O Bê-a-bá do Sertão

Polícia oferece recompensa pela captura da viúva negra

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Rio de Janeiro(RJ) –
Heloísa Borba Gonçalves, de 61 anos – que também apresenta documentos em que assina Heloísa Duque Soares, Heloísa Duque Soares Lopes, Heloísa Duque Soares Ribeiro e Heloísa Saad -, já foi condenada por estelionato e falsidade ideológica, na década de 1980.

No próximo dia 25 de julho a “Viúva Negra” vai responder por falsidade ideológica(nove acusações), bigamia e homicídio no 1º Tribunal do Júri da Capital do Rio de Janeiro. Mas o Ministério Público reúne informações em que são relatadas as mortes de outros cinco homens que se envolveram com ela. Como teve filho com quatro deles, Heloísa teria sido beneficiada com os óbitos.

Heloísa nasceu no dia 13 de março de 1950 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Aos 19 anos deu à luz sua primeira filha, Patrícia Luciana Gonçalves Pinto, com Carlos Pinto dos Santos. No ano seguinte ao nascimento da menina, engravidou novamente e afirmou que a criança era filha do médico gaúcho Guenther Joerg Wolf, de 38 anos, morto em um acidente de carro em 1971.

Ela ingressou na Justiça pedido anulação de partilha, sequestro de bens e investigação de paternidade na 2ª e 3ª Vara de Família e Sucessão de Porto Alegre, no inventário de Wolf.O médico era solteiro e morreu quando dirigia seu carro, um Karman Ghia, na cidade de Taquara(RS). O carro do médico(placa AH-0449) colidiu contra um caminhão, de acordo com a certidão de óbito número 7.998, registrado na folha 290 do livro C-16 da 6ª Zona de Porto Alegre.

A filha de Heloísa e Guenther, Vitória Letícia Gonçalves Wolf, nasceu em 1972. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul informa que por se tratar de um processo de reconhecimento de paternidade, a ação, embora julgada, permanece em segredo de Justiça. Testemunhas dizem que ela teria herdado uma casa.

Um ano e três meses depois Heloísa teve outro bebê. Carlos Pinto da Silva Junior recebeu o nome do pai, Carlos Pinto da Silva, que seria o primeiro amante da “Viúva Negra”. O casal se mudou para Brasília, após passar por São Paulo, onde foi investigado por falsidade ideológica e estelionato. A condenação foi anunciada nos anos de 1980.

Antes, porém, em 1977, Carlos, Heloísa e as três crianças passaram férias em Salvador, na Bahia, onde se hospedaram no hotel Ondina. Na saída do hotel, para um passeio, Carlos foi alvo de cinco disparos feitos por um homem não identificado. Ele sobreviveu e acusou Heloísa de tentativa de homicídio. Dias depois voltou atrás e a polícia de Salvador arquivou o inquérito.

Em 1981, com 31 anos, Heloísa deu à luz outro menino, que ela só registrou um ano depois, em 1982. A paternidade foi assumida pelo securitário Irineu Duque Soares, de 41 anos. Os dois se casaram em 13 de maio de 1983, com pacto antenupcial garantindo à mulher três imóveis em Botafogo e duas linhas telefônicas. No dia 6 de outubro de 1983(Cinco meses depois), Irineu foi assassinado a tiros enquanto passava com a mulher e o filho no meio da rua, no município de Magé, na Baixada Fluminense. O caso foi investigado pela 70ª DP(Piabetá).

Heloísa contou à polícia que ela e o marido tinham ido à Baixada resolver “assuntos pessoais”. Sua filha mais velha, Patrícia, então com 14 anos, o filho do casal, Daniel Gonçalves Soares, então com 2 anos, e a babá da criança estavam no veículo.

De acordo com depoimento que Heloísa teria prestado à época, um homem negro, com uma cicatriz no rosto, rendeu Irineu com uma arma e anunciou um assalto, quando a família passava pela Estrada da Tocaia. Heloísa relatou ter fugido com a babá e as crianças e quando voltou encontrou o marido morto.

