Sady Fernandes

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Sady Fernandes de Aragão Júnior é Engenheiro Agrônomo e Perito Criminal do Governo do Estado de Rondônia.

 

O segundo significado de anódino

O militante disse entre confuso e indignado “o companheiro está tão acomodado com a estabilishiment que não consigo identificar a que grupamento ideológico você pertence”.

Dou-me por satisfeito em ratificá-lo, posto que nem mesmo sei a que idéias, ideais e ideologia pertenço.

Talvez por utilitarismo, muito me tem valido o conhecimento de coisas objetivas, como a massa básica de pão ou o molho bechamel, ao passo que quimeras são inalcançáveis para mim. Mas, num mundo de rótulos, por livre, rotulo-me de anódino. Um rótulo desbotado colado com cuspe em uma garrafa de fumaça esvanecendo-se no ar. E, se necessário se faz, ato-me ao segundo significado de anódino, a saber: pouco eficaz, sem importância ou interesse especial, banal, insignificante, medíocre. Mesmo porque, não me atreveria a assumir o primeiro sentido do étimo, que refere-se a mitigar ou fazer cessar a dor. O que não seria de todo falso, pois nós os zés-ninguém pouco ou nada perturbamos a ordem e muita dor mitigamos por simplesmente não provocá-las. E, talvez pela mania de classificar, poderia asseverar pertencermos eu e outros ao anônimo grupo dos anódinos, a respeito dos quais agora escreverei.

Cuidar que tenhamos ódios figadais e paixões definitivas é cuidado vão. Primamos pela fleuma acreditando que nenhuma guerra valha o preço a ser pago por lutá-la. Somos surdos ao clamor a litigância e dizemos convictamente “passo”. Por nada sermos e a tudo renunciamos, a nossa vida é uma rotina de dias estáveis, cujos amanheceres e anoiteceres são perenes na sua mesmice cambiante. Em nós o crescimento é vegetativo. Indissociável do fato de existirmos. E nossa existência é o existir de per si. Assim. Sendo. Sem maiores inquietudes quanto ao que somos ou, e é isso nos importa, o que os demais são ou pensam que somos, desde que estejamos em paz.

Mas, se a fortuna nos presenteia com recursos, são eles direcionados a criação de mais e mais estabilidade e equilíbrio, pois nosso modo de ser repele afoitezas, aventuras, jogatinas, planos mirabolantes, apostas arriscadas, delírios, euforias, brigas e todos os tipos de eventos estressantes.

Definitivamente, não gostamos de tragédias, histórias compridas, lamúrias… o nosso pendor é mais para a comédia leve que mostre a falta de importância daquilo que move os litígios. Contudo, desgosta-nos rir das desgraças alheias, ao passo que, por um sutil deboche, tipo uma piada interna, rimos de nós mesmos e das nossas desgraças. Por isso, entramos em êxtase é fácil. Basta que se apresente A Beleza sem, contudo, termos a veleidade de adonarmo-nos dela. Não sendo venturosa nem trágica a nossa existência transcorre anônima e não temos sequer a pretensão de ser imprescindíveis, insubstituíveis e importantes.

Vivemos e deixamos viver, pois sabemos que na vida tem a morte. Carregamos pouca coisa ou, idealmente, nada. Erigimos o conceito de “quanto menos bagagem mais fácil é a viagem” ao nível de quase dogma, só não o sendo de todo, por nossa natural aversão a quaisquer dogmas.

Sabemos a arte da invisibilidade contida no silêncio, na concordância e na modéstia… ao mesmo tempo que, raramente, imensa compaixão se apodera de nós e tentamos demonstrar que melhor vida se tem se nos empenhamos em cooperar com bons projetos e sistemas quase sempre sem nenhum sucesso. É princípio indiscutível que somos todos iguais na nulidade. E nunca vencemos porque não gostamos de derrotados. Assim nossa ação é cheia de momentos desarmados e de encontros afetuosos, cheios de generosidade e alegria.

Sabemos que a vida é uma doença terminal e que morreremos dela. O final incontornável é sempre admitido e é, para nós, de muito bom tom falar a respeito da nossa morte, pois entendemos que nunca se trata da morte dos outros, mas sim da admissão da nossa própria mortalidade e insignificância, para vivemos a vida de maneira que o ponto final da nossa narrativa existencial seja um discurso fundamentado e que resulte benefícios a todos.

Por fim, a nossa espera por um futuro gozoso faz o tempo ser reconhecido como um hiato entre a presente tristeza e a ulterior alegria, o que torna leve e fácil relevar as momentâneas adversidades postas na nossa breve e feliz caminhada sobre este lindo e maravilhoso planeta.