{"id":7632,"date":"2013-08-04T00:00:00","date_gmt":"2013-08-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2013-08-04T00:00:00","modified_gmt":"2013-08-04T00:00:00","slug":"Ex-presidente-Mandela-esta-internado-em-estado-critico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2013\/08\/04\/Ex-presidente-Mandela-esta-internado-em-estado-critico\/","title":{"rendered":"Ex-presidente Mandela est\u00e1 internado em estado cr\u00edtico"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 10 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"font-family: Verdana\"><br \/>\n<strong>Cidade do Cabo(Africa do Sul) &#8211;<\/strong>&nbsp;Em maio deste ano, semanas antes da interna&ccedil;&atilde;o que o mant&eacute;m em &quot;<em>estado cr&iacute;tico, mas est&aacute;vel<\/em>&quot;, segundo os boletins m&eacute;dicos, Nelson Mandela recebeu em casa a visita do presidente sul-africano, Jacob Zuma, e de um entourage do seu partido, o Congresso Nacional Africano(<span style=\"font-family: Arial\">CNA<\/span>). O grupo foi todo sorrisos ao posar para uma foto ao lado do l&iacute;der, que se manteve calado, sisudo e impass&iacute;vel em sua poltrona.<\/p>\n<p>\nA imagem logo circularia dentro e fora do pa&iacute;s. A fam&iacute;lia Mandela acusou os visitantes de aplicar um golpe de marketing, pois haviam solicitado o encontro em car&aacute;ter particular. Partido de oposi&ccedil;&atilde;o ao CNA, a Alian&ccedil;a Democr&aacute;tica(<span style=\"font-family: Arial\">AD<\/span>) tamb&eacute;m reagiu ao que considera ser a tentativa de coopta&ccedil;&atilde;o de um Mandela d&eacute;bil, por&eacute;m insatisfeito com os rumos do pa&iacute;s. E o pr&oacute;prio CNA tratou de rebater as cr&iacute;ticas acusando a AD de flertar com ideias separatistas e branqueadoras, numa alus&atilde;o ao apartheid.<\/p>\n<p>\nEsse &eacute; apenas um exemplo do jogo de expectativas e interesses que se desenrola nos momentos finais de vida de Nelson Rolihlahla Mandela, 95 anos, figura central para a na&ccedil;&atilde;o sul-africana e talvez o &uacute;ltimo s&iacute;mbolo mundial a condensar em sua biografia os mais elevados ideais de liberdade, igualdade e dignidade humana.<\/p>\n<p>\nA pergunta que se faz hoje &eacute;: <em>com s&eacute;culos de colonialismo nas costas, d&eacute;cadas de apartheid manchando seu passado e apenas 20 anos de democracia, a &Aacute;frica do Sul est&aacute; preparada para viver sem seu grande her&oacute;i inspirador<\/em>?. Especialistas ouvidos pelo Estado acreditam que sim, mas isso n&atilde;o significa que o mais desenvolvido pa&iacute;s africano conseguir&aacute; desviar da alta turbul&ecirc;ncia pol&iacute;tica, econ&ocirc;mica e social que o aguarda.<\/p>\n<p>\n&quot;<em>Sem Mandela(<span style=\"font-family: Arial\">o bispo cat&oacute;lico<\/span>), Desmond Tutu e algumas outras figuras emblem&aacute;ticas dessa mesma gera&ccedil;&atilde;o, a luta contra a corrup&ccedil;&atilde;o deve se acirrar. Mas, aonde come&ccedil;a a corrup&ccedil;&atilde;o neste pa&iacute;s? Vem do topo, bancada por Zuma e seus aliados. Como eles n&atilde;o t&ecirc;m tido oposi&ccedil;&atilde;o que os ameace de fato, operam na impunidade. O problema &eacute; que o povo tender&aacute; a reagir mais fortemente<\/em>&quot;, avalia Peter Drapper, pesquisador do Instituto de Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais da &Aacute;frica do Sul. Drapper prev&ecirc; que a morte do l&iacute;der abrir&aacute; uma fase de revis&atilde;o profunda do quadro pol&iacute;tico sul-africano, &quot;<em>mesmo que n&atilde;o chegue a inverter a balan&ccedil;a do poder<\/em>&quot;.