{"id":4198,"date":"2010-11-29T00:00:00","date_gmt":"2010-11-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-29T00:00:00","modified_gmt":"2010-11-29T00:00:00","slug":"Acusado-de-torturar-Dilma-leva-vida-tranquila","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2010\/11\/29\/Acusado-de-torturar-Dilma-leva-vida-tranquila\/","title":{"rendered":"Acusado de torturar Dilma leva vida tranquila"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 7 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\n<span style=\"color: rgb(255, 0, 0);\"><strong><em>Militar aposentado est&aacute;  ele est&aacute; entre alvos do MPF por participa&ccedil;&atilde;o na morte de 6 pessoas e na tortura a outras 20.<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Guaruj&aacute;(SP) &#8211; <\/strong>Acusado pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal de participar da morte de seis presos pol&iacute;ticos e torturar outras 20 pessoas, entre elas a presidenta eleita Dilma Rousseff, o tenente-coronel reformado do Ex&eacute;rcito Maur&iacute;cio Lopes Lima descreve a viol&ecirc;ncia nos por&otilde;es da ditadura como algo &ldquo;<em>corriqueiro<\/em>&rdquo;. Na mesma semana em que o presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva declarou que o torturador de sua sucessora hoje deve estar se torturando, a reportagem do iG encontrou o militar levando uma vida calma na praia das Ast&uacute;rias, no Guaruj&aacute;.<\/p>\n<p>\nHoje aposentado, ele fala tranquilamente sobre os acontecimentos relatados em 39 documentos que serviram de base para a a&ccedil;&atilde;o civil p&uacute;blica ajuizada na 4&ordf; Vara C&iacute;vel contra ele. Questionado sobre o uso da tortura nos interrogat&oacute;rios, comentou: &ldquo;<em>Era a coisa mais corriqueira que tinha<\/em>&rdquo;, afirmou. Embora negue ter torturado Dilma, ele admite que teve contato com a presidenta eleita. Diz que na &eacute;poca n&atilde;o podia sequer imaginar que a veria na Presid&ecirc;ncia. &ldquo;<em>Se soubesse naquela &eacute;poca que ela seria presidenta teria pedido: &lsquo;Anota meu nome a&iacute;. Eu sou bonzinho<\/em>&#8216;&quot;, afirma.<\/p>\n<p>\nA a&ccedil;&atilde;o aberta contra Lima e os demais acusados &ndash; dois ex-militares e um ex-policial civil &#8211; se refere ao per&iacute;odo entre 1969 e 1970, quando Lima e outros tr&ecirc;s acusados integraram a equipe da Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirante e do DOI-Codi, ambos protagonistas da repress&atilde;o pol&iacute;tica durante a ditadura militar(<span style=\"font-family: Arial;\">1964-1985<\/span>). Entre os documentos, est&aacute; um depoimento de Dilma &agrave; Justi&ccedil;a Militar, em 1970, no qual ela pede a impugna&ccedil;&atilde;o de Lima como testemunha de acusa&ccedil;&atilde;o, alegando que o ent&atilde;o capit&atilde;o do Ex&eacute;rcito era torturador e, portanto, n&atilde;o poderia testemunhar.<\/p>\n<p>\n&ldquo;<em>Pelos nomes conhece apenas a testemunha Maur&iacute;cio Lopes Lima, sendo que n&atilde;o pode ser considerada a testemunha como tal, visto que ele foi um dos torturadores da Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirante<\/em>&quot;, diz o depoimento de Dilma. Na &eacute;poca com 22 anos, a hoje presidenta eleita foi presa por integrar a organiza&ccedil;&atilde;o de esquerda VAR-Palmares. No mesmo depoimento Dilma acusa dois homens da equipe de Lima de amea&ccedil;&aacute;-la de novas torturas quando ela j&aacute; havia sido transferida para o pres&iacute;dio Tiradentes. Ela teria questionado se eles tinham autoriza&ccedil;&atilde;o judicial