O Bê-a-bá do Sertão

O que se sabe sobre o caso da Naja de Brasília

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Estudante de veterinária foi picado por cobra e levado ao hospital, chegando a ficar em coma. Acidente o levou a ser acusado de tráfico de animais.

O estudante do curso de medicina veterinária 
Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkul(22 anos) recebeu alta médica na tarde desta segunda-feira(13Julho2020). Ele foi internado desde a última terça-feira(07Julho2020), quando deu entrada no hospital particular Maria Auxiliadora, em Brasília(DF), com uma picada de uma cobra Naja no braço.

O caso parecia ser mais um dos acidentes envolvendo cobras. Enquanto Pedro Henrique lutava pela vida, no entanto, investigações conduzidas pela polícia apontaram indícios que ele teria cometido o crime de tráfico de animais.

Depois de uma denúncia anônima, o Batalhão de Polícia Militar Ambiental(BPMA) encontrou mais 16 cobras exóticas escondidas no núcleo rural Taquara, no Distrito Federal(DF). A principal suspeita é a de que Pedro Henrique seja o dono dos animais.


Encaminhadas para avaliação do estado em que foram encontradas, o Zoológico de Brasília disse que as cobras apreendidas estavam “magras e com lesões nas escamas“.


De acordo com a gerente da clínica cirúrgica do zoológico, Fernanda Mergulhão, a equipe de medicina veterinária e de biologia fez a coleta de sangue e a análise clínica e comportamental das serpentes.

A especialista disse que “os animais provavelmente não viviam nas condições ideais para um réptil“. Entre essas condições estariam umidade e frequência de alimentação adequada, o que ficou evidente pelas escamas danificadas das cobras.

Outro indício de tráfico de animais silvestres foram os objetos encontrados na casa de Pedro Henrique. Segundo a polícia, a descoberta mostra que o local servia como ambiente para a criação de outras serpentes.

Conforme as novas informações foram sendo descobertas, o quadro de saúde do estudante começou a piorar e ele chegou a ser colocado em coma induzido. Por ter sido ferido por uma cobra Naja, espécie com um dos venenos considerados mais letais, Pedro Henrique teve que ser tratado com um soro antiofídico produzido pelo Instituto Butantan, o único produzido no Brasil que poderia ajudá-lo.

Como a substância era a única produzida no País, o família dele chegou a comprar dez doses dos Estados Unidos, mas elas não chegaram a ser usadas. Por isso, as doses acabaram sendo doadas.

Na quinta-feira(09Julho2020), Pedro Henrique saiu do coma, mas ainda estava em estado grave internado na Unidade de Terapia Intensiva(UTI). Ele só teve melhora significativa neste sábado(12Julho2020), mas já foi multado pelo Ibama(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em R$ 2 mil por criação de animais sem autorização.


De vilã a celebridade
Antes apontada como a vilã da história a cobra que picou Pedro Henrique virou celebridade na redes sociais. No Twitter, o animal chegou a ter perfil criado para divulgação de memes relacionados ao caso.


Depois de ser apreendida, a naja também foi modelo de um ensaio fotográfico feito pelo zoológico de Brasília. As fotos viralizaram, com a web apontando a beleza do animal.


De acordo com informações do delegado da 14ª Delegacia de Polícia, que fica no Gama, no comércio ilegal de animais a cobra pode chegar a um valor de R$ 20 mil . A espécie é considerada a mais venenosa do mundo e é proveniente de locais da Ásia e África.


Por enquanto, Pedro Henrique segue internado, mas durante seus piores momentos o veneno chegou a causar ferimentos no coração e deixar o braço dele necrosado.

Cobra nasceu em cativeiro
O Ibama entende que a Naja encontrada possivelmente nasceu em cativeiro. Segundo o instituto, a naja tem coloração diferente da apresentada por sua espécie, sem melanina, por isso, acredita-se que ela nasceu e foi mantida em cativeiro. O animal não deve ficar no zoológico e provavelmente será encaminhado para um instituto de pesquisa.

Acreditamos que o próprio Instituto Butantan receberá a cobra. Mas ainda estamos estudando qual local poderá recebê-la. Estamos tendo todo o cuidado. Portanto, para evitar qualquer acidente, é procedimento padrão a deixarmos dentro da caixa“, relatou o Ibama.

Veneno pode matar em 60 minutos
Segundo o biólogo e diretor de répteis, anfíbios e artrópodes do Zoológico de Brasília, Carlos Eduardo Nóbrega, o veneno da Naja pode matar um ser humano em apenas 60 minutos após a picada.

Não existe registro oficial de entrada desse animal no DF. Ele não poderia estar sendo criado por uma pessoa física. Essa espécie é encontrada principalmente na Tailândia. É uma das grandes responsáveis por acidentes na Ásia“, explica. A cobra naja é encontrada na África, no Sudoeste da Ásia, Sul da Ásia e Sudeste Asiático.

Nóbrega também informou que o veneno da cobra atinge o sistema neurológico central do ser humano, afetando a respiração e a noção de espaço e tempo. A vítima também fica sonolenta.

Se você não mexer com essa espécie, ela vai embora. Não ataca. Mas se ela se sentir ameaçada, levanta o corpo e se prepara para o bote. Porém, se o humano ou animal insistir, a naja vai picar. Ela picou exclusivamente por defesa, até porque essa cobra não tem capacidade física de engolir um ser humano“, pontuou.

Soro foi enviado emergencialmente
O soro enviado pelo Instituto Butantan, que fica em São Paulo, é usado para emergências, caso ocorram ataques no local, já que a entidade de pesquisa possui algumas espécies da cobra Naja.

O Instituto Butantan informou que não produz e nem disponibiliza soro antiveneno para acidentes com naja, uma vez que é uma espécie exótica. A instituição somente mantém o soro em sua unidade hospitalar de atendimento para eventuais acidentes com pesquisadores que realizam estudos com o animal na instituição.

Na terça-feira(07Julho2020), foram enviadas doses desta reserva para ao Hospital Maria Auxiliadora(DF) atendendo a uma solicitação em caráter emergencial. O Butantan ainda conta com uma pequena reserva do soro e já está providenciando a reposição do estoque para uso interno por meio de importação.

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