golpe. Ela pode afetar a memória, a capacidade de julgamento, os reflexos, a fala, o equilíbrio e a coordenação motora.
O estudo avaliou 234 jogadores de futebol(61% mulheres e 39% homens), com idade que variaram de 8 a 24 anos e que foram submetidos à avaliação neuropsicológica da cognição após a concussão que mediu atenção, memória, velocidade de processamento e tempo de reação. Foi utilizada análise multivariada de variância para avaliar os resultados obtidos na testagem cognitiva e para determinar as diferenças entre os grupos por gênero e pela presença de história de concussão.
Foi detectado que as mulheres apresentavam pontuações piores do que os homens nos testes de tempo de reação(P < 0,004). Da mesma forma, os pacientes do sexo feminino eram mais sintomáticos(P < 0,0002). Além disso, houve uma diferença não significativa entre os gêneros no desempenho dos testes de velocidade de processamento. O estudo detectou também que os jogadores de futebol com uma história de concussão apresentavam resultado pior nos testes de memória verbal após sofrerem outra concussão(P < 0,007).
De acordo com algumas teorias na literatura, o fato de homens possuírem uma musculatura de tronco e pescoço mais fortes pode dissipar as forças de maneira mais efetiva. Dr. Colvin informou que “a equipe observou o índice de massa corporal e julgou essa diferença a partir dele. Ainda assim, havia uma diferença entre os gêneros”.
Os pesquisadores comentaram que não é possível fazer nenhuma suposição sobre qual seria a razão para as diferenças de recuperação entre homens e mulheres encontradas. Dr. Colvin comentou que “essa é uma pergunta de um milhão de dólares” e acrescentou que são necessárias mais pesquisas para determinar estas razões.
Dr. Joseph Bosco, vice-chefe da ortopedia do New York University Medical Center de Nova York, comparou esses resultados com estudos anteriores que detectaram diferenças relacionadas com o gênero entre atletas que apresentavam lesão do ligamento cruzado anterior.
Dr. Bosco, que esteve envolvido nestes trabalhos disse que “é muito semelhante ao estudo sobre as mulheres com lesão do ligamento cruzado anterior, e levamos 5 anos para descobrir a razão. Agora que acabamos de descobrir a mesma associação entre jogadoras de futebol e concussão, também levará 4 ou 5 anos para que possamos descobrir o porquê”.