Nesta sexta-feira (18Setembro2020), a Agência Internacional de Energia Atômica indicou que, desde junho passado, o Irã já produziu cerca de 533 quilos adicionais de urânio enriquecido, número superior aos níveis acordados no Acordo Nuclear de 2015.
Embora o Irã tenha expandido sua cooperação com a equipe de inspeção das Nações Unidas (ONU) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o país continua a produzir mais urânio enriquecido do que o acordado no Acordo Nuclear de 2015.
Neste dia 4 de setembro, o mais recente relatório apresentado pela AIEA de Viena indicava que, desde junho, o país produziu cerca de 533 quilos adicionais deste poderoso elemento químico.
Segundo a agência citada, o Irã autorizou o ingresso de integrantes de sua equipe em um quartel-general suspeito de possíveis aumentos não declarados nas atividades atômicas e, com o aumento da produção de urânio enriquecido em junho, a reserva passou para 2.105 quilos.
Estima-se que a maior parte da reserva de material está contida na forma de gás UF6 e que essa quantidade excede os limites acordados no Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA) em cerca de quatro vezes.
A pureza do material acumulado
Pelo menos 215 quilos do urânio enriquecido acumulado pelo Irã tem 3,67% de pureza e a quantidade restante ultrapassa esse limite, chegando a 4,5% de pureza.
Tecnicamente, para que esse urânio enriquecido seja considerado parte de uma provável aplicação ou uso militar, ele teria que ser mais de 80% puro.
Desde 2019, em reação à saída dos Estados Unidos do Acordo Nuclear em 2018, o Irã passou a produzir cada vez mais urânio de maior pureza, ação com a qual incorreu em violação das disposições do JCPOA.
Reator nuclear no Irã.
O Acordo Nuclear de 2015, que foi assinado em Viena, inclui compromissos como o que afirma que a República Islâmica não pode desenvolver, a curto prazo, uma bomba nuclear.
Como parte de suas ações contra a nação do Oriente Médio, os Estados Unidos implementaram medidas desde 2018, como o embargo do petróleo.
Autorização de acesso da IAEA
A entrada das equipes da AIEA na primeira sede suspeita ocorre após uma disputa de três meses sobre a autorização.
Em diversas ocasiões, a AIEA recebeu relatórios sobre o desenvolvimento de atividades não declaradas por parte do país. Apesar do fato de que, em princípio, o Irã se recusou a aprovar a entrada da missão com o fundamento de que as queixas foram feitas pelos serviços de inteligência de Israel, finalmente concordou.
Rafael Grossi, diretor-geral da entidade, tornava pública desde junho sua preocupação com o funcionamento das mencionadas instalações e exigia mais colaboração da nação. Em agosto, Grossi viajou para Teerã e se reuniu com as autoridades da República Islâmica para discutir as implicações da produção de urânio.
O Diretor-Geral da Organização Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, encontra-se com o Presidente iraniano Hassan Rouhani em Teerã, Irã, em 26 de agosto de 2020.
Os inspetores nucleares especificaram que, em uma das duas instalações suspeitas, realizaram testes ambientais que estão sob observação de equipamentos de laboratório.
Durante o mês de setembro, os membros do bloco de inspeção da AIEA poderão entrar no segundo quartel-general suspeito, que será analisado pelos integrantes desta missão, que é considerada um procedimento fundamental para esclarecer a origem do material. que não havia sido declarado pelo Irã.
Um dos salões do Palácio de Golestão que eram usados pela família real, no Irã.
Entenda a crise nuclear do Irã
Qual é a essência do acordo?
As suspeitas de que o Irã estava usando seu programa de energia nuclear para encobertar o desenvolvimento de uma bomba atômica levaram a Organização das Nações Unidas (ONU), os EUA e a União Europeia (UE) a impor sanções com o objetivo de persuadir o país a conter suas ambições armamentistas.
O Irã insistiu que seu programa nuclear era pacífico, mas em 2015 chegou a um acordo com seis países – EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha.
E concordou em limitar o enriquecimento de urânio – material que pode ser usado tanto para alimentar reatores como artefatos nucleares; reformular um reator de água pesada que estava sendo construído, e de cujo combustível irradiado poderia ser obtido plutônio, usado em bombas atômicas; e permitir a realização de inspeções internacionais.
Em troca, as respectivas sanções foram suspensas, permitindo ao Irã retomar as exportações de petróleo – principal fonte de receita do governo.
Pastilha de Urânio altamente enriquecido.
O que motivou a última crise?
O presidente dos EUA, Donald Trump, abandonou o acordo em maio de 2018 e começou a restabelecer as sanções. Em novembro, as que tinham como alvo os setores petrolífero e financeiro do Irã entraram em vigor. E provocaram um colapso econômico e inflação galopante no Irã.
O Irã reagiu deixando de cumprir alguns compromissos do acordo nuclear. E suspendeu as vendas obrigatórias para o exterior do excedente de urânio enriquecido e água pesada.
Também deu aos cinco países que ainda participam do acordo um ultimato de 60 dias para proteger as vendas de petróleo iraniano das sanções dos EUA. Caso contrário, o Irã suspenderá suas restrições ao enriquecimento de urânio e interromperá a reformulação de seu reator de água pesada.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que realiza as inspeções, diz que o Irã já aumentou a produção de urânio enriquecido – mas não se sabe em quanto.
O que os EUA querem?
Trump diz que quer renegociar o acordo e ampliá-lo para incluir o programa de mísseis balísticos do Irã e seu envolvimento em conflitos no Oriente Médio.
O Irã está convencido de que o acordo não pode ser renegociado.