{"id":7979,"date":"2014-05-26T00:00:00","date_gmt":"2014-05-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2014-05-26T00:00:00","modified_gmt":"2014-05-26T00:00:00","slug":"O-Brasil-e-o-maior-consumidor-de-Rivotril-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2014\/05\/26\/O-Brasil-e-o-maior-consumidor-de-Rivotril-do-mundo\/","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 o maior consumidor de Rivotril do mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 9 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nTodo mundo tem um ref&uacute;gio a que costuma recorrer para aliviar o peso dos problemas. Pode ser um lugar tranquilo, talvez a praia. O pensamento em uma pessoa querida. Uma extravag&acirc;ncia, como compras ou aquele prato proibido pelo m&eacute;dico.&nbsp;Ou pode ser o armarinho de rem&eacute;dios de casa.<\/p>\n<p>\nNa farm&aacute;cia n&atilde;o se encontra produto descrito como &quot;<em>paz em dr&aacute;geas<\/em>&quot; ou &quot;<em>xarope de paz<\/em>&quot;. Mas muita gente acha que &eacute; isso o que deveria dizer o r&oacute;tulo do Rivotril, um ansiol&iacute;tico(<span style=\"font-family: Arial;\">ou, popularmente, um calmante<\/span>). Rivotril &eacute; prescrito por psiquiatras a pacientes em crise de ansiedade &#8211; nos casos em que o sofrimento tenha causa bem definida. Mas tem sido usado pelos brasileiros como elixir contra as press&otilde;es banais do dia a dia: ins&ocirc;nia, prazos, conflitos em relacionamentos. Um arqui-inimigo dos dilemas do mundo moderno.<\/p>\n<p>\nTanto que o Brasil &eacute; o maior consumidor do mundo em volume de clonazepam, o princ&iacute;pio ativo do rem&eacute;dio. Ser&atilde;o 2,1 toneladas em 2010, o que coloca o Rivotril no topo das paradas farmac&ecirc;uticas daqui. &Eacute; o 2&ordm; rem&eacute;dio mais vendido no pa&iacute;s, &agrave; frente de nomes como Hipogl&oacute;s e Buscopan Composto &#8211; em 2004, era o 4&ordm; da lista. S&oacute; perde agora para o Microvlar, anticoncepcional com consumo atrelado &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o pelo governo via Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de(<span style=\"font-family: Arial;\">SUS<\/span>).<\/p>\n<p>\nE olhe que o Rivotril &eacute; um rem&eacute;dio tarja preta. S&oacute; pode ser comprado na farm&aacute;cia com a receita do m&eacute;dico em m&atilde;os. &quot;<em>A maior parte das vendas desse medicamento acontece via prescri&ccedil;&atilde;o. Mas muitos conseguem o rem&eacute;dio com receita em nome de outros pacientes ou at&eacute; pela internet<\/em>&quot;, afirma Elisardo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informa&ccedil;&otilde;es sobre Drogas Psicotr&oacute;picas, da Unifesp. Em alguns casos, at&eacute; h&aacute; a prescri&ccedil;&atilde;o &#8211; mas de um m&eacute;dico n&atilde;o especialista, segundo Alexandre Saadeh, professor do Instituto de Psiquiatria da USP. &quot;<em>Ginecologistas costumam prescrever Rivotril para pacientes que sofrem fortes crises de TPM<\/em>&quot;, diz. At&eacute; porque poucos brasileiros v&atilde;o ao psiquiatra, de acordo com a Roche, laborat&oacute;rio respons&aacute;vel pelo Rivotril. &quot;<em>Grande parte dos brasileiros tem dificuldade de acesso a psiquiatras, e isso est&aacute; relacionado &agrave; prescri&ccedil;&atilde;o do Rivotril por m&eacute;dicos n&atilde;o especialistas<\/em>&quot;, afirma Maur&iacute;cio Lima, diretor-m&eacute;dico da Roche.<\/p>\n<p>\nFoi assim, por via n&atilde;o ortodoxa, que a popularidade do Rivotril cresceu. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil ouvir donas de casa recomendando o rem&eacute;dio a uma amiga que tem tido problemas para dormir. &quot;<em>Quem nunca ouviu que uma tia ou uma vizinha toma Rivotril h&aacute; 20 anos e s&oacute; dorme com isso<\/em>?&quot;, pergunta o professor de psiquiatria do curso de medicina da PUC de S&atilde;o Paulo, Carlos Hubner. Ou achar relatos do tipo &quot;Rivotril &eacute; meu melhor amigo&quot; no Orkut e no Facebook.