{"id":7755,"date":"2013-11-19T00:00:00","date_gmt":"2013-11-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2013-11-19T00:00:00","modified_gmt":"2013-11-19T00:00:00","slug":"Publicacao-de-entrevista-poderia-ter-salvo-a-vida-de-Chico-Mendes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2013\/11\/19\/Publicacao-de-entrevista-poderia-ter-salvo-a-vida-de-Chico-Mendes\/","title":{"rendered":"Publica\u00e7\u00e3o de entrevista poderia ter salvo a vida de Chico Mendes"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 21 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"font-family: Verdana\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong><em>H&aacute; 25 anos, Jornal do Brasil teve a chance de publicar a entrevista que poderia ter salvado a vida de Chico Mendes; o &quot;interesse&quot; pela publica&ccedil;&atilde;o do material, por&eacute;m, s&oacute; aconteceu ap&oacute;s o assassinato do ativista.<br \/>\n<\/em><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: x-small\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"color: #0000ff\"><strong>* Reportagem de Edilson Martins.<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>A pouco mais de um m&ecirc;s de completar 25 anos do assassinato de Chico Mendes, ocorrido no dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri (<span style=\"font-family: Arial\">AC<\/span>), recebo do jornalista Altino Machado, do Blog da Amaz&ocirc;nia, a mensagem a seguir, que cont&eacute;m relevante depoimento e indaga&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n<\/strong><br \/>\n&quot;No dia 18 de dezembro de 1988, numa banca de revistas, em Rio Branco(<span style=\"font-family: Arial\">AC<\/span>), encontrei o l&iacute;der sindical e ecologista Chico Mendes(<span style=\"font-family: Arial\">1944-1988<\/span>) pela &uacute;ltima vez. Estava triste ao constatar que o Jornal do Brasil n&atilde;o havia publicado naquele domingo uma entrevista dele. Quatro dias depois, em Xapuri, Chico Mendes foi assassinado. Qual &eacute; a hist&oacute;ria daquela que ficou conhecida como a &uacute;ltima entrevista do seringueiro, concedida a voc&ecirc;, Edilson Martins?.<\/p>\n<p>\nVamos l&aacute;, aos idos de dezembro. Chico Mendes telefona dizendo encontrar-se em S&atilde;o Paulo, e que agora as amea&ccedil;as sinalizavam, de verdade, sua morte. Corriam os dias de dezembro de 1988; se esse &eacute; o ano da Nova Constitui&ccedil;&atilde;o, da greve na CSN, no Rio, ainda temos que suportar as sobras da ditadura militar, Jos&eacute; Sarney, presidindo o pa&iacute;s. Na lata, respondi: &ldquo;<em>D&aacute; um tempo, vou tentar um depoimento teu no Jornal do Brasil<\/em>&rdquo;. Naqueles anos, o JB era um dos grandes jornais, ainda, do pa&iacute;s, apesar da crise financeira comendo pelas bordas.<\/p>\n<p>\nVou at&eacute; a Av. Brasil, procuro o jornalista Zuenir Ventura, que editava um Caderno Especial, e falo da morte anunciada. Ele reage, dizendo n&atilde;o saber de quem se tratava &ndash; em verdade ningu&eacute;m sabia, e combinamos de eu fazer a entrevista. Ligo para Chico, pe&ccedil;o que venha correndo ao Rio, e at&eacute; argumentei: &ldquo;<em>Mano velho, com esta entrevista eles v&atilde;o ter que adiar, pelo menos uns dois ou tr&ecirc;s meses, tua morte<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>\nAo chegar ao Rio, come&ccedil;amos a gravar, e dois dias depois o texto estava conclu&iacute;do. Vou ao JB, e entrego, em m&atilde;os, a entrevista ao Zuenir. &Agrave; noite, corria talvez o dia 7, ou 8 de dezembro, convido-o para comer no Lamas. Ele baixa a cabe&ccedil;a, como se estivesse emburrado; &ldquo;<em>T&ocirc; sem grana, e voc&ecirc; gastando dinheiro comigo<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>\nFomos ao Lamas, bar bo&ecirc;mio do Rio, at&eacute; hoje, mas &agrave;quela &eacute;poca reunia a nata dos profissionais que &ldquo;<em>fechavam<\/em>&rdquo; a primeira p&aacute;gina dos grandes jornais. Adentramos, falei com muitos &ldquo;<em>coleguinhas<\/em>&rdquo;, fui a algumas mesas com o Chico ao meu lado, e ningu&eacute;m, sequer ningu&eacute;m, perguntou quem era aquele caipira, roupas fora do padr&atilde;o, gordinho, quase um capiau. Terminamos por dividir um PF(<span style=\"font-family: Arial\">prato feito<\/span>).