O Bê-a-bá do Sertão

Dunga será o novo técnico da seleção brasileira

Tempo de leitura: 10 minutos


Rio de Janeiro(RJ) – A CBF(Confederação Brasileira de Futebol) agendou para 11h00m desta terça-feira(22Julho2014) a apresentação do novo técnico da seleção brasileira. Esse será o reinício da trajetória de Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga
(Foto abaixo) no comando da equipe nacional, que ele já havia dirigido entre 2006 e 2010. Escolha pouco cotada, o comandante foi conduzido ao cargo por seis motivos.

A lista de fatores que levaram Dunga de volta ao cargo é baseada numa combinação entre o perfil dele, o bom relacionamento com o coordenador-técnico Gilmar Rinaldi, as exclusões de outros cotados e o retrospecto do ex-treinador na equipe nacional.

Veja abaixo alguns aspectos que levaram a CBF a escolher Dunga:

01 – A CBF queria um treinador com perfil linha dura
A análise da cúpula da CBF é que a seleção que disputou a Copa de 2014 esteve muito exposta em alguns momentos. Com autorização da entidade, amigos e patrocinadores visitaram a concentração em muitos momentos. Na véspera do jogo contra a Alemanha, por exemplo, havia convidados no hotel do Brasil até 22h00m.

A avaliação da CBF é similar ao que a cúpula identificou na equipe em 2006, em Weggis(Suíça), onde o Brasil se preparou para disputar a Copa da Alemanha. Na época, a entidade também achou que a contratação de um técnico linha dura era a reação ideal. Isso levou Dunga ao comando da equipe nacional.

Agora, também pesou a análise de Gilmar Rinaldi, novo coordenador-técnico da seleção. Segundo pessoas próximas, a visão que ele tem de futebol tem como premissa o comprometimento dos atletas. A avaliação da CBF é que esse era um ponto muito positivo na seleção de Dunga.

02 – Exclusões de Alejandro Sabella, Tite e Muricy Ramalho

Antes de escolher Dunga, a CBF chegou a flertar com Alejandro Sabella(Foto acima), técnico que comandou a Argentina na Copa de 2014. O treinador foi assediado por José Maria Marin, presidente da entidade brasileira, na cerimônia em que recebeu premiação pelo vice-campeonato do Mundial.

Segundo o blog do jornalista Rodrigo Mattos, Sabella não aceitou sequer iniciar conversa. O treinador alegou que queria descansar e ficar com a família, e ainda disse que queria definir antes a situação com a AFA(Associação de Futebol Argentino).

Outros nomes, como Tite e Muricy Ramalho, foram excluídos pela CBF antes de qualquer conversa. No caso de Tite, o veto deve-se à ligação com Andrés Sanchez, principal adversário político de Marin e Marco Polo del Nero, que assumirá em 2015 a presidência da CBF. Andrés contratou Tite no Corinthians em 2010 e bancou a permanência dele até nos piores momentos. A pessoas próximas, Marin admitiu que a rejeição ao treinador é motivada por isso.

O veto a Muricy Ramalho é baseado em dois fatores: ele já recusou o cargo em 2010, antes da contratação de Mano Menezes, e a avaliação da CBF é que o atual comandante do São Paulo faria muitas exigências para assumir a seleção.

03 – Gilmar Rinaldi tem bom relacionamento com Dunga

Apresentado na semana passada como o novo coordenador-técnico da seleção brasileira, Gilmar Rinaldi(Foto acima) é um dos responsáveis pelo retorno de Dunga ao comando da equipe. O novo gestor é amigo do treinador desde a época em que ambos eram atletas.

Gilmar era goleiro reserva da seleção brasileira na Copa de 1994, quando Dunga foi capitão do time que conquistou o quarto título mundial da história do país. Os dois não convivem com assiduidade, mas têm boa relação desde aquela época.

04 – A CBF aprovou os resultados da seleção com Dunga
O Brasil de Dunga foi sexto colocado na Copa de 2010, pior posição da seleção desde o nono lugar de 1990. Ainda assim, a CBF considera os resultados como argumentos favoráveis ao retorno do treinador. Antes da Copa, a seleção de Dunga venceu a Copa América de 2007, disputada na Venezuela, e a Copa das Confederações de 2009, na África do Sul. Além disso, o treinador obteve uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008.


O desempenho do Brasil na Copa de 2010 ainda foi considerado satisfatório pela CBF. A seleção de Dunga foi a primeira colocada em seu grupo e avançou com tranquilidade às quartas de final. No jogo em que foi eliminada, contra a Holanda, a equipe nacional ainda fez bom primeiro tempo e chegou a estar vencendo por 1 a 0.

5 – Dunga tem experiência em Eliminatórias
A seleção brasileira terá até 2018 um ciclo muito mais movimentado do que os últimos quatro anos. O país voltará a disputar as Eliminatórias, e a experiência de Dunga nessa competição foi um fator que pesou para o retorno do treinador.


Como era sede da Copa de 2014, o Brasil não precisou passar pela qualificação. O país disputou um total de nove jogos de competição entre os dois últimos Mundiais – metade do tamanho das Eliminatórias Sul-Americanas, que têm 18 rodadas.

