{"id":1314,"date":"2008-10-10T00:00:00","date_gmt":"2008-10-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2008-10-10T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-10T00:00:00","slug":"Professores-da-USP-envolvidos-em-caso-de-plagio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2008\/10\/10\/Professores-da-USP-envolvidos-em-caso-de-plagio\/","title":{"rendered":"Professores da USP envolvidos em caso de pl\u00e1gio"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 17 minutos<\/div><p align=\"justify\"><font face=\"Verdana\"><font size=\"2\"><strong>Sao Paulo(SP) &#8211; <\/strong>Esc&acirc;ndalo de professores da USP envolvidos em caso de pl&aacute;gio mobiliza intelectuais, que defendem &eacute;tica em pesquisa e temem pelo futuro da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica <\/p>\n<p>Primeiro, a boa not&iacute;cia: o porcentual de participa&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica Latina no total de publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas quase dobrou nos &uacute;ltimos anos. Saiu de 1,8% entre 1991 e 1995 para 3,4% de 1999 a 2003, segundo a Unesco. <\/p>\n<p>Agora, a m&aacute; not&iacute;cia. No rastro desse crescimento, surgiu outro fen&ocirc;meno do qual a comunidade cient&iacute;fica tem menos raz&otilde;es para se orgulhar: o pl&aacute;gio intelectual, que h&aacute; tempos se configura como um problema para grandes universidades no exterior e acaba de causar estragos na Universidade de S&atilde;o Paulo(USP). <\/p>\n<p>Na segunda-feira, o Conselho Curador da Funda&ccedil;&atilde;o Universit&aacute;ria para o Vestibular(Fuvest) aceitou o pedido de demiss&atilde;o, feito &quot;<em>em car&aacute;ter irrevog&aacute;vel<\/em>&quot;, do professor Nelson Carlin, que at&eacute; ent&atilde;o era seu vice-diretor. Denunciado por fraude intelectual, ele recebeu uma mo&ccedil;&atilde;o de censura da reitoria, insuficiente para aplacar os problemas causados pelo epis&oacute;dio. <\/p>\n<p>S&oacute; no ano passado, o Escrit&oacute;rio de Integridade em Pesquisa(ORI) dos Estados Unidos recebeu 217 den&uacute;ncias de pl&aacute;gio, abriu 14 investiga&ccedil;&otilde;es, encerrou 28 inqu&eacute;ritos &#8211; dos quais 10 registraram m&aacute; conduta em pesquisa &#8211; e puniu 7 pesquisadores com medidas que incluem suspens&atilde;o de financiamento e cassa&ccedil;&atilde;o de registro. Por falta de um organismo que cuide da quest&atilde;o no Brasil, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel contabilizar os casos de m&aacute; conduta e medir o estado da integridade da pesquisa no pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Por aqui, s&atilde;o situa&ccedil;&otilde;es exemplares que fazem barulho, como o caso envolvendo Carlin. O esc&acirc;ndalo come&ccedil;ou no Instituto de F&iacute;sica da USP, no ano passado, quando o professor Mahir Hussein acusou Carlin de ter copiado extensas partes de seus textos em artigo publicado no volume 75 da revista &quot;<em>Physical Review C<\/em>&quot;. <\/p>\n<p>Al&eacute;m da acusa&ccedil;&atilde;o de c&oacute;pia, uma contagem de palavras indica que menos de 23% do artigo publicado &eacute; original. A apura&ccedil;&atilde;o foi encerrada com o pedido de demiss&atilde;o de Carlin depois de um comunicado da reitoria que reconhecia o pl&aacute;gio e aplicava a mo&ccedil;&atilde;o de censura aos autores. <\/p>\n<p>Diz o documento: &quot;<em>Embora os trabalhos cient&iacute;ficos que foram objeto da investiga&ccedil;&atilde;o contenham pesquisa original, houve um desvio &eacute;tico na reda&ccedil;&atilde;o dos mesmos por uma inaceit&aacute;vel falta de zelo na prepara&ccedil;&atilde;o dos artigos publicados. Isso resultou na consigna&ccedil;&atilde;o, pela comiss&atilde;o, de uma mo&ccedil;&atilde;o de censura &eacute;tica aos autores, pela n&atilde;o-observ&acirc;ncia dos preceitos &eacute;ticos da Universidade<\/em>.