<\/p>\n<p>\nNo s&aacute;bado, corro &agrave;s bancas em busca do Caderno Especial, e vejo que a entrevista n&atilde;o sa&iacute;ra. Entro em p&acirc;nico. Procuro o Zuenir e sou informado que se encontrava em Vit&oacute;ria, no Esp&iacute;rito Santo, mas que segunda-feira retornaria ao jornal. Na segunda, na reda&ccedil;&atilde;o, ele me diz que a mat&eacute;ria n&atilde;o sa&iacute;ra porque eu estava trazendo mais um cara que politizava demais a quest&atilde;o ambiental. Essa era a opini&atilde;o do jornal.<\/p>\n<p><em>&ndash; Quem?<\/p>\n<p>&ndash; Os dois diretores: o Marcos S&aacute; Correa e o Roberto Pompeu. N&atilde;o tem &ldquo;gancho&rdquo;. Ningu&eacute;m sabe quem &eacute; ele.<\/p>\n<p>&ndash; Bom, o jornal vai esperar o cara ser assassinado? A morte dele est&aacute; anunciada<\/em>.<\/p>\n<p>\nNo dia 22 de dezembro, &agrave; noite, o jornalista Elson Martins(<span style=\"font-family: Arial\">n&atilde;o &eacute; meu parente<\/span>) me telefona de Rio Branco(<span style=\"font-family: Arial\">AC<\/span>), liga&ccedil;&atilde;o p&eacute;ssima, e informa que o Chico havia sido &ldquo;<em>atocaiado<\/em>&rdquo; dentro de casa, e certamente morrera. A atriz C&aacute;ssia Kiss, que morava em minha casa, entra em p&acirc;nico. Ela o conhecera e, curiosamente, o que o pa&iacute;s queria saber, naqueles dias, era quem matara Odete Roitman, numa novela da Globo. Havia sido a pr&oacute;pria C&aacute;ssia.<\/p>\n<p>\nJ&aacute; pela manh&atilde; recebo os parab&eacute;ns do JB, por ter dado, via minha entrevista, um &ldquo;<em>furo<\/em>&rdquo; com a mat&eacute;ria, de lauda e meia, sobre a morte. Quase os mandei a puta que os pariu, e procurei o jornalista Fernando Gabeira. Conto a hist&oacute;ria, e ele conhecia muito bem o Chico Mendes. Gabeira diz que vai entrar em contato com a Folha de S. Paulo, e falar com Ot&aacute;vio Frias Filho. Pod&iacute;amos, acreditava o Gabeira, publicar na &iacute;ntegra o &uacute;ltimo depoimento do Chico.<\/p>\n<p>\nComo tudo na vida, houve um sen&atilde;o. Datilografara a entrevista, nove laudas, na minha valente Olivetti 22, sem carbono, portanto, sem c&oacute;pias, j&aacute; que os existentes n&atilde;o mais prestavam. Deixo Santa Teresa, onde morava, e na reda&ccedil;&atilde;o do JB sou cumprimentado, recuso, lembrando a n&atilde;o publica&ccedil;&atilde;o da entrevista no Caderno Especial. O que queria eram as laudas, e ent&atilde;o comecei a &ldquo;<em>blefar<\/em>&rdquo;. Precisava &ldquo;<em>blefar<\/em>&rdquo;.<\/p>\n<p>&ndash; <em>Vim comunicar, embora tenha as c&oacute;pias das laudas&nbsp;&#8211; n&atilde;o tinha -, que preciso dos originais, j&aacute; que vou public&aacute;-la, na &iacute;ntegra, na Folha de S. Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>\nO clima n&atilde;o era nada sereno, e um deles replica:<\/p>\n<p>&ndash; <em>Nada disso, vamos dar uma p&aacute;gina inteira aqui no JB, n&atilde;o mais no Caderno Especial, mas no 1&ordm; Caderno, na &iacute;ntegra<\/em>.<\/p>\n<p>\nSugeri, lembro-me bem, uma p&aacute;gina &iacute;mpar, o que foi feito, e o Roberto Pompeu foi mais longe: &quot;<em>Vamos fazer um pequeno editorial, na primeira p&aacute;gina. Preciso de um texto seu com subs&iacute;dios<\/em>&quot;. Era a primeira vez que se fazia um editorial na primeira p&aacute;gina.<\/p>\n<p>\nFeito o acordo, o JB publica na &iacute;ntegra o testamento, Chico Mendes passa a ser Chico Mendes, o pa&iacute;s fica perplexo, e neste &uacute;ltimo depoimento nomina os mandantes, assusta o mundo, dado as raz&otilde;es de sua morte: defesa intransigente do meio ambiente &#8211; e o jornal ganha mais uns 12 anos de vida digna.