O ladrão teria levado duas alianças e quatro pulseiras de ouro, além de Cr$ 176 mil em espécie e talões de cheque. A polícia concluiu que o crime foi cometido por um assaltante conhecido como Bira Cicatriz, que morreu após a morte de Irineu. Heloísa herdou apartamentos, telefones, uma sala comercial em Botafogo(zona sul), e cadernetas de poupança, conforme registro nº 40.332, do inventário na 4ª Vara de Órfãos e Sucessão.

Documentos anexados à acusação do MP mostram que em 1989 Heloísa, usando o nome de Heloísa Gonçalves Duque Soares, se casou com o policial militar Roberto Souza Lopes, de 34 anos, com quem ficou de junho de 1985 a novembro de 1990. Nesse meio tempo, também subiu ao altar com o tenente-coronel da reserva Jorge Ribeiro, de 51 anos, em 15 de julho de 1989, tornando-se bígama. O militar foi assassinado a marretadas e com as mãos amarradas na sala comercial que tinha na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, em 19 de julho de 1992. O casal já estava separado. Heloísa também estava no local do crime.

Em 1987, o comerciante libanês Nicolau Saad, de 67 anos, nomeou Heloísa sua procuradora, como mostra a folha 065 do livro 597 do 11º Ofício de Notas do Rio de Janeiro. Em maio de 1990, a advogada selou matrimônio com Nicolau Saad, então com 70 anos. Nessa, usou o nome Heloísa Borba Gonçalves. Ela afirmou que estava grávida e convenceu Jorge e Saad a assumirem a criança.

Amigos de Nicolau contam que na década de 70 ele perdeu os dois únicos filhos, mortos em 75 e 76, em acidentes de carros, e começou a frequentar o Centro Espírita Caminho da Redenção(com sede na Bahia), ao qual doou imóveis em Ipanema e Copacabana. Heloísa cuidou da documentação, conforme informações da folha 113, livro 392, do 4º Ofício de Notas, da Bahia.

Nos dois anos seguintes, ela recebeu quatro imóveis como doação de Saad, segundo registro na folha 78 do livro 2.258 do 11º Ofício.

As informações anexadas ao processo do MP mostram que em 31 de julho de 1990, o comerciante libanês registrou Marcelo Fontelles Saad como seu filho e de sua mulher Heloísa Saad. Duas semanas depois, Jorge também registrou a criança como Marcelo Jorge Gonçalves Ribeiro, filho de Heloísa Gonçalves Duque Ribeiro. Em novembro Heloísa oficializou o divórcio com o PM Roberto.

Nicolau Saad faleceu no dia 29 de dezembro de 1991. O atestado de óbito informa que ele sofria de câncer e teve uma parada cardíaca. O documento, porém, ressalta que na hora da morte ele estava com o braço direito quebrado.

Após a morte de Nicolau Saad, Heloísa transferiu apartamentos e outros imóveis que pertenciam ao comerciante aos seus seis filhos, como mostram documentos registrados nas folhas 143,145, 147, 149, 153 e 168 do livro SI – 306 do 14º Ofício de Notas, na sucursal Ipanema. Acumulou seis apartamentos em Copacabana, três no Leblon – um dos quais na Avenida Delfim Moreira(na praia) – lojas na Barra da Tijuca e uma casa no Jardim Botânico.

Um mês e meio após a morte de Nicolau, Jorge foi assassinado na sala comercial em que trabalhava em Copacabana, como registrado no Boletim de Ocorrência nº 000962/92 da 12ª DP(Copacabana). Estava com os braços amarrados para trás, a boca amordaçada, jogado no chão de barriga para baixo e com diversos golpes de marreta na cabeça. No dia do crime, Heloísa afirmou à polícia que o militar dormira em sua casa. Saíram juntos para o trabalho às 06h30m e tomaram um café na portaria do edifício onde Jorge trabalhava com venda e aluguel de linhas telefônicas e imóveis. Ela diz que ficou na portaria, pois esperava três pedreiros que iriam reformar dois apartamentos do casal. Heloísa também afirmou que a vítima não tinha inimigos, mas que um mês antes de morrer teria dito que estava sendo ameaçado. Contou que Jorge carregava uma mochila com cerca de “US$ 60 ou US$ 80 mil dólares”, e que estavam separados “há um ano”.

