O Bê-a-bá do Sertão

Atirador ataca e mata 92 em acampamento na Noruega

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Ataque de atirador deixa ao menos 92 mortos e ocorre após explosão matar sete no centro da capital, Oslo.

Ilha de Utoya(Noruega) – Uma explosão de bomba na capital Oslo e um ataque a tiros em um acampamento na ilha de Utoya aterrorizaram a Noruega nesta sexta-feira(22Julho2011). O chefe da polícia da Noruega, Anstein Gjengdal, anunciou o envio de forças antiterroristas para um acampamento da juventude após um atirador atacar o local, a 40 quilômetros da capital do país, durante um encontro do governista Partido Trabalhista. Reagindo aos ataques, o primeiro-ministro Jens Stolenberg condenou as ações, afirmando que o país não se renderá.

A polícia disse que há 92 mortos pela ação do atirador. Previamente, a testemunha Andre Scheie disse à rede de TV NRK ter visto ao menos 20 corpos, mas a polícia não confirmou a informação. "Há muitos mortos na costa, entre 20 e 25", disse Scheie, que afirmou também ter visto corpos na água. Imagens da TV da Noruega feitas por helicóptero mostraram pessoas nadando na costa da ilha de Utoya(Foto abaixo), supostamente depois de terem se lançado às águas para escapar do atirador.



A ação do atirador, que teria usado uma arma automática, ocorreu após a explosão de uma bomba no centro da capital deixar ao menos sete mortos. De acordo com a mídia local, a polícia detém o controle do acampamento, prendeu o atirador e afirmou que ele tem vínculos com a explosão em Oslo. Segundo o chefe de polícia interino Sveinung Sponheim, o atirador, que seria caucasiano, foi visto na capital norueguesa antes da explosão. Segundo o Ministério da Justiça da Noruega, o atirador é norueguês.

De acordo com a mídia norueguesa, a polícia não considera que as ações desta sexta-feira(22Julho2011) têm relação com o terrorismo internacional, trabalhando com a ideia de que possam ter sido motivadas pelo atual sistema político do país. Além disso, desmentiu informação divulgada previamente de que o atirador usava um uniforme policial no momento do ataque. Na verdade, ele estaria com um abrigo azul que tinha um distintivo. A polícia também informou que o suspeito nunca trabalhou para a corporação.

Previamente, o site de notícias VG relatou que um homem vestido de policial havia aberto fogo indiscriminadamente no acampamento localizado em Utoya. De acordo com a AFP, o primeiro-ministro preparava-se para comparecer a um comício da ala juvenil de seu partido no local quando o atirador lançou o ataque. O premiê conclamou a população do país ao não se entregar ao medo após os ataques.

O primeiro-ministro faria um discurso no local, onde estavam reunidas 560 pessoas, no sábado. O ex-premiê Gro Harlem Brundtland participaria do encontro nesta sexta-feira(22Julho2011).

Previamente à polícia descartar envolvimento internacional nos ataques, um grupo desconhecido chamado de "Ajudantes da Jihad(Guerra Santa) Global" divulgou uma mensagem afirmando que esse é apenas o início da reação à publicação, por jornais noruegueses, de charges de Maomé e pelo envolvimento da Noruega na Guerra do Afeganistão.

Lançamos alertas de mais operações desde a ação em Estocolmo", disse o grupo de acordo com a tradução de Will McCants, um analista da C.N.A., um instituto de pesquisa que estuda terrorismo. A declaração aparentemente faz referência a uma explosão na Suécia em dezembro de 2010. Apesar da declaração desse grupo desconhecido, as autoridades ainda não sabem quem lançou os ataques.

Os Estados Unidos e o Reino Unido condenaram os ataques e se colocaram à disposição para ajudar autoridades norueguesas.

Explosões em Oslo
A grande explosão no centro de Oslo atingiu o quartel-general do governo, deixando ao menos sete mortos, segundo uma fonte policial citada pela Reuters. Citado pela Bloomberg, o porta-voz da polícia Oeivind Oestang confirmou que a explosão foi causada por uma bomba.

Segundo a Reuters, o ataque no centro de Oslo destruiu a maioria das janelas do prédio de 17 andares que abriga o escritório do primeiro-ministro. O premiê, porém, não foi atingido por não estar no prédio no momento do ataque. A polícia foi notificada às 15h36m locais(10h36 de Brasília) da explosão.

Segundo o chefe de comunicações da Cruz Vermelha, as pessoas estão em choque em Oslo e em toda a Noruega. "Nunca tivemos um ataque terrorista como esse no país – se esse for o caso -, mas claro que todos os noruegueses temiam há tempos isso pelo que se via acontecendo no mundo", disse.

Testemunhas falam que há destroços de um carro na frente de um prédio. Feridos foram vistos deitados em poças de sangue, de acordo com o Daily Telegraph. Grandes destroços ficaram espalhados nas ruas, e fumaça subiu dos prédios no centro da cidade.