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"Chico Mendes - Francisco Alves Mendes Filho\" align=\"absMiddle\" width=\"465\" height=\"311\" src=\"\/UserFiles\/Image\/celebridades\/obituario\/francisco_alves_mendes_filho_chico_mendes_465.jpg\" \/><\/p>\n<p>Que fique claro um detalhe: no lugar de Marcos S&aacute; Correa e Roberto Pompeu, eu, se editor fosse, n&atilde;o teria agido de forma diferente. Chico Mendes<strong>(<span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"font-family: Arial\">Foto acima<\/span><\/span>)<\/strong>&nbsp;n&atilde;o tinha &ldquo;<em>gancho<\/em>&rdquo; para ganhar uma p&aacute;gina inteira politizando, como de fato estava fazendo, a quest&atilde;o ambiental.<\/p>\n<p>\nO que surpreende, e a&iacute; j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais um detalhe, &eacute; a performance do Zuenir. Desloca-se para o Acre, por convencimento meu, inclusive num voo comigo, onde l&aacute; nunca antes estivera, produz uma s&eacute;rie sobre a morte de Chico Mendes, por sinal, boa, posto que ajudado pelo jornalista Elson Martins, que n&atilde;o tem nenhum parentesco comigo, repito, e a partir da&iacute; passa a ser o Torquemada dos assassinos e mandantes.<\/p>\n<p>\nZuenir ganha um Pr&ecirc;mio Esso, certamente com muito lobby, escreve um livro, adota o garoto Gen&eacute;sio, uma das testemunhas juradas de morte, que hoje ningu&eacute;m sabe aonde se encontra, e vira amigo de inf&acirc;ncia, tendo jogado peteca, com certeza, nas barrancas do rio Acre, com Chico Mendes. Certamente, toda essa proeza, foi o seu maior feito jornal&iacute;stico, mestre Zuza.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Arial\"><strong>A entrevista<\/strong><\/span><\/span><\/span><br \/>\n<\/span><\/span><span style=\"color: #ff0000\"><strong><span style=\"font-size: small\"><span style=\"font-family: Verdana\">Confira abaixo a entrevista prestada pelo l&iacute;der sindical e ecologista Chico Mendes(<span style=\"font-family: Arial\">1944-1988<\/span>), concedida ao rep&oacute;rter Edilson Martins e s&oacute; publicada ap&oacute;s a sua morte.<br \/>\n<\/span><\/span><\/strong><\/span><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong><span style=\"font-family: Verdana\"><\/p>\n<p><\/span><\/strong><\/span><span style=\"font-family: Verdana\"><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">No dia 9 de dezembro, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri(<span style=\"font-family: Arial\">AC<\/span>), Francisco Mendes Filho, o Chico Mendes, integrante do Conselho Nacional de Seringueiros e conhecido internacionalmente por sua luta ecol&oacute;gica, esteve no Rio para participar de uma mesa redonda intitulada Amaz&ocirc;nia a Ferro e Fogo. Nessa ocasi&atilde;o ele concedeu uma entrevista ao <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">, na qual prenunciava a emboscada que iria sofrer 13 dias depois, na sua fazenda em Xapuri, onde tombou alvejado por uma espingarda.<\/p>\n<p>\nEm seu depoimento, Chico Mendes denuncia que os irm&atilde;os Darly e Alvarinho Alves o amea&ccedil;aram de morte e mandaram assassinar mais de 30 trabalhadores rurais. Naquele mesmo dia, o deputado estadual Jo&atilde;o Carlos Batista, do Partido Socialista Brasileiro, declarou na tribuna da Assembl&eacute;ia Legislativa do Par&aacute; que estava sendo amea&ccedil;ado de morte. Ele era advogado de posseiros e foi assassinado na noite do mesmo dia &#8211; era o sexto de uma lista de oito marcados para morrer.<\/p>\n<p>\nSeu depoimento p&oacute;stumo saiu na edi&ccedil;&atilde;o do dia 18 do <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">. As duas hist&oacute;rias guardam semelhan&ccedil;as brutais. Nesta p&aacute;gina, publicamos a &iacute;ntegra da entrevista de Chico Mendes.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Como est&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o no Acre?