{"id":8486,"date":"2018-09-09T00:00:00","date_gmt":"2018-09-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-09-09T00:00:00","modified_gmt":"2018-09-09T00:00:00","slug":"Estrada-que-liga-Manaus-a-resto-do-pais-ameaca-abrir-uma-Alemanha-na-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2018\/09\/09\/Estrada-que-liga-Manaus-a-resto-do-pais-ameaca-abrir-uma-Alemanha-na-mata\/","title":{"rendered":"Estrada que liga Manaus a resto do pa\u00eds amea\u00e7a abrir uma Alemanha na mata"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 7 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: rgb(0, 0, 255);\"><em><strong><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"font-family: Arial;\"><br \/>\nBR-319 &#8211; Asfaltar ou n&atilde;o asfaltar?.&nbsp;A radiografia dos planos em curso e seus obst&aacute;culos para lidar com os principais problemas da Amaz&ocirc;nia: acesso, desenvolvimento, explora&ccedil;&atilde;o, preserva&ccedil;&atilde;o e direito &agrave; terra.<\/span><\/span><\/strong><\/em><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><\/p>\n<p>BR-319(<span style=\"font-family: Arial;\">AM\/RO<\/span>) A poeirenta Realidade(<span style=\"font-family: Arial;\">AM<\/span>) segue o ciclo de explora&ccedil;&atilde;o descontrolada de madeira, que abre espa&ccedil;o para a grilagem e o desmatamento ilegal que precede a pecu&aacute;ria extensiva. A diferen&ccedil;a &eacute; que a vila fica &agrave;s margens da BR-319, que, se asfaltada, pode espalhar esse modelo de ocupa&ccedil;&atilde;o ca&oacute;tica a uma &aacute;rea da floresta maior que a Alemanha.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nInaugurada em 1976, a BR-319 tem quase 900 km e &eacute; a &uacute;nica liga&ccedil;&atilde;o rodovi&aacute;ria de Manaus ao resto do pa&iacute;s, via Porto Velho(<span style=\"font-family: Arial;\">RO<\/span>). Contra a praxe, foi entregue asfaltada, mas a falta de manuten&ccedil;&atilde;o fez com que perdesse o pavimento at&eacute; ficar intransit&aacute;vel, em 1988.<\/p>\n<p>\nDesde 1996, a rodovia voltou ao radar do governo. Desde ent&atilde;o, o reasfaltamento de trechos pr&oacute;ximos &agrave;s capitais e as obras de manuten&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m melhorado a trafegabilidade e aumentado o fluxo de ve&iacute;culos, que levam pessoas e mercadorias, mas a falta de licen&ccedil;a ambiental vem impedindo a pavimenta&ccedil;&atilde;o do chamado &quot;<em>trecho do meio<\/em>&quot;, de 406 km.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nH&aacute; muito debate em torno dessa licen&ccedil;a. O principal entrave para que o Ibama(<span style=\"font-family: Arial;\">Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&aacute;veis<\/span>) n&atilde;o a emita &eacute; a baixa presen&ccedil;a do Estado na regi&atilde;o da BR-319, cujo asfaltamento viabilizaria tamb&eacute;m a abertura de quatro estradas estaduais projetadas.<br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nA maior delas, AM-366, de 578 km, corta um parque nacional e terras ind&iacute;genas. Ao todo, a &aacute;rea de influ&ecirc;ncia da BR-319 equivale aos territ&oacute;rios da Alemanha e Holanda juntos, segundo estudo do Idesam(<span style=\"font-family: Arial;\">Instituto de Conserva&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Sustent&aacute;vel da Amaz&ocirc;nia<\/span>).<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nA aus&ecirc;ncia do Estado piorou em outubro do ano passado, quando garimpeiros incendiaram os escrit&oacute;rios do Ibama e do ICMBio(<span style=\"font-family: Arial;\">Instituto Chico Mendes de Conserva&ccedil;&atilde;o da Biodiversidade<\/span>) em Humait&aacute;(<span style=\"font-family: Arial;\">AM<\/span>), munic&iacute;pio ao qual a vila de Realidade pertence.