Ícone do site O Bê-a-bá do Sertão

A Paraíba se despede do Poeta Ronaldo Cunha Lima

Tempo de leitura: 6 minutos


Campina Grande(PB) – Com a presença de paraibanos de todas as regiões do estado, Campina Grande e a Paraíba se despediu do poeta Ronaldo Cunha Lima, que foi sepultado ao entardecer deste domingo, no cemitério do Monte Santo, na Rainha da Borborema. Desde ontem por volta das 20h30m, quando o corpo do Poeta chegou à Pirâmide do Parque do Povo para ser velado, que milhares de pessoas passaram para dar o seu adeus ao ex-prefeito e prestar solidariedade aos seus familiares.

Na manhã deste domingo foi realizada uma cerimônia religiosa presidida pelo Arcebispo de Natal, RN, D Jaime Vieira de Rocha, que até bem pouco tempo era o bispo da Diocese de Campina Grande. Durante a cerimônia foram muitos os momentos de emoção, notadamente quando o sobrinho Bruno declamou a poesia , “conversando com o meu pai” e depois foi veiculada a poesia “Quem sou eu” cantada por Massilon Gonzaga.

Dom Jaime, por sua vez, fez questão de registrar o quão histórico era aquele momento pelo qual Campina Grande e a Paraíba estavam passando ao relembrar a capacidade intelectual e política de Ronaldo Cunha Lima de quem ele sempre teve as melhores impressões.

No período da tarde, às 15h30m foi realizada a cerimonia militar que homenageou o ex-governador da Paraíba com salva de tiros e logo em seguida o corpo do Poeta foi levado por um carro do Corpo de Bombeiros até o cemitério. Uma multidão acompanhou o cortejo a pé, o que causou verdadeira comoção aos amigos de Ronaldo.

Personalidades do executivo, jurídicos e legislativo marcaram presença neste domingo em Campina Grande a exemplo do governador Ricardo Coutinho que acompanhou o cortejo em cima do carro de bombeiros, o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba, Ricardo Marcelo que foi acompanhado de vários deputados estaduais, o prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital, que acompanhou a missa no período da manhã e o senador Cícero Lucena, ex-vice governador da Paraíba entre 1990 e 1994, período governador por Ronaldo.

Porém o que marcou mais foram as intensas e muitas manifestações de carinho da população que foi às ruas, em alguns instantes sob chuva, mas que em nenhum momento deixou de manifestar todo o amor por Ronaldo.

Um pedido de Ronaldo que foi atendido pelos familiares foi que durante o sepultamento, ecoasse pelo cemitério a música Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin. E a emoção tomou conta de todos os presentes, que naquele instante se despedia do Poeta do Amor.

O senador Cássio Cunha Lima disse, emocionado, que aquela era também uma hora de louvar a Deus e agradecer pelo pai que ele teve, exemplo de honra e dignidade, que se despediu deixando ensinamentos de ética e paixão pela vida para todos os seus familiares, amigos e admiradores.

Ronaldo Cunha Lima é um paraibano de Guarabira, nascido em 18 de março de 1936. Advogado, ele era casado com Glória Rodrigues da Cunha Lima e tinha quatro filhos: Ronaldo Cunha Lima Filho, Cássio Cunha Lima, Glauce Cunha Lima e Savigny Cunha Lima. Foi Vereador e prefeito de Campina Grande, deputado estadual e federal, senador da República e Governador da Paraíba.

Conversando com meu pai

Na quietude d’aquela noite densa,
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!…
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.

Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.

De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí…
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!…
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.

Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.

Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minh’alma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.

Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.

Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!…
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.

Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.

Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.

E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!

E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.

Ronaldo Cunha Lima, (18 de março de 1936 – 07 de julho de 2012).

* Assessoria do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB).

Sair da versão mobile