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">&#8211; Minha seguran&ccedil;a ultimamente foi refor&ccedil;ada, no Acre, por decis&atilde;o do governador Flaviano de Melo. Ele sabe que um assassinato vai complicar a situa&ccedil;&atilde;o do estado. N&atilde;o que a morte de um seringueiro no Acre seja novidade. Mas &eacute; que o nosso movimento tornou-se conhecido mundialmente. Principalmente junto &agrave;s autoridades do Banco Mundial(<span style=\"font-family: Arial\">Bird<\/span>), do Banco Interamericano de Desenvolvimento(<span style=\"font-family: Arial\">BID<\/span>) e do Congresso americano. Ora, n&atilde;o se bate de frente com essas entidades. Hoje minha vida passa pelos policiais da PM. Tenho tido uma rela&ccedil;&atilde;o amig&aacute;vel com meus seguran&ccedil;as.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Quem mais o amea&ccedil;a Publicamente?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Agora s&atilde;o dois fazendeiros em Xapuri(<span style=\"font-family: Arial\">AC<\/span>), os propriet&aacute;rios da Fazenda Paran&aacute;, Darly Alves e Alvarinho Alves. S&atilde;o irm&atilde;os. Est&atilde;o inclusive foragidos da Justi&ccedil;a, com mandado de pris&atilde;o decretado. Desde 1973, esses dois fazendeiros tinham ordem de pris&atilde;o no Paran&aacute;. N&oacute;s invocamos essa ordem de pris&atilde;o para o Acre, e confiamos, infelizmente, no superintendente da Pol&iacute;cia Federal, Mauro Sp&oacute;sito, que reteve durante 16 dias essa ordem de pris&atilde;o. Segundo o pr&oacute;prio juiz da Comarca de Xapuri, tal reten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi por acaso. Houve uma expectativa inicial: quem teria avisado os dois foragidos da Justi&ccedil;a? Hoje estamos absolutamente convencidos, por informa&ccedil;&otilde;es vazadas do pr&oacute;prio DPF, que esses dois fazendeiros s&atilde;o amigos do delegado da Policia Federal no Acre, Mauro Sp&oacute;sito. Os irm&atilde;os j&aacute; mandaram assassinar mais de 30 trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Cite algum desses crimes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Na noite de 27 de maio deste ano eles mandaram atacar o nosso acampamento de trabalhadores, em Xapuri, onde dois seringueiros foram baleados: Raimundo Pereira e Manuel Cust&oacute;dio. Foram brutalmente baleados. Logo em seguida, no dia 18 de junho, Ivair Ginho foi morto numa emboscada com espingarda calibre 12, dois tiros, e mais oito de rev&oacute;lver. Foi assassinado por grupos a servi&ccedil;o desses dois fazendeiros. Logo em seguida, em agosto, tudo neste ano apenas, um outro trabalhador, Jos&eacute; Ribeiro, em Xapuri, foi tamb&eacute;m assassinado por pistoleiros.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Qual a raz&atilde;o dessas mortes?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">S&atilde;o assassinos profissionais, frios e covardes. Depois, com tal atua&ccedil;&atilde;o, eles estabelecem o p&acirc;nico. Criam o clima de intimida&ccedil;&atilde;o, apavoram a popula&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Qual &eacute; a amea&ccedil;a dos dois irm&atilde;os fazendeiros?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> S&oacute; se entregariam &agrave; Justi&ccedil;a ap&oacute;s verem o meu cad&aacute;ver. Duvido que se entreguem. A PM do Acre sabe da exist&ecirc;ncia de pistoleiros no meu encal&ccedil;o, a servi&ccedil;o deles.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Onde o perigo &eacute; maior?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Nos aeroportos. &Eacute; porque desconfio que v&atilde;o me pegar. Agora em S&atilde;o Paulo tive o acompanhamento de policiais civis e PMs do estado. Ao chegar no Rio, estou tamb&eacute;m sob a cobertura de amigos e do pessoal da Campanha Nacional de Defesa pelo Desenvolvimento da Amaz&ocirc;nia(<span style=\"font-family: Arial\">CNDDA<\/span>).<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Ao retornar, agora, ao Acre, sua vida corre mais perigo ainda?