<\/p>\n<p>\nPr&oacute;ximo de Mandela e de sua fam&iacute;lia &#8211; <em>um conglomerado de herdeiros que re&uacute;ne tr&ecirc;s filhas de dois casamentos, 17 netos e 14 bisnetos<\/em> -, o jornalista americano Douglas Foster, hoje professor da Northwestern University, em Chicago, arrisca outras previs&otilde;es para o pa&iacute;s em que viveu longos anos como correspondente.<\/p>\n<p>\n&quot;<em>A cena final de Mandela, hoje, &eacute; menos problem&aacute;tica do que teria sido quando ele foi libertado da pris&atilde;o, em 1990, aos 72 anos, ou quando se tornou presidente, aos 76, ou mesmo quando resolveu deixar o poder, aos 80. Naqueles momentos, sua for&ccedil;a pol&iacute;tica e moral era um elemento decisivo no processo de reconcilia&ccedil;&atilde;o. Hoje, o risco de uma reviravolta geral n&atilde;o existe<\/em>&quot;, afirmou Foster em entrevista ao Estado, enfatizando que foi sabedoria do l&iacute;der ter desestimulado os sul-africanos a tom&aacute;-lo por santo.<\/p>\n<p>\n&quot;<em>Nisso ele foi at&eacute; met&oacute;dico. Sempre insistiu que sua presen&ccedil;a seria dispens&aacute;vel. Hoje, o projeto de consolida&ccedil;&atilde;o de um Estado desenvolvimentista na &Aacute;frica do Sul ficou mais complicado pelas condi&ccedil;&otilde;es da economia global, n&atilde;o pelas condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de do homem que &eacute; visto como her&oacute;i por todos<\/em>&quot;, acrescenta.<\/p>\n<p>\nEntre as mensagens discretas de Gra&ccedil;a Machel, terceira e atual mulher de Mandela, e as declara&ccedil;&otilde;es desencontradas de Zuma, ansioso por divulgar melhoras a partir do hospital, o que sobra &eacute; a triste expectativa em torno de um paciente fragilizado pela idade e por sequelas dos 27 anos de pris&atilde;o. J&aacute; o conglomerado familiar, desunido internamente, oscila entre pedidos de respeito &agrave; privacidade e brigas escancaradas por empresas encarregadas de controlar e negociar a imagem de Mandela.<\/p>\n<p>\nNa &Aacute;frica do Sul, 2014 ser&aacute; um ano eleitoral, quando o centen&aacute;rio CNA dever&aacute; jogar todas as fichas para manter sua hegemonia pol&iacute;tica. Como partido situacionista &agrave; frente de uma coaliz&atilde;o, voltar&aacute; a se comprometer com o conhecido &quot;<em>triplo desafio<\/em>&quot; &#8211; combater a pobreza, a desigualdade social e o desemprego.<\/p>\n<p>\nMas as estat&iacute;sticas j&aacute; se encarregam de minar a plataforma: hoje, dois ter&ccedil;os da for&ccedil;a de trabalho est&atilde;o inativos &#8211; Zuma diz que o &iacute;ndice correto &eacute; de 22%. O desemprego entre os jovens alcan&ccedil;a 50%, cerca de 48% da popula&ccedil;&atilde;o vive abaixo da linha da pobreza, 18% da popula&ccedil;&atilde;o adulta est&aacute; infectada pelo HIV, o sistema de sa&uacute;de foi largamente privatizado e os apag&otilde;es(<span style=\"font-family: Arial\">em especial na regi&atilde;o de Western Cape<\/span>) trazem preju&iacute;zos econ&ocirc;micos imensos ao pa&iacute;s, o que n&atilde;o chega a afetar milh&otilde;es de pessoas de outras partes que nem sequer t&ecirc;m luz em suas casas, assim como &aacute;gua e esgoto.