Asa Norte e Lago Norte registraram maior quantidade de substância eliminada após consumo da droga.
Brasília(DF) – Um estudo inédito feito na rede de esgoto de Brasília detectou que a população do Distrito Federal consome, em média, 750 kg de cocaína por ano e mapeou as áreas onde o consumo é mais intenso. De acordo com a pesquisa, as regiões do Lago Norte, Varjão e Asa Norte, registaram o maior consumo da droga, seguida pela estação de Samambaia e do Gama.
Para chegar aos resultados, o pesquisador Rafael Feitosa, que fez do estudo seu projeto de mestrado, procurou por uma substância que é eliminada pelo organismo somente quando há o consumo da cocaína, além da cocaína pura. Ele explicou que quando a cocaína é consumida, é transformada pelo organismo humano em substâncias chamadas metabólicas, que são eliminadas na urina. Parte da droga também é excretada em sua forma pura.
Deste modo, a pesquisa coletou, em abril deste ano, amostras de esgoto nas oito estações de tratamento do DF: Brasília Norte, Brasília Sul, Gama, Paranoá, Planaltina, Samambaia, Melchior e Riacho Fundo. A partir da concentração da substância benzoilecgonina, proveniente do consumo, e com base na população atendida pela estação, é possível calcular o quantidade de droga consumida na região.
A estação norte, que abrange as regiões do Lago Norte, Varjão e Asa Norte, registrou o maior consumo da droga, seguida pela estação de Samambaia e do Gama.
De acordo com o assessor da Cord(Coordenação de Repressão a Drogas) da Polícia Civil, delegado Jonay Lemes Vieira, a cocaína é, de fato, o entorpecente mais apreendido na região norte. Dos cerca de 20 kg de cocaína escama de peixe, cuja pureza é maior, aproximadamente 10 kg, foram apreendidos na região. "As drogas com maior índices de pureza são direcionadas para a Asa Norte e Lago Norte".
Segundo ele, a renda dos moradores dessas áreas, entre as mais altas da capital federal, é um dos fatores responsáveis pelo alto consumo, uma vez que são substâncias mais caras do que outras drogas. Se for usada pela polícia, a pesquisa poderá apontar ainda possíveis laboratórios de refino da cocaína.
De acordo com Feitosa, quando a concentração da substância da droga pura for maior do que a de benzoilecgonina, quer dizer que a cocaína deve estar sendo despejada diretamente na rede de esgoto. Além disso, o estudo pode avaliar a eficiência de batidas policiais ou campanhas educativas com o objetivo de reprimir o uso da droga. "Para saber se surtiu efeito basta analisar as coletas da rede de esgoto e verificar se o consumo diminuiu após as ações".
Campeões de consumo
Na estação de tratamento Brasília Norte, foi possível mapear o perfil de consumo da região, já que as amostras foram coletadas durante sete dias seguidos. Assim, de acordo como autor do estudo, o consumo começa a crescer a partir de quinta-feira, no sábado há um pico e no domingo começa a diminuir. Segunda, terça e quarta-feira são os dias em que há menos consumo.
"Então há dois tipos de usuários, os que usam todo dia, e aqueles que só consomem no final de semana". A técnica, até então inédita no Brasil, surgiu na Itália em 2005. Em 2010, o professor Fernando Sodré iniciou o estudo na Unicamp(Universidade de Campinas), em parceria com a Polícia Federal, e no mesmo ano deu continuidade à pesquisa na UnB.
A partir dos primeiros resultados, Rafael Feitosa já vê a possibilidade de aprofundar o estudo e mapear o perfil mensal do consumo ou estender a pesquisa para outras drogas como a maconha e o ecstasy, como é de interesse da Polícia Federal. No entanto, para expandir para outros entorpecentes ilícitos, a metodologia ainda precisa ser aprimorada.