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Eu tenho consci&ecirc;ncia de que todas as lideran&ccedil;as populares, nesses &uacute;ltimos dez anos &#8211; <em>advogados, padres, pastores, l&iacute;deres sindicais<\/em> &#8211; todos eles foram mortos. Mesmo com a garantia de vida do governo. N&atilde;o precisa nem citar exemplos, pois eles est&atilde;o vivos na mem&oacute;ria de todos. Tenho esperan&ccedil;a de continuar vivo. &Eacute; vivo que a gente fortalece essa luta. De parte do governo do estado n&atilde;o tenho o que temer. Pelo contr&aacute;rio. Agora, por outro lado, eu estou diante de dois inimigos poderosos: a Uni&atilde;o Democr&aacute;tica Ruralista(UDR) e a Pol&iacute;cia Federal no Acre.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; A Pol&iacute;cia Federal o acusa agora de dedo-duro. Mas a Imprensa de Rio Branco j&aacute; denunciou essa velha manobra, como heran&ccedil;a dos anos ditatoriais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">&Eacute; uma campanha de cal&uacute;nia, na tentativa de me desmoralizar na regi&atilde;o. Mas vamos supor que de fato eu seja um informante da Superintend&ecirc;ncia da Policia Federal no Acre. Ora, o doutor superintendente estaria cometendo um desservi&ccedil;o ao queimar um quadro t&atilde;o conhecido. Mas n&atilde;o &eacute; por a&iacute;. Estou sob dois fogos. Na data em que ele me acusa de informante, em 1975, eu estava sendo submetido a duros interrogat&oacute;rios, sob o comando desse policial, em Xapuri.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Xapuri, munic&iacute;pio acreano, &eacute; a frente mais avan&ccedil;ada, em toda a Amaz&ocirc;nia, na defesa intransigente da floresta? &Eacute; a frente Pol&iacute;tica mais conseq&uuml;ente desse resist&ecirc;ncia?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Poder&iacute;amos dizer que &eacute; a Frente Verde da Amaz&ocirc;nia. &Eacute; o &uacute;nico lugar, &uacute;nica regi&atilde;o, em toda a Amaz&ocirc;nia, em que, neste ano de 1988, os fazendeiros s&oacute; conseguiram desmatar 50 hectares de selva. A previs&atilde;o era desmatar 10 mil hectares de floresta prim&aacute;ria, mata virgem.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Um pouco mais que tr&ecirc;s parques nacionais da Floresta da Tijuca juntos. A floresta tomba, e voc&ecirc;s tamb&eacute;m. Quantos companheiros voc&ecirc;s perderam?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> No Acre, seis companheiros. De lideran&ccedil;a expressiva perdemos o Wilson Pinheiro, em 1980. Essa luta contra os desmatamentos criminosos come&ccedil;a em 1975. &Eacute; uma luta com mais de 13 anos. O marco dessa luta &eacute; o dia 10 de mar&ccedil;o de 1986. &Eacute; a&iacute; que tem in&iacute;cio o primeiro empate assumido, num seringal em Brasil&eacute;ia, no Acre.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; O que &eacute; um empate?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">&Eacute; uma forma de luta que n&oacute;s encontramos para impedir o desmatamento. &Eacute; forma pac&iacute;fica de resist&ecirc;ncia. No in&iacute;cio, n&atilde;o soubemos agir. Come&ccedil;avam os desmatamentos e n&oacute;s, ingenuamente, &iacute;amos &agrave; Justi&ccedil;a, ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal(IBDF), e aos jornais denunciar. N&atilde;o adiantava nada. No empate, a comunidade se organiza, sob a lideran&ccedil;a do sindicato, e, em mutir&atilde;o, se dirige &agrave; &aacute;rea que ser&aacute; desmatada pelos pecuaristas. A gente se coloca diante dos pe&otilde;es e jagun&ccedil;os, com nossa fam&iacute;lias, mulheres, crian&ccedil;as e velhos, e pedimos para eles n&atilde;o desmatarem e se retirarem do local. Eles, como trabalhadores, a gente explica, est&atilde;o tamb&eacute;m com o futuro amea&ccedil;ado. E esse discurso, emocionado sempre gera resultados. At&eacute; porque quem desmata &eacute; o pe&atilde;o simples, indefeso e inconsciente.