O Bê-a-bá do Sertão

Aposentados vendem máscara por R$ 750,00 e peça é leiloada por R$ 22 milhões

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De acordo com um especialista, a máscara, feita pelo povo fang do Gabão no século 19, é mais rara do que um quadro de Leonardo da Vinci.

 

Em 2021, um casal de aposentados com mais de 80 anos da França encontrou uma máscara africana em casa de veraneio deles na cidade de Alès.

No começo do século 20, o imóvel era de um dirigente de governo francês que trabalhava em colônias do país na África. A máscara estava dentro de um armário da residência.

 Máscara da sociedade Ngil, do Gabão. As máscaras Ngil testemunham práticas de regulação social, uma forma de Inquisição praticada pelos Fang, povo cuja arte foi a primeira a ser apreciada e colecionada.

O casal pediu para um comerciante para comprar a máscara. Ele pagou 130 euros (cerca de R$ 750,00 na cotação atual).

Seis meses depois, o casal viu a peça à venda em um catálogo de uma casa de leilões da cidade de Montpellier. O preço do leilão “pulverizou” o preço inicial que era de 300 (R$ 1,5 milhão) a 400.000 mil euros.

Apesar dos protestos durante a venda pelos gaboneses exigindo seu “retorno” ao país de origem, no leilão, a peça foi vendida por 4,2 milhões de euros (R$ 22 milhões), disse o Hotel des Ventes em Montpellier (sul da França) em um comunicado.

Fang, Gabão – final do século XIX. Máscara da sociedade Ngil, madeira de queijo, caulim, fibras vegetais, tecido, medindo 55 cm.

O casal processou o homem que pagou R$ 750,00 na peça. Nesta terça-feira (31Outubro2023), aconteceu a primeira audiência do processo.

Mais rara que um quadro de Leonardo da Vinci

O proprietário antigo da casa de Alès era o governador colonial francês René-Victor Edward Maurice Fournier (1873-1931).

O catálogo do leilão em que a máscara foi vendida afirma que ele obteve a máscara por volta de 1917 em circunstâncias desconhecidas.

A máscara Fang vendida em um leilão em Montpellier, no sul da França, que data do século 19. A máscara Ngil foi uma ferramenta de poder judicial nas sociedades fang tradicionais do Gabão até o início do século XX.

Segundo uma reportagem da RFI, Fournier trabalhou em Dakar e no Congo. A máscara teria sido comprada provavelmente durante uma visita ao Gabão, segundo a casa de leilões.

A peça de madeira, extremamente rara e de linhas limpas, pertencia a uma sociedade secreta do povo Fang do Gabão e tem cerca de 55 centímetros de altura e representa a figura humana. Estima-se que a obra seja do século 19.

Isso é saque“, exclamou do fundo da sala de leilões um homem que disse ser parte da comunidade gabonesa de Montpellier, informou um jornalista da AFP.

A arqueologia aponta a África como o território habitado há mais tempo no planeta. Isso resultou na profusão de idiomas com mais de mil línguas, religiões, regimes políticos, condições materiais de habitação e atividades econômicas. Atualmente, o continente africano ocupa um quinto da Terra, com mais de 50 países e quase 1 bilhão de habitantes.

Não se preocupe, vamos fazer uma denúncia. Para os nossos, meus ancestrais, da comunidade Fang, vamos recuperar esse objeto“, um “ativo colonial adquirido ilegalmente“, disse , acompanhado de meio dezenas de seus compatriotas.

Acompanhados pelo serviço de segurança, os manifestantes saíram calmamente da sala, continuando a protestar contra o leilão em curso de obras de arte africanas.

Diversos exemplares de máscaras africanas.

Entre os objetos à venda estava também um trono do Congo, vendido por 44 mil euros. Disputada por dez licitantes, segundo a sala de leilões, a máscara Fang foi adquirida por um comprador por telefone.

O curador do leilão, Jean-Christophe Giuseppi, lembrou que existem apenas cerca de dez máscaras desse tipo no mundo.

 

 

 

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