O Bê-a-bá do Sertão

Ela passou em 1.° lugar no ITA, escola onde 94% dos aprovados são homens

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A estudante Luciana de Oliveira dos Santos, de 20 anos, foi a primeira colocada no vestibular do ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica), entre os que buscavam uma das vagas de carreira militar.

Em uma instituição majoritariamente masculina, a aprovação é considerada simbólica. “Ser a 01 nem eu esperava. Trouxe um significado especial para muitas meninas que podem estar em dúvida (de seguir um sonho). O primeiro lugar se tornou muito mais simbólico neste aspecto do que uma vitória pessoal minha“, disse Luciana.

O vestibular do ITA é considerado o mais difícil do país e, até 1995, ela sequer poderia se candidatar a uma vaga por lá. Isso porque o instituto, até aquele ano, só aceitava inscrições de homens. A primeira turma com formandas mulheres (duas) concluiu o curso em 2000.

Mesmo 22 anos depois, a procura pela instituição, com cursos na área de engenharia, ainda é muito maior entre o público masculino – o número de homens inscritos é três vezes superior ao de mulheres.

Neste ano, apenas 6% dos aprovados no vestibular do ITA são mulheres. Elas ocuparão só 9 das 150 vagas em 2023.

Neste ano, outra aprovação no ITA também chamou a atenção: um adolescente de apenas 14 anos se tornou o mais novo aprovado na história do vestibular.

Luciana espera que a sua aprovação estimule mulheres que desejam prestar a prova do ITA. “É muito ruim esse sentimento que algumas meninas podem ter de se sentir diferentes [por querer estar no ITA]. Mas é um espaço que a gente pode pertencer, que estamos sendo bem-vindas e muita gente nos apoia. Estamos ocupando um espaço e sendo acolhidas por todos“, completa ela, que já foi cumprimentada por professoras e veteranas.

Tentar de novo não desmerece sua capacidade intelectual.
Luciana de Oliveira dos Santos.

Bem longe de casa

Natural de Recife, a jovem saiu de casa em 2021 para estudar. Primeiro, com os amigos, foi para Fortaleza. Depois, no início deste ano, mudou-se para São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde fica a sede do ITA e o curso preparatório Poliedro.

É complicado, porque fico muito longe da minha família e a passagem não é nada barata. Em Fortaleza, eu ainda conseguia ir de ônibus [para Recife]. Apesar da viagem de quase 12 horas, tinha um preço fixo que não era tão absurdo“.

Ela conta que seguia para o quarto ano de cursinho, na tentativa de passar no ITA. “A insegurança batia. Ficar longe da família com esse sentimento é complicado“.

Reprovou no teste físico

Mesmo sem nunca ter sonhado com a carreira militar, Luciana está ansiosa para o início do curso. A decisão pela vaga privativa (de carreira militar) foi tomada mais como um desafio, imposto por ela mesma, do que por uma paixão antiga.

No ano passado, ela chegou a passar algumas semanas no IME (Instituto Militar de Engenharia), no Rio de Janeiro, mas foi reprovada no teste físico – que tem caráter eliminatório na instituição.

Apesar da frustração de reprovar em algo que é essencial na carreira militar, me senti estimulada a quebrar essa barreira, do mesmo jeito que quebrei a barreira de não querer parar por aqui e de não desistir depois de quatro anos tentando [entrar no ITA]”, explica.

Diferentemente do IME, o ITA não cobra uma avaliação física logo de cara e oferece um curso de preparação de oficiais da reserva ao longo do primeiro ano.

Ainda assim, mesmo com uma rotina rígida de estudos, Luciana fez treinos físicos todos os dias ao longo do ano para quando esse momento chegar, no segundo ano da faculdade.

‘Ia mal em simulados’

Para Luciana, a melhor maneira de estudar não existe – é muito individual. E a dica é não se abater pelo primeiro sentimento negativo. “Quando eu cheguei [no cursinho], foi um baque. Ia mal em simulados, tinha problemas que pareciam impossíveis de resolver. Mas esse é um sentimento normal de quem entra. Você tem 17 anos e tem, na sua sala, pessoas de 23 anos já com certa experiência, uma bagagem“. No caso dela, o espírito de união entre os colegas, além dos grupos de estudo, foi essencial no processo.

“Foram quatro anos de muito sufoco e pressão psicológica. De sentir que estava ficando para trás, já que meus amigos da escola já estavam na metade do curso. Isso bate muito e desanima. Conseguir essa vaga é um alívio”.
Luciana de Oliveira dos Santos.

Nesta reta final, ela acordava por volta das 06h30m e, às 9 horas, já pegava nos livros. Dependendo do dia, essa etapa ia até as 13 horas, quando seguia para o cursinho. Por lá, a aula ia até a noite. A rotina se repetia também aos sábados. Domingo era dia de simulado.

É uma rotina puxada, estudar era basicamente tudo o que eu fazia. Todos os dias eu tinha de aprender uma coisa nova, isso me deixava mais animada“, conta a jovem.

As orientadoras falavam que eu estava enchendo uma garrafinha com conhecimento. Poderia não ter chegado ao topo ainda, mas eu estava enchendo. Essa é a ideia de estar em um processo“.

 

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