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Mas Isso fura &agrave;s vezes?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Sim, o fazendeiro recorre a uma ordem judicial e, com apoio das for&ccedil;as policiais, executa o desmatamento. Espero que com a nova Constitui&ccedil;&atilde;o esse absurdo n&atilde;o prossiga. Mesmo assim, nosso movimento continuava crescendo, sem preju&iacute;zo de grandes recuos. J&aacute; em 1980, esse movimento dos seringueiros, movimento de empate, se generalizava por toda a regi&atilde;o. At&eacute; aquele momento, a luta era liderada pelo Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasil&eacute;ia(AC). Era um homem comprometido com a defesa da floresta e muito corajoso.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Quer dizer que essa luta come&ccedil;a em Brasil&eacute;ia?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Come&ccedil;a em Brasil&eacute;ia. S&oacute; que, em 1980, o Wilson Pinheiro foi assassinado dentro do sindicato, pelas costas, quando assistia a um programa de televis&atilde;o. Foi assassinado a mando de fazendeiros. Houve uma reuni&atilde;o dos fazendeiros, em julho de 1980, em que ficou acertado que uma forma de barrar o movimento dos seringueiros era matar as principais lideran&ccedil;as. Na noite de 21 de julho de 1980, Wilson foi fuzilado na sede de seu pr&oacute;prio sindicato. A nossa luta sofre um grande abalo. Mas logo depois ressurge em Xapuri, que fica a menos de 100 quil&ocirc;metros de Brasil&eacute;ia. E Xapuri, via sindicato, come&ccedil;a a comandar todas as nossas opera&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia, e vale dizer resist&ecirc;ncia pacifica, mas resist&ecirc;ncia. Quando conduzimos nossas fam&iacute;lias para o empate, deixamos transparente que o movimento &eacute; pac&iacute;fico. Ningu&eacute;m vai pra guerra levando mulher e filhos.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Qual o balan&ccedil;o dessa resist&ecirc;ncia em defesa da floresta?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Bom, de mar&ccedil;o de 1976 at&eacute; agora j&aacute; realizamos 45 empates, sofremos 30 derrotas e tivemos 15 vit&oacute;rias.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; O empate tem que objetivo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Criar um fato pol&iacute;tico. Mais que isso: desapropriar a &aacute;rea e finalmente criar a Reserva Extrativista.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; A Reserva Extrativista &eacute; uma cria&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc;s?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Veja bem: at&eacute; 1984, a gente realizava os empates, mas n&atilde;o t&iacute;nhamos muita clareza do que quer&iacute;amos. Sab&iacute;amos que o desmatamento era o nosso fim e de todos os seres vivos existentes na selva. Mas a coisa terminava a&iacute;. As pessoas falavam: &quot;<em>Voc&ecirc;s querem impedir o desmatamento e transformar a Amaz&ocirc;nia em santu&aacute;rio? Intoc&aacute;vel<\/em>?&quot;. Estava a&iacute; o impasse. A resposta veio atrav&eacute;s da Reserva Extrativista. Vamos utilizar a selva de forma racional, sem destru&iacute;-la. Os seringueiros, os &iacute;ndios, os ribeirinhos h&aacute; mais de 100 anos ocupam a floresta. Nunca a amea&ccedil;aram. Quem a amea&ccedil;a s&atilde;o os projetos agropecu&aacute;rios, os grandes madeireiros e as hidrel&eacute;tricas com suas inunda&ccedil;&otilde;es criminosas. Nas reservas extrativistas, n&oacute;s vamos comercializar e industrializar os produtos que a floresta generosamente nos concede. Temos na floresta o abacaba, o pato&aacute;, o a&ccedil;a&iacute;, o buriti, a pupunha, o baba&ccedil;u, o tucum&atilde;, a copa&iacute;ba, o mel de abelha, que nem os cientistas conhecem. E tudo isso pode ser exportado, comercializado. A universidade precisa vir acompanhar a Reserva Extrativista. Estamos abertos a ela. A Reserva Extrativista &eacute; a &uacute;nica sa&iacute;da para a Amaz&ocirc;nia n&atilde;o desaparecer. E mais: essa reserva n&atilde;o ter&aacute; propriet&aacute;rios. Ele vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o usufruto, n&atilde;o a propriedade.