Doze anos depois do crime, a “Viúva Negra” foi ouvida por carta precatória pela Justiça de Brasília. Seu primeiro amante, Carlos Pinto da Silva – que assim como ela é advogado -, a representou.

Diferentemente da primeira versão, Heloísa contou que passou apenas três meses casada com Jorge e que só se uniu a ele para “se mostrar” a Nicolau, com quem namorava “há algum tempo”.

Afirmou que a separação se seu porque o militar seria “agiota”, e “mentia muito”, além de “ter muitos inimigos”. Também declarou que a renda de Jorge “não era lá grande coisa” e que que havia tido prejuízo com o casamento.

Com a morte do tenente-coronel, Heloísa e o filho que ele registrou teriam recebido uma casa no Jardim Botânico(zona sul), um apartamento na Barra da Tijuca(zona oeste), uma sala comercial em Copacabana(zona sul) e uma cobertura na Ilha do Governador(zona norte). Ainda em 1992, Heloísa telefonou outro comerciante libanês: Wagih Elias Murad, de 84 anos, e se apresentou como viúva de Saad. Disse que precisava de orientação sobre imóveis, segundo o filho da vítima, Elie Murad. Elie afirma que Heloísa e seu pai se encontraram no mesmo dia, uma quarta-feira, e na sexta viajaram para um fim de semana em comum, quando começaram a namorar.

Ele diz ainda que o pai e Heloísa viajaram para Miami e Caribe(EUA), mas romperam o romance em dezembro daquele mesmo ano. O motivo seria a descoberta feita por Wagih, por meio de um amigo policial, de que namorada era bígama.

Em 14 de Maio de 1993, Heloísa mantinha um relacionamento com Hagih Muradi, que tinha 84 anos. Ele foi vítima de um atentado em que foi morto, junto com um filho de amigo libanês, Wagner Laino, quando passavam de táxi pela Barra da Tijuca. Pouco depois, um dos filho de Hagih – que desconfiava das circunstâncias da morte do pai – sofreu um atentado. Na ocasião, o detetive contratado pela família para investigar o caso foi assassinado.

O inquérito 273/93, da 16ª DP, que investiga a morte de Murad ainda não foi concluído(depois de passar pela Delegacia de Homicídios da zona oeste, sob o número 19/2005, o inquérito foi levado para o Centro Integrado de Apuração Criminal do Rio de Janeiro, onde pode ser encontrado pelo número 53.156).

Recompensa
O Disque-Denúncia está oferecendo uma recompensa de R$ 11 mil por informações que levem à prisão da advogada gaúcha Heloisa Borba Gonçalves, conhecida como Viúva Negra(aranha do gênero Latrodectus que ganhou este apelido pelo fato de a fêmea geralmente se alimentar do macho após a cópula). Fraudadora, estelionatária, suspeita de ordenar a morte de um amante e dois maridos, além de outras duas pessoas, Heloísa, tem 61 anos e está foragida desde 2005.

A Viúva Negra já foi condenada a mais de 19 anos de prisão pela 19ª Vara Criminal por um dos assassinatos. Ela é procurada pela Interpol em mais de 180 países. Inicialmente, a recompensa oferecida por informações que levassem à sua captura era de R$ 2 mil, mas em virtude da falta de denúncias e da periculosidade da criminosa, o valor foi aumentado nesta segunda-feira(16Maio2011), passando de R$ 2 mil para R$11 mil. No site http://www.procurados.org.br o valor da recompensa ainda não foi atualizado.

Heloísa também responde pela tentativa de homicídio do filho de um dos maridos na 1ª Vara Criminal. Segundo o Disque-denúncia, Heloísa também teria tentado dar o golpe do casamento em um peruano, mas não teve êxito. Seu julgamento está marcado para julho. Quem tiver qualquer informação que auxilie nas investigações e ajude a Polícia a localizar e prendê-la pode ligar para o Disque-Denúncia(21-2253.1177).

A recompensa será paga somente por informações passadas exclusivamente ao Disque-Denúncia. O serviço funciona 24 horas e garante o anonimato.

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