&quot; <\/p>\n<p>A mo&ccedil;&atilde;o de censura, distribu&iacute;da por escrito ao corpo docente da USP, n&atilde;o foi exatamente bem recebida. Primeiro, por ter sido precedida de um comunicado oficial que pretendia manter sil&ecirc;ncio sobre o caso. Depois, porque, desde que divulgada, os protestos contra o tratamento brando aos acusados de pl&aacute;gio se multiplicaram. Artigo do colunista da &quot;<em>Folha de S.Paulo<\/em>&quot; Marcelo Leite exigia da reitoria da USP uma &quot;<em>explica&ccedil;&atilde;o completa do caso<\/em>&quot;. <\/p>\n<p>Embora o esclarecimento n&atilde;o tenha vindo, na trilha do texto de Leite houve numerosos protestos que fizeram eco &agrave; indigna&ccedil;&atilde;o do jornalista, ele mesmo ex-aluno da USP. Quest&otilde;es como o futuro da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica no Instituto de F&iacute;sica e na universidade, a pr&aacute;tica do autopl&aacute;gio, os riscos de desmoraliza&ccedil;&atilde;o do vestibular, j&aacute; que Carlin era vice-reitor da Fuvest, e a import&acirc;ncia de uma cultura que puna iniciativas de fraudes nos artigos cient&iacute;ficos foram alguns dos pontos em discuss&atilde;o. <\/p>\n<p>Desde que foi denunciado, o epis&oacute;dio de fraude suscitou amplo debate sobre o tema. As p&aacute;ginas das publica&ccedil;&otilde;es dedicadas &agrave; ci&ecirc;ncia est&atilde;o repletas de especialistas que discutem quest&otilde;es voltadas para &eacute;tica em pesquisa, como a fraude pode ser evitada e quanto a &quot;<em>press&atilde;o por resultados<\/em>&quot; pode influenciar a baixa qualidade dos trabalhos, muitos deles se multiplicando pelo artif&iacute;cio do autopl&aacute;gio. <\/p>\n<p>&quot;<em>N&atilde;o existe nenhum ind&iacute;cio de que a incid&ecirc;ncia de faltas &eacute;ticas nas universidades brasileiras seja superior ao que ocorre no resto do mundo<\/em>&quot;, diz o professor do Instituto de F&iacute;sica Paulo Nussenzveig, que foi a p&uacute;blico reivindicar a transpar&ecirc;ncia nas investiga&ccedil;&otilde;es na USP. &quot;<em>Quando h&aacute; uma den&uacute;ncia, as institui&ccedil;&otilde;es s&oacute; podem resguardar sua imagem ao reagir vigorosamente, informando que atitudes, como falsifica&ccedil;&atilde;o de dados, pl&aacute;gio, duplica&ccedil;&atilde;o de publica&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o pr&aacute;ticas inaceit&aacute;veis<\/em>.&quot; <\/p>\n<p>O professor critica tamb&eacute;m a falta de transpar&ecirc;ncia na maioria dos casos. &quot;<em>Ao manterem-se d&uacute;bios, frustram as expectativas daqueles que buscam justi&ccedil;a, minando sua confian&ccedil;a nas diretrizes &eacute;ticas da institui&ccedil;&atilde;o<\/em>&quot;. Ele contraria, dessa forma, muitos de seus colegas que preferiam ver o caso da universidade paulista definitivamente silenciado. <\/p>\n<p>Embora existam instrumentos institucionais para lidar com as den&uacute;ncias, como c&oacute;digos de &eacute;tica e comiss&otilde;es de &eacute;tica em pesquisa, outros pa&iacute;ses disp&otilde;em de mecanismos superiores que fizeram falta no processo da USP. Nussenzveig cita exemplos como o dos EUA ou da Alemanha, onde c&oacute;digos federais de conduta permitem processos jur&iacute;dicos em &acirc;mbito criminal e c&iacute;vel contra o pesquisador. <\/p>\n<p>&quot;<em>Isso fornece par&acirc;metros para as institui&ccedil;&otilde;es, conferindo alguma uniformidade ao sistema<\/em>&quot;, explica. Demonstra, ainda, a crescente preocupa&ccedil;&atilde;o mundial com o problema da integridade em pesquisa, campo ainda em constru&ccedil;&atilde;o no Brasil. <\/p>\n<p>No ano passado, o ORI dos EUA e o Comit&ecirc; Europeu de Ci&ecirc;ncias promoveram o primeiro congresso internacional sobre o tema. Embora 47 pa&iacute;ses estivessem representados, s&oacute; havia 3 participantes da Am&eacute;rica Latina. <\/p>\n<p>A &uacute;nica brasileira era Sonia Vasconcelos, pesquisadora do Programa de