para estarem ali e recebido a seguinte resposta: &ldquo;<em>Voc&ecirc; vai ver o que &eacute; juiz l&aacute; na Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirante<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>\nOutros depoimentos deixam mais evidente a a&ccedil;&atilde;o do militar, como o do frade dominicano Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, descreve em detalhes como foi colocado no pau-de-arara e torturado por uma equipe de seis homens liderados por Lima. &ldquo;<em>O capit&atilde;o Maur&iacute;cio veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse-me: &lsquo;Voc&ecirc; agora vai conhecer a sucursal do inferno<\/em>&rsquo;&rdquo;, diz um trecho do depoimento, no qual ele diz ter recebido choques el&eacute;tricos e &ldquo;<em>telefones<\/em>&rdquo;(<span style=\"font-family: Arial;\">tapas na orelha<\/span>), entre outras agress&otilde;es.<\/p>\n<p>\nO ent&atilde;o capit&atilde;o do Ex&eacute;rcito &eacute; acusado tamb&eacute;m de ter participado da morte de V&iacute;rgilio Gomes da Silva, o &quot;<em>Jonas<\/em>&quot; da ALN, outra organiza&ccedil;&atilde;o de esquerda que defendia a luta armada. L&iacute;der do sequestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick, Virg&iacute;lio foi assassinado no DOI-Codi, conforme admitiu oficialmente o Ex&eacute;rcito em 2009. Lima nega todas as acusa&ccedil;&otilde;es. Leia abaixo trechos da entrevista concedida por Lima ao iG:<\/p>\n<p>\n<strong>Como era chegar em casa e pensar que uma mo&ccedil;a como a Dilma, de vinte e poucos anos, havia sido torturada?<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nNunca comentei isso com ningu&eacute;m, mas desenvolvi um processo interessante. Eu n&atilde;o voltava mais para casa, pois achava que podia morrer a qualquer momento. Me isolei dos amigos e das pessoas que gostava. O quanto mais pudesse ficar longe melhor. Era uma fuga.<\/em><\/p>\n<p><strong>O senhor fugia do que?<\/strong><\/p>\n<p><em>De uma realidade. Eu sabia que ia morrer. Minha mulher estudava hist&oacute;ria na USP. Ela soube por terceiros que eu estava no DOI-Codi. As colegas dela todas presas.<\/em><\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o n&atilde;o era a tortura que o incomodava?<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\n&Eacute; como um curso na selva. No primeiro dia voc&ecirc; v&ecirc; cobras em todo canto. No terceiro dia voc&ecirc; toma cuidado. Depois do d&eacute;cimo dia passa um cobra na sua frente e voc&ecirc; chuta. &Eacute; adapta&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Se tornou uma coisa banal?<\/strong><\/p>\n<p><em>Sim.<\/em><\/p>\n<p><strong>E hoje em dia o que o senhor pensa daquilo?<\/strong><\/p>\n<p><em>Penso que s&oacute; &eacute; torturado quem quer. Agi certo. Arrisquei minha vida. N&atilde;o tive medo. N&atilde;o tremi, n&atilde;o. E n&atilde;o torturei ningu&eacute;m. Pertenci a uma organiza&ccedil;&atilde;o triste, sim. O DOI-Codi, a Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirante eram grupos tristes.<\/em><\/p>\n<p><strong>O senhor est&aacute; pesquisando no projeto Brasil Nunca Mais para preparar sua defesa?<\/strong><\/p>\n<p><em>Sim. Primeiro porque n&atilde;o sei quem falou. Uns me citam, outros &quot;ouvi dizer<\/em>&quot;.<\/p>\n<p><strong>O MPF cita sua participa&ccedil;&atilde;o em torturas contra 16 pessoas.