Segundo o jornal norueguês Aftenposten, a polícia fechou áreas próximas e pediu que jornalistas e o público em geral se afastassem do local até que fosse determinado que não havia mais bombas. De acordo com Ingunn Andersen, jornalista do NRK, a sede do tabloide VG também ficou danificada.

"Vejo algumas janelas do prédio do VG e da sede do governo quebradas. Algumas pessoas cobertas com sangue estão deitadas na rua", indicou a Associated Press citando o jornalista. "É um caos completo aqui. As janelas estão destruídas em todos os prédios próximos".

A Noruega, que é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte(Otan), foi ameaçada previamente por líderes da rede terrorista Al-Qaeda por seu envolvimento no Afeganistão. O sucessor de Osama Bin Laden na organização, Ayman Al-Zawahiri, citou o país como um dos possíveis alvos de ataque. Segundo o Ministério de Relações Exteriores, a Noruega tem quase 700 soldados no país asiático. Apesar disso, a violência política é praticamente desconhecida no país.

‘Pude sentir respiração de atirador’
Adrian Pracon relata ter usado corpos de vítimas como escuda para se defender de atirador que lançou ataque na Ilha de Utoya.




Adrian Pracon

"Estava trabalhando no Departamento de Informação da ilha. Fomos informados por rádio a respeito da explosão em Oslo, então juntamos todas as 700 pessoas na ilha para lhes transmitir a informação. Poucos minutos depois, recebemos um telefonema dizendo que um policial estava chegando para falar conosco.

Fui até a lanchonete pegar suprimentos para todos. Ouvi então tiros e pude ver pessoas correndo. Elas eram alvejadas nas costas enquanto corriam. As pessoas caíam mortas na minha frente. Corri pelo campus até a área das barracas. Vi o atirador. Duas pessoas começaram a falar com ele e, segundos depois, foram atingidas por disparos.

Ele usava um uniforme negro, com detalhes em vermelho. Parecia um nazista, com o uniforme e o cabelo. O atirador era muito seguro, calmo e controlado. Ele parecia saber o que fazia e gritava para nós que todos íamos morrer.


Corremos para a água, alguns já haviam tirado a roupa e começado a nadar. Pensei que não tinha tempo para tirar a roupa e mergulhei, sob a chuva, vestido e calçando botas pesadas. Nadei por uns 150 metros, mas o lago tem 800 metros. Percebi que não chegaria do outro lado e voltei.

O vi parado a dez metros de distância, atirando em quem nadava. Ele apontou a metralhadora para mim e gritei: "Por favor, não faça isso." Não sei se me ouviu ou não, mas me poupou. Ele voltou uma hora depois. Eu estava com outros sobreviventes e estávamos todos deitados, escondidos atrás de árvores e rochas. Congelávamos em nossas roupas molhadas.


Os tiros começaram de novo e as pessoas caíam sobre mim, sobre minhas pernas e acabavam na água. Muitos morreram nesse momento. Fiquei atrás dessas pessoas, as usando como escudo, rezando para que ele não me enxergasse. No meio do tiroteio, levei um tiro nas costas.

Ele então chegou mais perto. Podia sentir sua respiração, suas botas, o calor do cano da arma. Mas não me mexi e isso salvou minha vida. Estou agora no hospital. O pior não é a dor física, mas pensar em quantos amigos morreram".


Stine Renate Haheim
"Sou integrante do Parlamento da Noruega e participava do campo da juventude. Nos juntamos em pequenos grupos conversando sobre as bombas de Oslo. Ouvimos então alguém gritar “a polícia chegou, estamos salvos”.

Vi então um policial descendo a montanha e, repentinamente, ele começou a atirar nas pessoas com uma arma. Corremos e pulamos na água quando vimos os barcos chegando. Nos trancamos e só queríamos estar em segurança e ajudar a todos. O mais aterrorizante, talvez, era que o atirador usava uniforme policial. Ele era calmo, nunca corria, só seguia atirando. Nunca ouvi sua voz".


Idealista
Contribuidor frequente de sites políticos da Noruega, ele tinha o multiculturalismo como principal inimigo, mas também se definia como anti-racista, pró-homossexuais e pró-Israel.

Detido para interrogatório pela polícia da Noruega como principal responsável pelos atentados que deixaram mais de 90 mortos em Oslo, capital do país, nesta sexta-feira, Anders Behring Breivik, de 32 anos, fazia comentários políticos regularmente em diversos sites – notadamente no Document.no, mantido por um expoente da direita norueguesa. Entre julho de 2009 e outubro de 2010 ele deixou dezenas de comentários no blog, que os agrupou neste sábado. Os textos formam um mosaico das ideias de Breivik e ajudam a compor o seu perfil. Como outros que acabaram se provando sociopatas, ele mostra ser bastante culto e articulado.