Educa&ccedil;&atilde;o, Gest&atilde;o e Difus&atilde;o em Bioci&ecirc;ncias do Instituto de Bioqu&iacute;mica M&eacute;dica da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), que p&ocirc;de participar de debates sobre as iniciativas de ag&ecirc;ncias de financiamento, universidades e editores das principais revistas cient&iacute;ficas para estabelecer medidas mais efetivas para lidar com casos de m&aacute; conduta em pesquisa. <\/p>\n<p>&quot;<em>V&aacute;rios pa&iacute;ses do Ocidente seguem a no&ccedil;&atilde;o de originalidade textual, o que n&atilde;o &eacute; necessariamente compartilhado por diferentes culturas. Em pa&iacute;ses como Cingapura, China e Cor&eacute;ia, identidade autoral e originalidade textual est&atilde;o impregnadas da no&ccedil;&atilde;o confuciana de propriedade intelectual, que tem um car&aacute;ter bem mais coletivo. Para autores dessas culturas, os limites de originalidade textual podem ser interpretados de forma peculiar<\/em>&quot;, explica Sonia. <\/p>\n<p>J&aacute; a bi&oacute;loga M&aacute;rcia Triunfol, doutora em patologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com p&oacute;s-doutorado nos EUA, onde viveu os &uacute;ltimos 12 anos, voltou recentemente para o Brasil e fundou a Publicase, empresa pioneira em comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. <\/p>\n<p>Seu trabalho &eacute; o de ajudar os departamentos das universidades a aumentar sua capacidade de publica&ccedil;&atilde;o, um dos crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o que mais influenciam na hora de obter financiamento para pesquisas. &quot;<em>H&aacute; uma necessidade imensa no Brasil&quot;, diz. O que M&aacute;rcia ensina aos doutores n&atilde;o est&aacute; no curr&iacute;culo da maioria dos cursos. &quot;N&atilde;o se aprende reda&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica na universidade<\/em>&quot;.<\/p>\n<p>Um dos muitos obst&aacute;culos que os pesquisadores brasileiros enfrentam &eacute; a dificuldade com o idioma. Alguns autores, diante da incapacidade de desenvolver uma reda&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria em ingl&ecirc;s, montam textos que s&atilde;o recortes e colagens de frases prontas, retiradas de diferentes artigos. Como o ingl&ecirc;s &eacute; a l&iacute;ngua hegem&ocirc;nica do campo cient&iacute;fico &#8211; mais de 95% dos artigos na base de dados do Science Citation Index s&atilde;o no idioma -, o pleno dom&iacute;nio da l&iacute;ngua &eacute; exig&ecirc;ncia fundamental para quem pretende publicar. <\/p>\n<p>Em estudo recentemente publicado no &quot;<em>Embo Reports<\/em>&quot;, do grupo Nature, pesquisadores brasileiros mostraram como a compet&ecirc;ncia ling&uuml;&iacute;stica pode influenciar positivamente a produ&ccedil;&atilde;o e o impacto da pesquisa cient&iacute;fica. Esse estudo &#8211; parte da pesquisa de doutorado de Sonia Vasconcelos &#8211; mostra que entre 40% e 50% dos cerca de 52 mil pesquisadores brasileiros com doutorado em 2005 consideram ter habilidade escrita em l&iacute;ngua inglesa bem desenvolvida, conforme dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico(CNPq). <\/p>\n<p>O extenso relat&oacute;rio anual do Escrit&oacute;rio de Integridade Cient&iacute;fica indica que nos EUA a &ecirc;nfase &eacute; em medidas preventivas que come&ccedil;am na gradua&ccedil;&atilde;o. Durante um ano &#8211; dos 18 em que trabalhou na Universidade de Notre Dame -, o antrop&oacute;logo Roberto Da Matta presidiu o Comit&ecirc; de Honra da faculdade, que chegou a ser acionado numa den&uacute;ncia de pl&aacute;gio. L&aacute;, como em qualquer universidade nos EUA, o aluno assina um termo de compromisso quando se matricula. Se flagrado em qualquer pr&aacute;tica fraudulenta, vai a julgamento no comit&ecirc; interno e pode ser expulso. <\/p>\n<p>&quot;<em>O que aprendi em Harvard &eacute; que sempre devemos citar nossos mentores, nossos financiadores