No município citado como mais crítico, Rio Branco, a potencial ingestão de mercúrio ultrapassou de 6,9 a 31,5 vezes a dose de referência indicada.
Incrivelmente diversos, os peixes de água doce são vitais para as comunidades, economias e ecossistemas, mas são rotineiramente subestimados e negligenciados. Eles também estão sob ameaças cada vez maiores.
51% de todas as espécies de peixes são encontradas em água doce – ou seja, mais de 18.000 espécies diferentes. E eles representam ¼ de todas as espécies de vertebrados do mundo.
Claro, essas são apenas as que conhecemos – Mais de 100 novas espécies foram descobertas somente na América do Sul todos os anos durante a última década.
Ecossistemas saudáveis de água doce são essenciais para a prosperidade das populações de peixes de água doce e para o bem-estar humano.
Os rios fornecem água potável para pelo menos 2 bilhões de pessoas e sustentam ¼ da produção mundial de alimentos.
Proteger a pesca de água doce apoia o ecossistema maior e beneficia todos os que dependem dele. Na Amazônia, os peixes ajudam a dispersar as sementes das árvores tropicais de várzea.
O declínio nas populações de peixes de água doce é o indicador mais claro dos danos que os humanos causaram – e ainda estão causando – aos nossos rios, lagos e pântanos.
Pelo menos 200 milhões de pessoas dependem de peixes de água doce como sua principal fonte de proteína, muitas delas em países sem litoral e de baixa renda.
Hoje, 60 milhões de pessoas – mais da metade delas mulheres – dependem de peixes de água doce para sua subsistência.
As populações de peixes de água doce estão em colapso. Quase 1/3 de todos os peixes de água doce estão ameaçados de extinção. Somente em 2020, 16 espécies de peixes de água doce foram declaradas extintas.
Desde 1970, os mega-peixes – aqueles que pesam mais de 30 kg – diminuíram em número em 94% e os peixes migratórios de água doce tiveram um declínio de 76%.
Em nenhum lugar a crise da biodiversidade mundial é mais aguda do que nos ecossistemas de água doce.
Cerca de 35% das zonas úmidas foram perdidas nos últimos 50 anos e apenas 1/3 dos grandes rios do mundo ainda correm livremente.
Contaminação por mercúrio
Estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que peixes consumidos nos principais centros urbanos da Amazônia estão contaminados por mercúrio.
Os resultados mostram que os peixes de todos os seis estados amazônicos apresentaram níveis de contaminação acima do limite aceitável (maior ou igual a 0,5 micrograma por grama), estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo, realizado em parceria com o Greenpeace Brasil, o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), o Instituto Socioambiental e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil), indica que os piores índices estão em Roraima, onde 40% dos peixes têm mercúrio acima do limite recomendado, e no Acre, onde o índice é de 35,9%. Já os menores indicadores estão no Pará (15,8%) e no Amapá (11,4%).
“Na média, 21,3% dos peixes comercializados nas localidades e que chegam à mesa das famílias na região Amazônica têm níveis de mercúrio acima dos limites seguros”, destacou a Fiocruz, por meio de nota, ao destacar que, em todas as camadas populacionais analisadas, a ingestão diária de mercúrio excedeu a dose de referência recomendada.
A poluição por mercúrio ainda é um grande problema ambiental global, sendo a mineração de ouro em pequena escala e a queima de carvão as duas maiores fontes.
Transportado na atmosfera e chovendo em lagos e oceanos, o acúmulo do metal em espécies marinhas e de água doce levantou preocupações sobre o impacto do consumo de peixe na saúde humana.
Cidades mais afetadas
No município citado como mais crítico, Rio Branco, a potencial ingestão de mercúrio ultrapassou de 6,9 a 31,5 vezes a dose de referência indicada pela Agência de Proteção Ambiental do governo americano.
“As mulheres em idade fértil – público mais vulnerável aos efeitos do mercúrio – estariam ingerindo até nove vezes mais mercúrio do que a dose preconizada; enquanto crianças de 2 a 4 anos, até 31 vezes mais do que o aconselhado”, alertou a Fiocruz.
Em Roraima, segundo estado considerado mais crítico, a potencial ingestão de mercúrio extrapolou de 5,9 a 27,2 vezes a dose de referência.
“Considerando os estratos populacionais mais vulneráveis à contaminação, mulheres em idade fértil estariam ingerindo até oito vezes mais mercúrio do que a dose indicada e crianças de 2 a 4 anos, até 27 vezes mais do que o recomendado”.
Pesquisa
Segundo a Fiocruz, a pesquisa buscou avaliar o risco à saúde humana em razão do consumo de peixes contaminados, por meio de visitas a mercados e feiras em 17 cidades amazônicas onde foram compradas as amostras utilizadas.
O levantamento foi realizado de março de 2021 a setembro de 2022 no Acre, Amapá, Amazonas, Pará, em Rondônia e em Roraima.
As amostras foram coletadas nos municípios de Altamira (PA), Belém, Boa Vista, Humaitá (AM), Itaituba (PA), Macapá, Manaus, Maraã (AM), Oiapoque (AP), Oriximiná (PA), Porto Velho, Rio Branco, Santa Isabel do Rio Negro (AM), Santarém (PA), São Félix do Xingu (PA), São Gabriel da Cachoeira (AM) e Tefé (AM).
Foram avaliados 1.010 exemplares de peixes, de 80 espécies distintas, comprados em mercados, feiras e diretamente de pescadores, simulando o dia a dia dos consumidores locais.
Do total geral de amostras, 110 eram peixes herbívoros (que consomem alimentos de origem vegetal), 130 detritívoros (que consomem detritos orgânicos), 286 onívoros (que consomem alimentos de origem animal e vegetal) e 484 carnívoros (que consomem alimentos de origem animal).
Os carnívoros, mais apreciados pelos consumidores finais, apresentaram níveis de contaminação maiores que as espécies não carnívoras.
A análise comparativa entre espécies indicou que a contaminação é 14 vezes maior nos peixes carnívoros, quando comparados aos não carnívoros.
“A principal recomendação que os pesquisadores fazem é ter maior controle do território amazônico e erradicar os garimpos ilegais e outras fontes emissoras de mercúrio para o ambiente”, concluiu a Fiocruz.