O Brasil de Dunga conseguiu nove vitórias, sete empates e duas derrotas nas Eliminatórias para a Copa de 2010. Foi o time com melhor campanha na América do Sul, com o melhor ataque(33 gols feitos) e a melhor defesa(11 gols sofridos), e ainda conseguiu resultados expressivos(vitória por 3 a 1 sobre a Argentina em Rosário, por exemplo).

06 – Dunga não é um alvo de Romário
O ex-jogador e atual deputado federal é um dos principais opositores da atual gestão da CBF. Na semana passada, ele atacou duramente a escolha de Gilmar Rinaldi para o cargo de coordenador-técnico. "Só pode ser uma destas duas coisas: sacanagem ou pegadinha", escreveu o Baixinho em uma rede social.

Romário também fez críticas incisivas à seleção quando a equipe era comandada por Mano Menezes, mas tem bom relacionamento com Dunga – os dois e Gilmar foram companheiros na seleção que conquistou a Copa de 1994.

Dez pistas da ‘filosofia‘ que Dunga deve levar para a seleção brasileira.
O que esperar de Dunga nesta sua volta ao comando da seleção brasileira? No início do mês, em meio à Copa do Mundo, ele deu algumas pistas sobre como vê o trabalho de um técnico de seleção.

Foi na véspera da partida entre Alemanha e França, válida pelas quartas de final, no Maracanã. Dunga participou de um evento promovido pela Coca-Cola ao lado do ex-jogador argentino Claudio Caniggia. À vontade, ele respondeu a perguntas de jornalistas por quase uma hora.

É preciso levar em conta que estas declarações foram dadas antes do trágico 7 a 1. Em todo caso, relendo as suas respostas, é possível ver com alguma clareza como o técnico pensa a respeito de algumas questões fundamentais.


Veja abaixo:

01. Excluir um jogador polêmico pode ajudar a unir o grupo
"Recentemente conversando com o(Arrigo) Saachi(técnico da Itália na Copa de 94), ele disse: ‘Você tem que convocar os jogadores pela competência, mas também pela confiança’. O Deschamps(técnico da França) começou a ganhar o grupo quando deixou um jogador de fora(referência ao meia Nasri, do Manchester City)".

02. Nem todo jogador "polêmico" é um Romário

"O treinador escolhe pela competência. Quando tem dois no mesmo nível, você vai escolher o menos polêmico, o que cria menos problema. Mas, se esse polêmico resolve as coisas dentro de campo, você tem que engolir. Agora, tem muito jogador polêmico que não resolve dentro de campo".

03. Não escala ninguém pela fama
"Muita gente diz: você tem que trocar fulano. Tudo bem. Mas me diz quem tem que sair? Eu, como profissional, se dou igualdades de condições de trabalho para todos, o que se acha melhor tem que mostrar em campo".

04. A fidelidade aos jogadores tem limites
"Foi assim com o Parreira em 94. Deu as oportunidades a quem estava com ele desde as eliminatórias, depois começou a mudar. Tem uma hora que o jogador precisa aparecer. Quanto maior é a cobrança, mais é a hora de mostrar a cara".

05. O capitão do time pode sentir a pressão
"Cada uma tem uma forma de reação, uma personalidade. Tem que ver o ser humano também. Que pode ter virtudes e defeitos como todos nós, que também sente a pressão. O mais importante é que o grupo entenda essa reação e saiba da personalidade do Thiago(Silva)".

06. Em uma seleção não há só um líder
"Não é só ele(Thiago Silva) que tem que fazer a liderança. Todos têm que ajudar. Só quem está lá dentro pode saber".

07. O talento individual muitas vezes é suficiente
"O que a gente vê(na Copa)? Fala-se em times ofensivos, mas o que se vê? Seleções marcando atrás do meio de campo, com jogadores velozes, que sabem definir. Quem define é o talento. Fala-se mal da Argentina, mas ganhou todos os jogos".

08. Ansiedade é diferente de pressão
"Pressão que a minha geração teve, em 94, não vai ter nunca. Era pau o tempo todo. Aquela geração tinha um temperamento muito forte. Essa geração não tem pressão, tem ansiedade, de mostrar ao Brasil que pode jogar em casa. Na Copa das Confederações, conseguia fazer gol logo no começo. Agora é diferente. Os jogadores estão ansiosos agora porque não conseguem fazer gol logo no inicio".

09. O papel do técnico é organizar
"A Colômbia melhorou muito com a entrada do Pekerman. Era um time muito desorganizado, sem obediência tática".

10. O enfrentamento com a imprensa faz parte do negócio
"Cada um tem uma forma de reação. Deixei todo mundo trabalhar igual e fui criticado. O Felipão está fazendo escolhas e está sendo criticado. Ser treinador da seleção tem mais prazer do desgosto. Como a gente reclama, vocês podem achar que a gente não gosta. Até com as entrevistas a gente se divertia. A gente sabia até o que os repórteres iam perguntar. ‘Aquele cara, ele vai fazer uma pergunta pra me alfinetar’. Assim como vocês estudam a gente, a gente estuda vocês. Nunca deixei ninguém sem resposta. O treinador vai ser criticado sempre".

Sair da versão mobile