e as institui&ccedil;&otilde;es que nos acolheram&quot;, diz Da Matta. Ele lamenta que a pr&aacute;tica da cita&ccedil;&atilde;o esteja quase em desuso: &quot;Em um sistema acad&ecirc;mico consistente, citar deve ser um prazer e um orgulho<\/em>&quot;. <\/p>\n<p>Por aqui, a fraude &eacute; pr&aacute;tica corrente entre universit&aacute;rios. Professora do Departamento de Pol&iacute;tica Cient&iacute;fica e Tecnol&oacute;gica da Universidade Estadual de Campinas(Unicamp), a soci&oacute;loga Maria Teresa Citeli j&aacute; encontrou pl&aacute;gios at&eacute; em trabalhos de alunos de uma disciplina de gradua&ccedil;&atilde;o na qual discute o cl&aacute;ssico &quot;<em>Ra&iacute;zes do Brasil<\/em>&quot;, de S&eacute;rgio Buarque de Hollanda. <\/p>\n<p>Mesmo depois de ler o cap&iacute;tulo sobre o &quot;<em>homem cordial<\/em>&quot; &#8211; express&atilde;o do autor para se referir &agrave; escassa rigidez &eacute;tica dos brasileiros em determinadas quest&otilde;es -, alunos ainda ignoram o conte&uacute;do do texto e usam expedientes heterodoxos de copiar trabalhos de colegas ou dispon&iacute;veis na internet. &quot;<em>S&atilde;o textos falando de moralidade, mas eles nem percebem que tamb&eacute;m est&atilde;o fazendo algo imoral<\/em>.&quot; Ela adotou como regra reprovar quem copia e quem fornece material para a c&oacute;pia. <\/p>\n<p>Na Universidade de Bras&iacute;lia(UnB), a professora Dora Porto avalia a gravidade do caso antes de decidir que provid&ecirc;ncias tomar. Em qualquer situa&ccedil;&atilde;o de pl&aacute;gio o aluno &eacute; chamado para uma conversa. Estudantes de gradua&ccedil;&atilde;o que apresentam c&oacute;pias de textos capturados na internet s&atilde;o informados sobre as conseq&uuml;&ecirc;ncias do pl&aacute;gio, pr&aacute;tica il&iacute;cita que pode ser enquadrada na lei de direitos autorais. &quot;<em>Como editora, recuso terminantemente os trabalhos nos quais detecto pl&aacute;gio<\/em>.&quot; <\/p>\n<p>Situa&ccedil;&atilde;o j&aacute; enfrentada pelo editor e professor Marcelo Hermes de Lima, do Instituto de Biologia da UnB, que retirou um artigo da vers&atilde;o online do peri&oacute;dico &quot;<em>PLoS One<\/em>&quot;. Os autores do texto plagiado foram punidos com dois anos de suspens&atilde;o, per&iacute;odo durante o qual ficam proibidos de publicar na revista. As regras de submiss&atilde;o de trabalho s&atilde;o expl&iacute;citas contra o pl&aacute;gio e est&atilde;o dispon&iacute;veis no site da revista, comportamento raro nas publica&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas brasileiras, que oferecem poucas informa&ccedil;&otilde;es ao autor sobre os compromissos que ele assume ao veicular um artigo cient&iacute;fico. <\/p>\n<p>&quot;<em>Estamos aprovando doutores com trabalhos que h&aacute; dez anos n&atilde;o seriam aceitos como monografias de gradua&ccedil;&atilde;o<\/em>&quot;, acusa Lima, um cr&iacute;tico veemente da pol&iacute;tica oficial. &quot;<em>Hoje, o que importa &eacute; que papers sejam produzidos, copiados ou n&atilde;o, e neste ano o Brasil chegue ao 14&ordm; lugar em n&uacute;mero de papers no mundo<\/em>&quot;, afirma. <\/p>\n<p>Essa meta est&aacute; ligada a outro objetivo quantitativo: chegar a 16 mil doutores em 2010, o que, segundo ele, s&oacute; ser&aacute; alcan&ccedil;ado em detrimento dos crit&eacute;rios de qualidade. Lima faz uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre a mo&ccedil;&atilde;o de censura da USP a esse tipo de cultura do produtivismo. &quot;<em>A USP s&oacute; faltou dar uma medalha aos pilantras, o que n&atilde;o ajuda nem contribui em nada para a discuss&atilde;o da &eacute;tica na pesquisa<\/em>.