<\/p>\n<p>\nNessas hist&oacute;rias, o Rivotril aparece sempre como um freio para sentimentos como medo, rejei&ccedil;&atilde;o, ang&uacute;stia, tristeza e ansiedade. &quot;<em>Houve Big Brother em que eu estava com muita ansiedade e usava Rivotril para entrar no ar<\/em>&quot;, disse Pedro Bial em entrevista &agrave; revista Playboy. O rem&eacute;dio tem sido usado at&eacute; para cortar o efeito de outras drogas, segundo o psiquiatra Andr&eacute; Gustavo Silva Costa, especialista em tratamento de dependentes qu&iacute;micos. &quot;<em>Jovens t&ecirc;m tomado o Rivotril para cortar o efeito de drogas como coca&iacute;na. Eles querem dormir bem para conseguir trabalhar no dia seguinte<\/em>&quot;, diz.<\/p>\n<p><span style=\"color: rgb(0, 0, 255);\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>O que &eacute; que o Rivotril tem ?<\/strong><\/span><\/span><\/span><br \/>\nMas que m&aacute;gica &eacute; essa? Quando somos pressionados, algumas &aacute;reas do c&eacute;rebro passam a trabalhar mais. Vem a ansiedade. O Rivotril age estimulando justamente os mecanismos que equilibram esse estado de tens&atilde;o &#8211; inibindo o que estava funcionando demais. A pessoa passa a responder menos aos est&iacute;mulos externos. Fica tranquila. Ainda que o bicho esteja pegando no trabalho, o casamento indo de mal a pior e as contas se acumulando na porta. &Eacute; essa sensa&ccedil;&atilde;o de paz que atrai tanta gente. Afinal, a ansiedade traz muito inc&ocirc;modo: suor, calafrios, ins&ocirc;nia, taquicardia&#8230; &quot;<em>Muitas vezes o sofrimento se torna insuport&aacute;vel. O rem&eacute;dio &eacute; valioso quando o paciente piora<\/em>&quot;, diz Silva Costa. Para a carioca Bruna Paix&atilde;o, de 32 anos, funcionou. &quot;<em>Um dia tomei uma bronca do meu chefe e fiquei p&eacute;ssima. S&oacute; pensava nisso. A&iacute; resolvi tomar Rivotril para dormir. Tinha uma caixa em casa, dada por um amigo m&eacute;dico. Assisti um pouco de TV, conversei com um amigo no telefone e fui ficando bem<\/em>&quot;, diz.<\/p>\n<p>\nJustamente por trazer essa calma toda, o Rivotril n&atilde;o &eacute; recomendado a qualquer um. Seu consumo por profissionais que t&ecirc;m de se manter &aacute;geis e em estado de alerta &#8211; como pilotos de avi&atilde;o e operadores de m&aacute;quinas, por exemplo &#8211; &eacute; desaconselhado por m&eacute;dicos. &quot;<em>O Rivotril d&aacute; a falsa impress&atilde;o de que a pessoa produz mais, mas a verdade &eacute; que o rem&eacute;dio s&oacute; deixa mais calmo<\/em>&quot;, diz Jos&eacute; Carlos Galduroz, psiquiatra da Unifesp.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o &eacute; s&oacute; com o Rivotril que isso acontece. Os calmantes da fam&iacute;lia dele &#8211; os chamados benzodiazep&iacute;nicos &#8211; t&ecirc;m o mesmo papel. S&atilde;o rem&eacute;dios como Lexotan, Diazepam e Lorax. Em parte, o Rivotril ficou famoso ao pegar carona na onda dos &quot;<em>benzo<\/em>&quot;. Eles surgiram na d&eacute;cada de 1950, e logo viraram os substitutos para os barbit&uacute;ricos, como o Gardenal. Os barbit&uacute;ricos t&ecirc;m indica&ccedil;&atilde;o semelhante &agrave; dos benzo. Mas s&atilde;o mais perigosos: a linha entre a dosagem indicada para o tratamento e aquela considerada t&oacute;xica &eacute; muito t&ecirc;nue. A mais famosa v&iacute;tima dos excessos de barbit&uacute;ricos foi Marylin Monroe(<span style=\"font-family: Arial;\">embora haja d&uacute;vidas sobre o envenenamento acidental da atriz<\/span>). Quando surgiram os benzodiazep&iacute;nicos, o mundo achou um combate mais seguro &agrave; ansiedade. &quot;<em>Uma overdose de rem&eacute;dios como o Rivotril &eacute; praticamente imposs&iacute;vel<\/em>&quot;, diz Saadeh, da USP.