Artista morreu em hospital particular em Fortaleza com doença que dificulta a respiração.
A compositora e cantora Rita de Cássia, conhecida por ser autora de clássicos do forró eletrônico, morreu na noite desta terça-feira (03Janeiro2023), em Fortaleza(CE).
Ela estava internada em uma Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) de um hospital privado. A artista lutava contra o diagnóstico de fibrose pulmonar.
A doença é caracterizada quando o pulmão do indivíduo fica com cicatrizes no tecido ou passa a ser mais endurecido. A enfermidade reduz a capacidade de expansão do órgão no processo de respiração.
Em recentes postagens no Instagram, a compositora apareceu com voz ofegante em rápidas mensagens de vídeo em comemoração ao Natal e ao ano novo.
Rita de Cássia ficou conhecida nacionalmente pelas letras impulsionadas nas vozes de vocalistas da banda Mastruz com Leite. A forrozeira é natural de Alto Santo, no Ceará.
Na década de 1990, Rita de Cássia firmou forte parceria com Emanuel Gurgel – empresário dono das bandas Mastruz com Leite e Cavalo de Pau.
O repertório de Rita de Cássia ficou marcado por aliar a vida dos vaqueiros com romances e as vaquejadas. A canção “Saga de Um Vaqueiro“, música que alcança cerca de nove minutos de narrativa, é um dos retratos vivos do interior escrito em estrofes pela cearense.
Rita de Cássia morava em um apartamento em Fortaleza com os filhos. Na música, a forrozeira atuava em carreira solo e conta com gerenciamento de agenda de uma produtora sediada no Rio Grande do Norte.
Trilogia
A artista tem no seu histórico mais de 500 composições, gravadas por bandas e artistas como Mastruz com Leite, Amelinha, Aviões do Forró e Frank Aguiar. Entre as músicas feitas por Rita estão “Meu Vaqueiro, Meu Peão“, “Saga de um Vaqueiro” e “Jeito de Amar“.
Sua primeira composição gravada foi a música “Brilho da Lua“, em 1992, interpretada pela cantora Eliane, que relembrou em uma homenagem o primeiro contato que teve com Rita de Cássia.
“O ano era 1991, a mocinha tímida que foi até a minha casa na Messejana me apresentar umas composições. Ritinha passou a tarde na minha casa com o seu violão apresentando seus sucessos para mim e meu amado pai Zé Lima. Ela me apresentou ‘Brilho da Lua’, ‘Meu Nego’, ‘Meu Vaqueiro, Meu Peão’ e ‘Sonho Real’. Escolhi ‘Meu Nego’ e ‘Brilho da Lua’. De 91 em diante, todo álbum tinha que ter clássicos dessa estrela… que se tornavam carro-chefe dos álbuns“, publicou Eliane, após a morte de Rita.
Depois das primeiras canções de Rita de Cássia, Eliane também gravou as músicas “Canto e Declamo”, “Vou Te Esperar”, “Como Encontrar”, “Perdi Meu Paraíso” e “Pode Ser Você”, todas feitas pela artista.
Rita de Cássia, que já estava em destaque no estado, se consolidou nacionalmente como compositora em 1993, quando a banda Mastruz com Leite gravou a música “Meu Vaqueiro, Meu Peão“, considerada até hoje como um dos “hinos do forró moderno“.
Em 2002, a artista teve outra composição que explodiu nacionalmente, com a música “Jeito de Amar” (Já Tomei Porres por Você), gravada nas vozes de Solange Almeida e Xandy Avião, da Banda Aviões do Forró.
Na carreira como cantora, Rita de Cássia gravou 12 álbuns com seu irmão, Redondo, e a Banda Som do Norte, uma parceria que durou cerca de 25 anos. Atualmente ela estava em carreira solo.
Vocação
“Tocar o coração das pessoas não é tarefa muito fácil“. Para Rita de Cássia, considerada a maior compositora de forró do Brasil, a música precisa ter letra e poesia para poder se eternizar e passar de geração para geração. Esse caminho até o sucesso, Rita conheceu muito bem.
Seus versos, interpretados pela banda Mastruz com Leite, viraram hits e ela se transformou em uma influência para outros compositores de forró. E foi com a canção Meu Vaqueiro, Meu Peão que Rita ganhou projeção nacional e viu sua música ser considerada o marco do forró moderno.
Quem se depara com um currículo como esse, nem desconfia que Rita de Cássia era tímida e gostava de manter os pés no chão, sempre carregando consigo as raízes do sertão. “Eu sou do mato e o mato veio comigo (risos)“, brincava a cantora.
Nascida em Alto Santo, a 240 km de Fortaleza, Rita associava essa veia forrozeira ao dom divino e à família. O pai e o avô gostavam de tocar Luiz Gonzaga na sanfona e o irmão, também músico, montou a banda Som do Norte, que teve Rita como sua primeira vocalista.
As inspirações para as músicas de Rita sempre foram as coisas simples do cotidiano de uma menina que cresceu com liberdade e em contato com a natureza. “Eu sempre acreditei no amor. Sou uma apaixonada pela vida e pelas pessoas e transformo tudo em poesia“. Talvez por ter tantos sentimentos e memórias que Rita demonstrava muito zelo e cuidado na hora de criar suas canções, afinal é a “mensagem que mandamos para o universo“, como gostava de reforçar.
Foram 20 anos cantando com o irmão para depois seguir carreira solo. Apesar de toda essa trajetória, Rita de Cássia confessava que “a timidez continua” e revelava que o “artista quando está no palco, é como um personagem“.
Rita também ficava feliz ao lembrar de tantas cantoras de forró que hoje sobem ao palco pelo Brasil e que também venceram, como ela, o preconceito e as barreiras impostas pelo mercado fonográfico e pela sociedade.
Apesar de assinar mais 500 composições, Rita seguia se reinventando, muito atenta a forma como as pessoas interagem nos dias de hoje. Pedra de Gelo, sua nova música de trabalho, aborda as relações em uma época marcada pelas redes sociais.
Esse, inclusive, é um mundo que Rita de Cássia trabalhou para conquistar. Pedra de Gelo foi lançada em todas as plataformas digitais e o seu projeto acústico mais recente também está disponível na internet.