&quot; <\/p>\n<p>Apoiado em dados quantitativos sobre o crescimento da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica brasileira &#8211; <em>em 1990, o Brasil respondia por apenas 0,5% da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica mundial, porcentual que subiu para 2%<\/em> -, ele afirma que hoje a quantidade cresceu, mas a qualidade, quando medida pelo n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es dos papers, caiu: enquanto os textos produzidos no Brasil obt&ecirc;m apenas 3,5 de cita&ccedil;&atilde;o por paper, nos pa&iacute;ses desenvolvidos esse n&uacute;mero varia entre 5,5 e 8,5 cita&ccedil;&otilde;es por trabalho. <\/p>\n<p>&quot;<em>A press&atilde;o por produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; privil&eacute;gio do Brasil, &eacute; mundial<\/em>&quot;, diz o professor S&eacute;rgio Ferreira, do Instituto de Bioqu&iacute;mica M&eacute;dica da UFRJ. &quot;<em>&Eacute; poss&iacute;vel publicar sem produzir nada de impacto no meio cient&iacute;fico<\/em>&quot;, argumenta. Para ele, o problema est&aacute; justamente na falta de ousadia que leva um pesquisador a preferir publicar dez artigos mais ou menos garantidos a se arriscar com dois textos mais inovadores, que v&atilde;o, no entanto, render pontua&ccedil;&atilde;o menor no seu Curr&iacute;culo Lattes, o sistema do CNPq de medi&ccedil;&atilde;o dos indicadores de desempenho e produtividade do pesquisador. <\/p>\n<p>&quot;<em>H&aacute; no Brasil uma tend&ecirc;ncia exagerada nos crit&eacute;rios quantitativos<\/em>&quot;, observa Ferreira. Segundo ele, o ideal seria que projetos e pesquisadores pudessem ser avaliados pelo conte&uacute;do do que fazem, considerando itens como inova&ccedil;&atilde;o e ousadia. Como m&eacute;todo, ele sugere que o pesquisador, ao relacionar seus trabalhos mais importantes, apresente tamb&eacute;m uma breve resenha do que escreveu. &quot;<em>Pode ser ing&ecirc;nuo, mas seria uma forma de julgar tamb&eacute;m a qualidade<\/em>&quot;, defende. <\/p>\n<p>Para Dora Porto, a press&atilde;o para publicar pode influenciar negativamente a qualidade de um dado trabalho, mesmo que n&atilde;o se esteja falando de fraude. &quot;<em>Sem tempo para refletir ou aprofundar a reflex&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel que se produza material de menor qualidade<\/em>&quot;, alerta, lembrando que na maioria das vezes os pesquisadores s&atilde;o reconhecidos pela quantidade de publica&ccedil;&otilde;es que tenham amealhado ao longo da vida profissional. <\/p>\n<p><strong><u><font face=\"Arial\" color=\"#0000ff\" size=\"3\">&quot;Clube da co-autoria&quot;, autopl&aacute;gio e outros jeitinhos <br \/><\/font><\/u><\/strong><br \/>A experi&ecirc;ncia do professor Marcelo Hermes de Lima, do Instituto de Biologia da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), como editor de revista cient&iacute;fica o levou a mapear os diversos tipos de fraude intelectual. H&aacute; o que ele chama de &quot;clube da co-autoria&quot; &#8211; mais comum nas ci&ecirc;ncias exatas, nas quais o orientador &eacute; for&ccedil;osamente co-autor do texto -, que funciona como um instrumento de multiplica&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de artigos que cada autor publica. <\/p>\n<p>Como trabalham em rede, todos os textos s&atilde;o assinados por todos os integrantes do grupo, permitindo que cada um engorde seu curr&iacute;culo com cerca de 25 textos por ano. A bi&oacute;loga M&aacute;rcia Triunfol afirma que, para se defender da pr&aacute;tica, revistas internacionais j&aacute; come&ccedil;am a recusar textos com dez autores e exigem que o artigo discrimine o que cada um fez no trabalho. Como a pesquisa brasileira &eacute; sempre muito pobre de recursos, muitas vezes um cientista que cede ao colega uma enzima cara ganha seu nome como autor do texto como forma de reconhecimento da participa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Na &aacute;rea de meio ambiente, muitas raz&otilde;es podem levar um pesquisador a ganhar co-autoria em um trabalho, explica o diretor do Instituto de Pesquisas Jardim Bot&acirc;nico, Fabio Scarano. Muitas vezes, o taxonomista &#8211; aquele que