<\/p>\n<p>\nEm um cen&aacute;rio desalentador, os &iacute;ndices de criminalidade dispararam. &quot;<em>Some-se a isso uma fraqueza institucional ainda grande. N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que a criminalidade virou um problema end&ecirc;mico em um pa&iacute;s historicamente violento<\/em>&quot;, disse Drapper.<\/p>\n<p>\nOutra indaga&ccedil;&atilde;o que observadores se fazem &eacute; se o CNA, fragilizado pela crise da economia global e por divis&otilde;es internas, ter&aacute; condi&ccedil;&otilde;es de levar adiante o legado de Mandela e tamb&eacute;m um modelo de desenvolvimento que consiga retirar zonas consider&aacute;veis do pa&iacute;s da situa&ccedil;&atilde;o de atraso profundo.<\/p>\n<p>\nUma das cr&iacute;ticas cl&aacute;ssicas que se faz ao CNA &eacute; que, sendo um movimento de liberta&ccedil;&atilde;o na origem, n&atilde;o conseguiu construir uma democracia s&oacute;lida e din&acirc;mica. No passado, juntou idealistas, nacionalistas negros, liberais brancos, comunistas e oportunistas. Funcionou bem quando tinham algo em comum contra o qual lutar &#8211; o apartheid. Justamente no p&oacute;s-Mandela, os trope&ccedil;os de percurso se fizeram mais frequentes.<\/p>\n<p>\nThabo Mbeki, que o sucedeu na presid&ecirc;ncia, definitivamente n&atilde;o tinha a confian&ccedil;a do l&iacute;der. Ampliou benef&iacute;cios para os mais pobres, atraiu investidores, mas acabou hostilizado mundialmente ao afirmar que a propaga&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus da aids era conspira&ccedil;&atilde;o dos brancos e os retrovirais escondiam toxinas perigosas.<\/p>\n<p>\nMbeki s&oacute; parou de repetir bobagens quando Mandela chamou-lhe aten&ccedil;&atilde;o. Tarde demais: no seu governo, foram 343 mil mortes associadas ao v&iacute;rus e 171 mil novos casos de infec&ccedil;&atilde;o. &Eacute; considerada &quot;<em>genoc&iacute;dio por neglig&ecirc;ncia<\/em>&quot; a crise que levou Mbeki a renunciar de forma humilhante.<\/p>\n<p>\nZuma abriu uma longa temporada de esc&acirc;ndalos &#8211; a come&ccedil;ar pelas investiga&ccedil;&otilde;es em torno da compra de equipamento militar para a &Aacute;frica do Sul, fora as den&uacute;ncias de estupro carimbando sua biografia. Ainda agora o presidente se complica ao explicar gastos de US$ 27 milh&otilde;es na reforma da mans&atilde;o em Nkandla, sua cidade natal, uma regi&atilde;o cercada de pobreza e soropositivos por todos os lados.<\/p>\n<p>\nAl&eacute;m de heliponto, quadras de t&ecirc;nis e campo de futebol, a casa foi equipada com um bunker &agrave; prova de contamina&ccedil;&atilde;o nuclear. Certamente, Zuma n&atilde;o se inspirou em Mandela, que deixou o poder para viver num ref&uacute;gio bem mais simples.<\/p>\n<p>\nDen&uacute;ncias envolvendo quadros gra&uacute;dos do CNA sinalizam que a &Aacute;frica do Sul constituiu, nos &uacute;ltimos anos, uma classe m&eacute;dia negra empregada majoritariamente no setor p&uacute;blico, com vi&eacute;s clientelista, e uma elite negra, restrita, mas muito influente.<\/p>\n<p>\nA alian&ccedil;a tripartite que garante a governabilidade, na qual o CNA conta com o apoio dos sindicatos e dos comunistas, exibe sinais de fratura e, tanto para Foster como para Drapper, muito provavelmente nos pr&oacute;ximos ciclos eleitorais o partido de Mandela venha a perder o poder. &quot;<em>&Eacute; o que consigo vislumbrar num cen&aacute;rio que promete ficar mais inst&aacute;vel. Mas n&atilde;o creio que sejamos surpreendidos pela forma&ccedil;&atilde;o de uma coaliz&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o<\/em>&quot;, calcula Foster.