<\/p>\n<p>\nA BR-319 &eacute; uma enorme amea&ccedil;a &agrave; floresta porque abre a metade que sobrou da Amaz&ocirc;nia brasileira &agrave; entrada de desmatadores, diz o ec&oacute;logo norte-americano Philip Fearnside, do Inpa(<span style=\"font-family: Arial;\">Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz&ocirc;nia<\/span>), com sede em Manaus.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nA estrada conecta o Arco do Desmatamento(<span style=\"font-family: Arial;\">sul do Amazonas e Rond&ocirc;nia<\/span>) com Manaus, que tem uma rede de estradas at&eacute; Roraima, por onde podem sair os migrantes, diz Fearnside, ganhador do Nobel da Paz de 2007 com outros cientistas do IPCC, o painel de clima da ONU, pelos alertas para o aquecimento global.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nA melhoria de condi&ccedil;&otilde;es da estrada nos &uacute;ltimos anos j&aacute; incentivou o crescimento de Realidade, que come&ccedil;ou como assentamento do Incra e hoje tem cerca de 7.000 pessoas, boa parte vinda de Rond&ocirc;nia.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nO estudo do Idesam sobre os impactos socioambientais da BR-319 mostra que, nos &uacute;ltimos oito anos, 305 km de ramais(<span style=\"font-family: Arial;\">estradas vicinais<\/span>) foram abertos em torno de Realidade, principalmente por madeireiros. Apenas de 2016 ao ano passado, o total da &aacute;rea desmatada ali aumentou 17%.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"\/UserFiles\/Image\/meio_ambiente\/amazonia_desmatamento_465.jpg\" width=\"465\" height=\"311\" align=\"absMiddle\" alt=\"\" \/><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nAs ocupa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o muito mais r&aacute;pidas do que a presen&ccedil;a dos governos nessas &aacute;reas, diz a pesquisadora Fernanda Meirelles, coordenadora de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas do Idesam.&nbsp;<\/span><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Segundo ela, a cria&ccedil;&atilde;o de unidades de conserva&ccedil;&atilde;o ao longo da BR-319 para mitigar os impactos n&atilde;o basta para manter a floresta preservada.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nElas s&atilde;o muito importantes e atuam como barreira de desmatamento, mas j&aacute; verificamos, em algumas unidades, ramais abertos. Quanto mais perto est&aacute; de assentamentos e concentra&ccedil;&otilde;es urbanas, mais vulner&aacute;veis est&atilde;o, diz.<\/p>\n<p><\/span><\/span><span style=\"color: rgb(0, 0, 255);\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong><span style=\"font-family: Arial;\">Moradores novos e antigos<\/span><\/strong><\/span><\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Percorrendo a rodovia de Manaus a Porto Velho por tr&ecirc;s dias, de moradores atra&iacute;dos &agrave; regi&atilde;o nos anos 1970 a caminhoneiros atolados, todos apoiam o asfaltamento.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nEm Realidade(<span style=\"font-family: Arial;\">a 600 km de Manaus e 290 km de Porto Velho<\/span>) desde 2005, Valtair de Freitas, 58, &eacute; um dos migrantes atra&iacute;dos por terras baratas e a perspectiva de pavimenta&ccedil;&atilde;o. Nascido no Paran&aacute;, foi jovem com os pais para Rond&ocirc;nia antes de subir para o Amazonas em busca de mais espa&ccedil;o pra criar a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>\nNa regi&atilde;o, Freitas cria gado de corte e leiteiro e explora madeira. Ele explica que ainda n&atilde;o conseguiu legalizar suas terras e que possui uma licen&ccedil;a de manejo floresta expedida pelo governo estadual.&nbsp;<\/span><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Freitas diz que, para viver bem, uma fam&iacute;lia precisa de mil cabe&ccedil;as de gado em mil hectares de pastagem. A gente vem de fora e tem o pensamento s&oacute; na cria&ccedil;&atilde;o de gado.