nomeou a planta &#8211; pode ter dado uma contribui&ccedil;&atilde;o pequena em termos de pesquisa, mas teve participa&ccedil;&atilde;o fundamental no &quot;<em>batismo<\/em>&quot;, sendo consagrado como co-autor. &quot;<em>Al&eacute;m do mais, como &eacute; uma &aacute;rea multidisciplinar, &eacute; comum haver trabalhos com at&eacute; 15 autores<\/em>&quot;, explica Scarano. <\/p>\n<p>Para ele, a &eacute;tica na pesquisa deve incluir quest&otilde;es como a publica&ccedil;&atilde;o de artigos que atendem a interesses de laborat&oacute;rios m&eacute;dicos. &quot;<em>At&eacute; que ponto isso &eacute; mais ou menos &eacute;tico<\/em>?&quot;, questiona. Scarano lembra ainda que decis&otilde;es como usar um animal ou matar uma &aacute;rvore para realizar pesquisas tamb&eacute;m podem ser comportamentos eticamente question&aacute;veis. <\/p>\n<p>S&atilde;o essas as quest&otilde;es para as quais o Conselho Nacional de &Eacute;tica em Pesquisa(Conep) se preparou para enfrentar. O m&eacute;dico e professor Dirceu Greco j&aacute; foi presidente do Comit&ecirc; de &Eacute;tica em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG) e hoje representa a universidade no Conep, f&oacute;rum que, reconhece ele, n&atilde;o discute temas como pl&aacute;gio ou fraude intelectual. <\/p>\n<p>Segundo Greco, o mais comum &eacute; que o problema apare&ccedil;a no momento da publica&ccedil;&atilde;o e fique de fora das atribui&ccedil;&otilde;es dos comit&ecirc;s, mais voltados para proteger volunt&aacute;rios em testes, entrevistas ou outras experi&ecirc;ncias cient&iacute;ficas. &quot;<em>Trabalhamos para diminuir o problema no in&iacute;cio da pesquisa<\/em>&quot;, esclarece. <\/p>\n<p>Um dos problemas mais dif&iacute;ceis de detectar &eacute; o autopl&aacute;gio, que pode ser definido como uma t&eacute;cnica de duplica&ccedil;&atilde;o de um artigo pelo seu autor, que, mediante pequenas altera&ccedil;&otilde;es, publica o mesmo texto em diferentes revistas. <\/p>\n<p>O comportamento &eacute; fen&ocirc;meno mundial de tamanha propor&ccedil;&atilde;o que j&aacute; existe na internet uma base de dados que identifica artigos similares ou duplicados. Sob o sugestivo nome de D&eacute;j&agrave; Vu, o site (<a href=\"http:\/\/spore.swmed.edu\/dejavu\">http:\/\/spore.swmed.edu\/dejavu<\/a>) &eacute; mantido pelo Centro M&eacute;dico da Universidade do Texas e relaciona 144 mil artigos em que alguma duplica&ccedil;&atilde;o de cita&ccedil;&atilde;o &eacute; identificada, apontando para o primeiro ind&iacute;cio de autopl&aacute;gio. Baseado no programa eTBLAST, &eacute; um dos muitos sistemas dispon&iacute;veis na internet para detectar c&oacute;pias de textos. O Plagiarism, por exemplo, custa US$ 250 e promete &quot;<em>encorajar a honestidade acad&ecirc;mica<\/em>&quot;. <\/p>\n<p>Outro tipo de fraude &eacute; a estrat&eacute;gia de &quot;<em>quebrar<\/em>&quot; um artigo em v&aacute;rias partes e distribu&iacute;-lo para diversas revistas, aumentando as possibilidades de publica&ccedil;&atilde;o. Ainda que n&atilde;o seja exatamente uma c&oacute;pia, &eacute; o que Lima considera um &quot;<em>m&eacute;todo eticamente fraudulento<\/em>&quot;, na medida em que divide o conte&uacute;do relevante de uma pesquisa em textos distintos. Ele explica a fraude como resultado da press&atilde;o por publica&ccedil;&atilde;o, que acabaria alimentando a ind&uacute;stria do pl&aacute;gio. Algo como explicar roubo como m&eacute;todo para resolver uma necessidade.<\/p>\n<p><strong><font face=\"Arial\" color=\"#ff0000\" size=\"1\">* Com Assessoria de imprensa da UFCG.<\/font><\/strong><br \/><\/font><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempo de leitura: 17 minutosSao Paulo(SP) &#8211; Esc&acirc;ndalo de professores da USP envolvidos em caso de pl&aacute;gio mobiliza intelectuais, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1314"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}