Anders Behring Breivik, suspeito do ataque terrorista em Oslo, na Noruega, postou mensagem no Facebook: "Ganhei meu primeiro milhão aos 24 anos".

Num de seus posts, Breivik revela sua desilusão com o Partido Progressista norueguês, ao qual foi filiado por 10 anos. Em nota publicada nesta sábado, o partido informou que Breivik entrou para o seu grupo de jovens em 1997 e permaneceu na agremiação até 2007 – tendo ocupado cargos de confiança entre 2002 e 2004 na regional do partido na área oeste de Oslo.

O Partido Progressista foi fundado em 1973 e é conhecido por abrigar políticos de extrema direita. Atualmente, é a segunda maior legenda do parlamento do país, ocupando 41 cadeiras. Defensor ávido dos preceitos do liberalismo econômico, o partido prega a redução do poder do estado norueguês e dos impostos pagos pela população. No entanto, quando se trata de questões sociais, sua veia extremista sobressai – principalmente quando o tema é a imigração.

O Partido Progressista é a principal voz contrária aos gastos do governo norueguês com auxílio social para refugiados e trabalhadores que chegaram de forma ilegal ao país. Em editorial publicado em 2010, o jornal britânico The Guardian classificou o partido como um dos maiores sucessos da direita europeia das últimas décadas. Segundo a publicação, apesar de contar com apenas 27.000 membros, o partido teria, no ano passado, apoio de 33% da opinião pública norueguesa. Segundo o site da legenda, seu número de apoiadores dobrou nos últimos dez anos.

No entanto, para Breivik, o Partido Progressista amoleceu em anos recentes. Num comentário publicado em 24 de janeiro de 2010 no Document.no, ele critica a falta de rigidez do partido – sobretudo quando o tema é o combate ao multiculturalismo. "A resistência genuína foi reduzida à mera divulgação de comunicados antes das eleições, para assegurar que as vozes do partido estão sendo ouvidas", escreve Breivik.

Ele também critica o fato de os membros mais proeminentes do partido serem políticos de carreira, e não "idealistas que querem assumir riscos e trabalhar por seus ideais”. Breivik compara os progressistas com políticos da esquerda, e afirma que esses últimos conseguem unir forças e disseminar suas ideias de maneira muito mais eficaz.

Essa perda de fé no Partido Progressista parece ter sido um dos motivos da colaboração de Breivik com o Document.no. “A maioria da direita, infelizmente, ainda não percebeu que é preciso derrotar o multiculturalismo parra derrotar a islamização”, diz ele em um de seus comentários. No último dos posts coligidos pelo site, datado de 29 de outubro de 2010, Breivik descreve o Document.no como uma das "poucas vozes ideológicas alternativas" da Noruega.

O Document.no é mantido por um proeminente jornalista norueguês, Hans Rustad, conhecido por seu discurso pró-Israel, anti-islamista e anti-imigração. As ideias de Rustad estão em linha com as de movimentos como o Stop Islamisation of Europe(Evite a Islamização da Europa), cujo slogan é "O racismo é a pior forma de estupidez. A islamofobia é o auge do senso comum".

No post de 29 de outubro de 2010, Breivik oferece conselhos a Rustad sobre a maneira de gerir sua empresa. O atirador, que se formou pela Escola de Comércio de Oslo e fundou, em 2009, uma grande propriedade para produzir alimentos orgânicos, batizada de Breivik Geofarm, apresenta as credenciais que o qualificariam como conselheiro em negócios: "Nos últimos 14 anos, trabalhei em diversos projetos ligados à internet. Tenho educação em finanças e dois outros bacharelados, ganhei meu primeiro milhão como empreendedor aos 24 anos e tenho muitos amigos que hoje são empresários bem sucedidos em várias indústrias. Muitos de meus amigos são experts no desenvolvimento de redes sociais".

Em vez de gastar dinheiro na contratação de repórteres, diz Breivik, o site deveria dedicar seus recursos à construção de uma rede social que integrasse suas bases "à semelhança do Tea Party", nos Estados Unidos. Em vários outros trechos, Breivik ressalta a necessidade de se fundar na Noruega um grande jornal conservador ou uma “plataforma pan-europeia de retórica e análise”.

Em outro post revelador, datado de 14 de setembro de 2009, Breivik se define como um "conservador cultural" e afirma: "Precisamos influenciar outros conservadores culturais para que adotem nossa linha de raciocínio anti-racista, pró-homossexuais e pró-Israel".

Breivik claramente se vê como um ideólogo e agitador cultural. Segundo o jornal norueguês Aftenposten, sua conta no Twitter tinha apenas uma mensagem, datada de 17 de julho. "Uma pessoa com uma crença equivale a 100 000 pessoas que têm apenas interesses", diz o post, adaptado de uma frase do filósofo britânico John Stuart Mill.

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