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nO pecuarista diz ser poss&iacute;vel viver na regi&atilde;o em &aacute;reas de dez hectares, desde que o governo incentive a diversifica&ccedil;&atilde;o com agricultura e cria&ccedil;&atilde;o de peixes. Com o asfaltamento, afirma, a produ&ccedil;&atilde;o ter&aacute; mercado em Manaus e seus 2,1 milh&otilde;es de habitantes.<\/p>\n<p>\n<\/span><\/span><span style=\"color: rgb(0, 0, 255);\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>Viagem mais curta<\/strong><\/span><\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Fora da estrada, a press&atilde;o para asfaltar vem sobretudo de lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas e empres&aacute;rios do Amazonas e de Rond&ocirc;nia, incluindo a Rede Amaz&ocirc;nica, afiliada da Rede Globo. O principal argumento &eacute; o barateamento do frete at&eacute; Manaus, onde as mercadorias escoam principalmente pela via fluvial &#8211; a conex&atilde;o com Rond&ocirc;nia &eacute; pelo rio Madeira.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nO fluvial &eacute; em geral mais barato, mas bem mais demorado, 12 horas contra cinco dias. Al&eacute;m disso, durante em tr&ecirc;s meses do ano a passagem para Porto Velho fica quase bloqueada e, portanto, demora mais e fica bem mais cara, afirma Denis Minev, diretor financeiro da Bemol, uma cadeia de lojas de departamento da Amaz&ocirc;nia, com sede em Manaus.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nFora isso, o transbordo em log&iacute;stica encarece. Para Porto Velho fica mais barato, mas n&atilde;o para o resto do pa&iacute;s, acrescentou.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nHoje, o tempo de viagem &eacute; imprevis&iacute;vel por causa dos atoleiros. No per&iacute;odo de chuvas(<span style=\"font-family: Arial;\">dezembro a maio<\/span>), sobram relatos de caminh&otilde;es e &ocirc;nibus que levam at&eacute; sete dias para completar o percurso entre as duas capitais.<\/p>\n<p>\nSecret&aacute;rio-geral da Associa&ccedil;&atilde;o dos Amigos e Defensores da BR-319, o ge&oacute;grafo Thiago Neto admite que falta governan&ccedil;a para coibir o desmatamento, mas v&ecirc; condi&ccedil;&otilde;es para que a BR-319 ser asfaltada sem repetir m&aacute;s experi&ecirc;ncias em outras rodovias da Amaz&ocirc;nia.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nPra fazer diferente, tem de ter atua&ccedil;&atilde;o do Estado nas unidades de conserva&ccedil;&atilde;o, na fiscaliza&ccedil;&atilde;o, afirma o ge&oacute;grafo.&nbsp;<\/span><\/span><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Procurado h&aacute; cerca de um m&ecirc;s, o Dnit(<span style=\"font-family: Arial;\">Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes<\/span>) n&atilde;o respondeu ao pedido de esclarecimento sobre o atraso na conclus&atilde;o dos estudos de impacto ambiental para a pavimenta&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nModerador de um f&oacute;rum sobre a BR-319, com a participa&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os governamentais e da sociedade civil, o procurador da Rep&uacute;blica Rafael Rocha afirma que o debate parte da premissa de que a rodovia ser&aacute; asfaltada em breve.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nUns s&atilde;o mais comprometidos com a pavimenta&ccedil;&atilde;o e menos com a sustentabilidade, e outros, mais com a sustentabilidade e menos com a pavimenta&ccedil;&atilde;o, diz Rocha.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Verdana;\"><br \/>\nO pr&oacute;ximo passo, mais importante, &eacute; tentar estabelecer os pactos de governan&ccedil;a. Sen&atilde;o, nem precisa exercer futurologia. Basta ver o que aconteceu na Santar&eacute;m-Cuiab&aacute;, um dos maiores focos de desmatamento da Amaz&ocirc;nia.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lote com \u00e1rea desmatada para pasto, as margens da rodovia BR-319<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8486"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8486\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}