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Quem aprovou a id&eacute;ia primeiro?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a foi o exterior. Lamentamos que isso tenha acontecido. Em 1987, em janeiro, recebemos uma comiss&atilde;o da ONU, em Xapuri. Viram nossa luta. J&aacute; em mar&ccedil;o desse mesmo ano fui convidado a participar de uma reuni&atilde;o do Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID), em Miami. Por que minha presen&ccedil;a ao lado desses banqueiros? Por que s&atilde;o esses bancos que com seus financiamentos est&atilde;o destruindo a Amaz&ocirc;nia. Durante esse encontro fui entrevistado seguidas vezes pela imprensa internacional. N&atilde;o fui procurado por um &uacute;nico jornalista brasileiro. Logo depois, fui ao Congresso e falei para os congressistas americanos.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Que den&uacute;ncias foram feitas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Os projetos financiados pelos bancos internacionais na Amaz&ocirc;nia. Esses projetos est&atilde;o destruindo todas as formas de vida na &uacute;ltima reserva verde que sobrou na Terra.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; O governo de Rond&ocirc;nia parece n&atilde;o gostar de sua atua&ccedil;&atilde;o, que teria ajudado a suspender o financiamento de um projeto de US$ 200 milh&otilde;es por parte do Banco Mundial(Bird). &Eacute; verdade?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">O governo de Rond&ocirc;nia anunciou um projeto com mais de 1 milh&atilde;o de hectares para cria&ccedil;&atilde;o de reservas extrativistas. Tudo arma&ccedil;&atilde;o. Denunciamos. Mandei uma carta para o Bird, alertando-o sobre a import&acirc;ncia do projeto. A partir disso, o empr&eacute;stimo foi sustado.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Rond&ocirc;nia foi violentada?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> A maior v&iacute;tima de todos esses projetos de desenvolvimento. Nada similar foi feito no mundo em termos de destrui&ccedil;&atilde;o em tempo t&atilde;o curto. Terras f&eacute;rteis transformadas em pastos, mata queimada, seringueiros expulsos. Um apocalipse.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Quantas reservas extrativistas j&aacute; foram criadas no Acre?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> O governador j&aacute; aprovou o S&atilde;o Lu&iacute;s do Remanso, 40 mil hectares; Santa Quit&eacute;ria, em Brasil&eacute;ia, com 40 mil hectares, que j&aacute; est&aacute; se encaminhando; e o Seringal Cachoeira, com 25 mil hectares, em Xapuri, na base da luta, do empate, da resist&ecirc;ncia; e Macau&atilde;, em Sena Madureira, com mais de 50 mil hectares. N&oacute;s n&atilde;o ignoramos que o governador Flaviano de Melo tamb&eacute;m recebe muita press&atilde;o dos fazendeiros.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; O governador Flaviano de Melo j&aacute; foi amea&ccedil;ado de seq&uuml;estro pelos madeireiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211;<\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\"> Ele tentou regulamentar o desmatamento. Mexeu em casa de marimbondo. Hoje h&aacute; um corredor de fuma&ccedil;a que vai de Mato Grosso do Sul at&eacute; o Acre. Isto apenas nos meses de agosto e setembro. Este ano, em quase 50 anos de Amaz&ocirc;nia, nunca vi tantas queimadas. Est&atilde;o incendiando tudo. Todos os aeroportos, durante o ano passado, ficaram interditados durante uma semana. Este ano, essa interdi&ccedil;&atilde;o foi al&eacute;m de um m&ecirc;s. A Amaz&ocirc;nia, vista de cima, nesse per&iacute;odo, &eacute; fuma&ccedil;a s&oacute;. E como d&oacute;i.