<\/p>\n<p>\n&Eacute; verdade, o Rivotril tem ber&ccedil;o, vem de uma fam&iacute;lia benquista pelos m&eacute;dicos. Isso j&aacute; garante uma popularidade. Mas ele tem uma vantagem extra em rela&ccedil;&atilde;o aos parentes. Seu tempo de a&ccedil;&atilde;o &eacute; de, em m&eacute;dia, 18 horas no organismo, entre o in&iacute;cio do relaxamento, o pico do efeito e a sa&iacute;da do corpo. &Eacute; o que os m&eacute;dicos chamam de meia-vida. &quot;<em>A meia-vida do Rivotril &eacute; uma das mais confort&aacute;veis para o paciente, porque fica no meio-termo em rela&ccedil;&atilde;o aos outros rem&eacute;dios para a ansiedade e facilita a adapta&ccedil;&atilde;o<\/em>&quot;, diz Saadeh. Na pr&aacute;tica, esse meio-termo significa que o efeito do Rivotril n&atilde;o termina nem cedo demais &#8211; <em>o que poderia fazer o paciente acordar de uma noite de sono j&aacute; ansioso<\/em> &#8211; nem tarde demais &#8211; o que n&atilde;o prolonga a seda&ccedil;&atilde;o por um per&iacute;odo maior que o desejado.<\/p>\n<p>\nNo Brasil, o Rivotril tem ainda outra vantagem importante. Repare: somos os maiores consumidores mundiais do rem&eacute;dio, mas estamos apenas na 51&ordf; coloca&ccedil;&atilde;o na lista global de consumo de benzodiazep&iacute;nicos. Ou seja: o mundo consome muitos benzo, n&oacute;s consumimos muito Rivotril. Por qu&ecirc;? Por causa do pre&ccedil;o. Uma caixa de Rivotril com 30 comprimidos(<span style=\"font-family: Arial;\">considerando a vers&atilde;o de 0,5 miligrama<\/span>) custa em torno de R$ 8. O principal concorrente, o Frontal, da Pfizer, custa cerca de R$ 29.<\/p>\n<p>\nTudo isso faz o pessoal se esquecer da tarja preta do rem&eacute;dio. Mas ela est&aacute; l&aacute; por um motivo, &eacute; claro. E esse motivo &eacute; o risco de depend&ecirc;ncia.&nbsp;O risco &eacute; o mesmo visto em outros benzodiazep&iacute;nicos. S&atilde;o dois, ali&aacute;s. O de depend&ecirc;ncia qu&iacute;mica e o de depend&ecirc;ncia psicol&oacute;gica. Na qu&iacute;mica, o processo &eacute; parecido com o gerado por drogas como &aacute;lcool e coca&iacute;na. O uso prolongado torna o c&eacute;rebro dependente daquela subst&acirc;ncia para funcionar corretamente. A outra depend&ecirc;ncia &eacute; a psicol&oacute;gica.<\/p>\n<p>\nA pessoa at&eacute; para de tomar o rem&eacute;dio, mas mant&eacute;m uma caixa sempre no bolso como precau&ccedil;&atilde;o. &quot;<em>Cerca de 80% das pessoas que usam benzodiazep&iacute;nicos ficam dependentes em 2 ou 3 meses de uso<\/em>&quot;, diz Anthony Wong, diretor do Centro de Assist&ecirc;ncia Toxicol&oacute;gica do Hospital das Cl&iacute;nicas, de S&atilde;o Paulo. &quot;<em>E a maioria tem s&iacute;drome de abstin&ecirc;ncia se o rem&eacute;dio for tirado de uma hora para outra<\/em>&quot;.<\/p>\n<p>\nEm casos mais graves, a abstin&ecirc;ncia pode levar o paciente a uma interna&ccedil;&atilde;o. A pessoa pode ver, ouvir e sentir coisas que n&atilde;o existem, apresentar del&iacute;rios(<span style=\"font-family: Arial;\">como ser perseguida por extraterrestres<\/span>), agita&ccedil;&atilde;o, depress&atilde;o, apatia, entre outros sintomas. <em>E para cortar a depend&ecirc;ncia<\/em>? &quot;<em>O paciente precisa querer parar. H&aacute; drogas que tratam os sintomas da abstin&ecirc;ncia em no m&aacute;ximo 4 semanas<\/em>&quot;, afirma Carlo Hubner, da PUC.<\/p>\n<p>\nLivrar-se do Rivotril &eacute; duro porque &eacute; preciso enfrentar todos os fantasmas de que o paciente queria se livrar quando buscou o rem&eacute;dio. Afinal, o rem&eacute;dio s&oacute; esconde os problemas. Eles continuar&atilde;o l&aacute;, &agrave; espera de solu&ccedil;&atilde;o. O verdadeiro adeus &eacute; o momento em que se aprende a lidar com a ansiedade. Sozinho. Ou talvez com uma passadinha r&aacute;pida na praia. Pensando no namorado. Ou com a ajuda daquela lasanha(<span style=\"font-family: Arial;\">bem gorda<\/span>).<\/p>\n<p><\/span><\/span><span style=\"color: rgb(0, 0, 255);\"><span style=\"font-size: xx-small;\"><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>* super.abril.com.br.<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempo de leitura: 9 minutos Todo mundo tem um ref&uacute;gio a que costuma recorrer para aliviar o peso dos problemas. 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