<\/p>\n<p>\nA surpresa, por enquanto, fica por conta do surgimento de novos atores pol&iacute;ticos. Como Julius Malema, representante da ala jovem do CNA, expulso do partido recentemente. &quot;<em>Eu sabia o que iria acontecer comigo, porque conhe&ccedil;o as t&aacute;ticas deles e como operam. Sei que t&ecirc;m medo de mim. Infelizmente, a &Aacute;frica do Sul virou uma cleptocracia<\/em>&quot;, desafia o jovem l&iacute;der negro.<\/p>\n<p>\nSeu nome vem ganhando visibilidade pela milit&acirc;ncia que faz em redes sociais. A um jornal de Soweto, Malema garantiu que o pa&iacute;s agora precisa fazer a transi&ccedil;&atilde;o entre &quot;<em>reconcilia&ccedil;&atilde;o e justi&ccedil;a<\/em>&quot;. Por isso, pensa fundar um novo partido, o Economic Freedom Fighters(<span style=\"font-family: Arial\">Lutadores da Liberdade Econ&ocirc;mica<\/span>).<\/p>\n<p>\nSeus seguidores acham insuficientes as mudan&ccedil;as constitucionais, querem um &quot;capitalismo nos trilhos&quot; e um programa social para vencer a pobreza que ainda castiga a popula&ccedil;&atilde;o negra, mesmo no p&oacute;s-apartheid.<\/p>\n<p>\n&quot;Como ocorre em v&aacute;rias partes do mundo em desenvolvimento&quot;, conclui Foster, &quot;a pobreza tem a ver com a cor da pele. E isso tamb&eacute;m ocorre na &Aacute;frica do Sul. Significa que as promessas de igualdade da Carta da Liberdade, aquele documento seminal do CNA, ainda n&atilde;o foram atingidas. Nos pr&oacute;ximos anos, a meu ver, os eleitores v&atilde;o julgar os pol&iacute;ticos pelo grau de dist&acirc;ncia que eles estejam daquelas mesmas promessas&quot;.<\/p>\n<p>\nCuriosamente, isso vai ocorrer quando a maioria dos sul-africanos ir&aacute; se relacionar com Mandela, ou Madiba, o Conciliador, em termos hist&oacute;ricos e no plano da mem&oacute;ria nacional. Hoje, 40% da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s com at&eacute; 18 anos s&atilde;o jovens &quot;nascidos livres&quot; da segrega&ccedil;&atilde;o racial. Diante da pen&uacute;ria social de largos segmentos da sociedade e da corrup&ccedil;&atilde;o rombuda, analistas t&ecirc;m notado um perigoso retorno da ret&oacute;rica pol&iacute;tica &agrave; quest&atilde;o racial.<\/p>\n<p>\nFoster atribui esse fen&ocirc;meno &agrave; m&aacute; distribui&ccedil;&atilde;o do poder e &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o agr&aacute;ria, dois problemas persistentes. Sobre o futuro, o jornalista amigo de Mandela nutre uma vis&atilde;o mais positiva. Al&eacute;m de acreditar que os jovens v&atilde;o mesmo cobrar os velhos ideais, confia na apari&ccedil;&atilde;o de novos l&iacute;deres, &quot;gente capaz de fazer a ponte entre o rural e o urbano, entre o pobre e o rico, entre todas as ra&ccedil;as&quot;. &quot;O legado maior de Madiba &eacute; justamente essa possibilidade&quot;.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempo de leitura: 10 minutos Cidade do Cabo(Africa do Sul) &#8211;&nbsp;Em maio deste ano, semanas antes da interna&ccedil;&atilde;o que o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[10],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7632"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7632"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7632\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}