<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\n&Eacute;. Outro que me deixa fulo da vida &eacute; o Di&oacute;genes C&acirc;mara Arruda(<span style=\"font-family: Arial;\">ex-dirigente do PCB preso na mesma &eacute;poca que Dilma<\/span>). Ele faz a minha liga&ccedil;&atilde;o como torturador dele e o CCC(<span style=\"font-family: Arial;\">Comando de Ca&ccedil;a aos Comunistas, grupo de extrema direita que atuou nas d&eacute;cadas de 60 e 70<\/span>). Eu tinha uma bronca desgra&ccedil;ada do CCC. Me referia a eles como &quot;aqueles moleques chutadores de porta de garagem&quot;. &Eacute; o que eles eram. Nunca tive nada com o CCC.<\/em><\/p>\n<p>\n<strong><br \/>\nO senhor tamb&eacute;m &eacute; acusado de participar da morte do Virg&iacute;lio Gomes da Silva(<span style=\"font-family: Arial;\">o &quot;Jonas&quot; da ALN, morto no DOI-Codi em 29 de setembro de 1969<\/span>).<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nMe acusam de ter matado o Virg&iacute;lio e de ter torturado o filhinho dele (<span style=\"font-family: Arial;\">ent&atilde;o com quatro meses de idade<\/span>). Eu n&atilde;o estava l&aacute; e demonstro para quem quiser ver (<span style=\"font-family: Arial;\">se levanta e pega um livro do Ex&eacute;rcito com os registros de todas suas mudan&ccedil;as e transfer&ecirc;ncia ao longo da carreira<\/span>). Isso s&atilde;o minhas folhas de altera&ccedil;&otilde;es militares. Pode olhar a&iacute;. Fui transferido para a Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirante no dia 3 de outubro. O Virg&iacute;lio foi morto no dia 29 de setembro.<\/em><\/p>\n<p>\n<strong><br \/>\nN&atilde;o havia entre os militares a quest&atilde;o moral de que a tortura desrespeita os direitos humanos?<\/strong><\/p>\n<p><em>A tortura diz respeito a direitos humanos e o terrorismo tamb&eacute;m.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>\n<strong>Um erro justifica o outro?<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nEst&atilde;o ligados. Tortura no Brasil era a coisa mais corriqueira que tinha. Toda delegacia tinha seu pau-de-arara. Dizer que n&atilde;o houve tortura &eacute; mentira, mas dizer que todo delegado torturava tamb&eacute;m &eacute; mentira. Dependia da &iacute;ndole. As acusa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o podem ser jogadas ao l&eacute;u. T&ecirc;m que ser espec&iacute;ficas. Eu sei quem torturava e n&atilde;o era s&oacute; no DOI-Codi, era no Dops tamb&eacute;m. Mas eu saber n&atilde;o quer dizer que eu possa impedir e nem que eu torturasse tamb&eacute;m. A tortura &eacute; v&aacute;lida para trocar tempo por a&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>\n<strong>Quem torturava?<\/strong><\/p>\n<p><em>O maior de todos eles j&aacute; morreu e n&atilde;o d&aacute; para falar dos mortos.<\/em><\/p>\n<p><strong>Alguma vez o senhor contestou a pr&aacute;tica de tortura no DOI-Codi?<\/strong><br \/>\n<\/span><em><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nN&atilde;o porque existia um respons&aacute;vel maior, o comandante do DOI-Codi. Eu fiz a minha parte. Se eu fosse mandado torturar, n&atilde;o torturaria. Outros n&atilde;o. O Fleury(<span style=\"font-family: Arial;\">delegado S&eacute;rgio Paranhos Fleury<\/span>), por exemplo, at&eacute; dava um sorriso.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: rgb(255, 0, 0);\"><strong><span style=\"font-size: x-small;\"><span style=\"font-family: Arial;\">* iG.<\/span><\/span><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempo de leitura: 7 minutos Militar aposentado est&aacute; ele est&aacute; entre alvos do MPF por participa&ccedil;&atilde;o na morte de 6 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[9],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4198"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}