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Voc&ecirc; j&aacute; ganhou duas comendas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">O Pr&ecirc;mio Global 500, da ONU, e uma medalha da Sociedade para um Mundo Melhor, em Nova Iorque. Al&eacute;m de uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">JORNAL DO BRASIL &#8211; Com pr&ecirc;mios e reconhecimento internacional, voc&ecirc; ent&atilde;o seria um cad&aacute;ver delicado?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">CHICO MENDES &#8211; <\/span><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: normal; text-decoration: none\">Se descesse um enviado dos c&eacute;us e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta at&eacute; que valeria a pena. Mas a experi&ecirc;ncia nos ensina o contr&aacute;rio. Ent&atilde;o eu quero viver. Ato p&uacute;blico e enterro numeroso n&atilde;o salvar&atilde;o a Amaz&ocirc;nia. Quero viver.<\/span><\/p>\n<p>\n<span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\">* Jornal do Brasil, 25\/12\/1988.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\"><span style=\"color: #ff0000\">V&iacute;deos<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Depoimentos no dia do vel&oacute;rio e cenas do enterro de Chico Mendes<\/span><br \/>\n<iframe height=\"353\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/uwWfxLTZtj8\" frameborder=\"0\" width=\"470\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/p>\n<p>\n<span style=\"color: #0000ff\">Chico Mendes em Palestra no Departamento de Geografia da USP<\/span><br \/>\n<iframe height=\"353\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/S5_hUt-mvhk\" frameborder=\"0\" width=\"470\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/p>\n<p>\n<span style=\"color: #0000ff\">Chico Mendes &#8211; A voz da Amaz&ocirc;nia(Rede Manchete\/1989)<\/span><br \/>\n<iframe height=\"353\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/GXaxJYf9IPI\" frameborder=\"0\" width=\"470\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/p>\n<p>\n<\/span><\/span><\/span><span style=\"font-size: small\"><span style=\"font-family: Verdana\"><span style=\"background-color: transparent; font-variant: normal; font-style: normal; font-family: Arial; color: rgb(0,0,0); font-size: 13px; vertical-align: baseline; font-weight: bold; text-decoration: none\"><br \/>\n<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #0000ff\"><span style=\"font-size: x-small\"><span style=\"font-family: Arial\"><em>* <strong>Edilson Martins <\/strong>&eacute; jornalista e escritor acreano radicado no Rio, trabalhou e ainda colabora na grande imprensa brasileira. &Eacute; autor de oito livros: &ldquo;Nossos &Iacute;ndios, Nossos Mortos&rdquo;; &ldquo;Amaz&ocirc;nia, a &Uacute;ltima Fronteira&rdquo;; &ldquo;N&oacute;s, do Araguaia&rdquo;; &ldquo;Makaloba&rdquo; e &ldquo;Chico Mendes&rdquo;, entre outros.<\/em><\/p>\n<p><em>Dirigiu o document&aacute;rio &ldquo;Chico Mendes&rdquo;, entre outros, onde &eacute; feita a narrativa de sua morte, tendo sido, na primeira d&eacute;cada dos anos 1990, um dos mais exibidos no mundo. J&aacute; ganhou o maior pr&ecirc;mio televisivo do pa&iacute;s, o &ldquo;Wladimir Herzog&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>No ano passado, lan&ccedil;ou a s&eacute;rie televisiva &ldquo;Amaz&ocirc;niAdentro&rdquo;, uma revisita&ccedil;&atilde;o &agrave; regi&atilde;o nos &uacute;ltimos 120 anos. Tem novo livro pronto, &ldquo;A Viagem de Bediai&rdquo;, e trabalha na produ&ccedil;&atilde;o de uma grande s&eacute;rie para a TV sobre a regi&atilde;o amaz&ocirc;nica.<\/em><\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interesse pela publica\u00e7\u00e3o do material, s\u00f3 aconteceu ap\u00f3s o assassinato do ativista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7755"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7755\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}