{"id":8767,"date":"2020-06-13T00:00:00","date_gmt":"2020-06-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2020-06-13T00:00:00","modified_gmt":"2020-06-13T00:00:00","slug":"O-traficante-de-escravos-que-virou-estatua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/2020\/06\/13\/O-traficante-de-escravos-que-virou-estatua\/","title":{"rendered":"O traficante de escravos que virou est\u00e1tua"},"content":{"rendered":"<div id=\"tt-temp-estim\">Tempo de leitura: 17 minutos<\/div><p style=\"text-align: justify;\">Quando manifestantes antirracistas retiraram a est&aacute;tua do brit&acirc;nico Edward Colston, no domingo(07Junho2020), e a jogaram no fundo de um antigo porto de navios negreiros em Bristol, as imagens reacenderam debates sobre monumentos semelhantes na Europa e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em Salvador, o porto onde chegou quase um ter&ccedil;o dos africanos trazidos ao Brasil, a homenagem a um dos principais traficantes de escravizados continua imperturb&aacute;vel diante de uma pra&ccedil;a p&uacute;blica no centro da cidade. Sua biografia ainda &eacute; conhecida, praticamente, apenas por historiadores.<\/p>\n<p>A est&aacute;tua do portugu&ecirc;s Joaquim Pereira Marinho, que fica diante do hospital Santa Izabel, no Largo de Nazar&eacute;, na capital baiana, &eacute; um exemplo de como pa&iacute;s ainda lida com a mem&oacute;ria da escravid&atilde;o, de acordo com um grupo de historiadores que decidiu mapear as homenagens do tipo na cidade.<\/p>\n<p>&quot;Aqui n&oacute;s sequer temos ideia dos monumentos a figuras do passado que t&ecirc;m conex&otilde;es com a opress&atilde;o de negros, de ind&iacute;genas ou a movimentos de emancipa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que temos nas cidades. De tempos em tempos temos esse debate entre os colegas, especialmente quando a discuss&atilde;o explode em outros pa&iacute;ses, como aconteceu nos Estados Unidos em 2017 e agora na Inglaterra&quot;, disse &agrave; BBC News Brasil o historiador Moreno Pacheco, professor da Universidade Federal da Bahia(Ufba), um dos respons&aacute;veis pela iniciativa.<\/p>\n<p>\nDe traficantes a benfeitores<br \/>\nJoaquim Pereira Marinho passou para a hist&oacute;ria como conde, mas n&atilde;o era parte da nobreza. Seu t&iacute;tulo j&aacute; foi conquistado como parte de um esfor&ccedil;o para estabelecer uma imagem como membro da alta sociedade da Bahia, depois da fortuna feita com o tr&aacute;fico de africanos cativos.<\/p>\n<p>O primeiro registro do portugu&ecirc;s na Bahia &eacute; de 1828, como mar&iacute;timo, um funcion&aacute;rio de navios. Dois anos depois, ele j&aacute; &eacute; registrado como propriet&aacute;rio de navios que faziam frequentemente o trajeto entre o continente africano &#8211; a costa da Mina, onde hoje ficam Benin, Togo e Nig&eacute;ria, e as regi&otilde;es onde hoje s&atilde;o Angola e Congo &#8211; e o Brasil.<\/p>\n<p>&quot;Mas uma coisa que o torna diferente de figuras como Edward Colston, por exemplo, que j&aacute; vinha de uma fam&iacute;lia propriet&aacute;ria de escravos, &eacute; que Pereira Marinho realmente entrou no neg&oacute;cio depois que ele j&aacute; era proibido no Brasil&quot;, disse &agrave; BBC News Brasil o historiador Carlos da Silva Jr., professor da Universidade Estadual de Feira de Santana(Uefs), doutorando em Hist&oacute;ria da &Aacute;frica pela Universidade de Hull.<\/p>\n<p>Em 1831, a Lei Feij&oacute; passou a proibir, em teoria, a importa&ccedil;&atilde;o de africanos como escravos ao pa&iacute;s. &quot;Essa lei ficou conhecida como &#8216;Lei para Ingl&ecirc;s Ver&#8217;, porque apesar da queda no n&uacute;mero de negros trazidos ao Brasil como escravos at&eacute; 1835, ele voltou a aumentar nos anos seguintes, porque os traficantes, com o apoio do Estado brasileiro, continuaram trazendo pessoas para c&aacute;&quot;.<\/p>\n<p>Os navios registrados em nome de Pereira Marinho no projeto Banco de Dados do Tr&aacute;fico de Escravos Transatl&acirc;ntico fizeram 33 viagens entre o Brasil e a &Aacute;frica entre 1839 e 1850.<\/p>\n<p>Segundo Silva Jr, estima-se que ele trouxe cerca de 11.584 homens, mulheres e crian&ccedil;as como escravos &agrave; Bahia, e at&eacute; 10% deles, cerca de 1.150, podem ter morrido ainda durante a travessia.<\/p>\n<p>Mesmo com a proibi&ccedil;&atilde;o definitiva do tr&aacute;fico em 1851, com a Lei Eus&eacute;bio de Queiroz, Marinho continuou transportando africanos como cativos para as Am&eacute;ricas.<\/p>\n<p>&quot;Em 1858, ele criou a Companhia Uni&atilde;o Africana, para fazer com&eacute;rcio legal com a &Aacute;frica, mas, gra&ccedil;as aos contatos que tinha em Cuba, onde a compra e venda de escravos ainda era legalizada, ele manteve a atividade&quot;, disse &agrave; BBC News Brasil a professora Ana L&uacute;cia Ara&uacute;jo, professora da Universidade Howard, nos Estados Unidos e especialista na hist&oacute;ria transnacional da escravid&atilde;o, que escreveu sobre o traficante portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>Assim como o ingl&ecirc;s Colston, depois de fazer fortuna com o com&eacute;rcio de africanos escravizados, Marinho tamb&eacute;m passou a fazer investimentos em propriedades, empr&eacute;stimos de dinheiro a juros a outros comerciantes e at&eacute; a governos locais &#8211; algo comum aos homens ricos da &eacute;poca.<\/p>\n<p>&quot;Mas a partir da d&eacute;cada de 50, quando o tr&aacute;fico acaba, h&aacute; uma mudan&ccedil;a na opini&atilde;o p&uacute;blica no Brasil, e o tr&aacute;fico de escravos passa a ser entendido como algo nefasto. Ent&atilde;o a partir da d&eacute;cada de 1860, esses traficantes, que at&eacute; ent&atilde;o carregavam uma certa aura de hero&iacute;smo, passam a ser criticados&quot;, conta Carlos da Silva Jr.<\/p>\n<p>&quot;E durante a d&eacute;cada de 1860, esses traficantes, que at&eacute; ent&atilde;o carregavam uma certa aura de hero&iacute;smo, passam a ser criticados&quot;, conta Carlos da Silva Jr.<\/p>\n<p>&quot;E durante a d&eacute;cada de 1860, Pereira Marinho come&ccedil;a a se defender n&atilde;o s&oacute; dessas cr&iacute;ticas, como tamb&eacute;m das acusa&ccedil;&otilde;es de que era agiota e emprestava dinheiro a juros exorbitantes. &Eacute; a&iacute; que ele redobra as suas a&ccedil;&otilde;es de caridade&quot;.<\/p>\n<p>\n&quot;Consci&ecirc;ncia tranquila&quot;<br \/>\nA trajet&oacute;ria de homens como Marinho e Colston tamb&eacute;m se encontra a&iacute;. Em Bristol e em Londres, o comerciante ingl&ecirc;s fundou asilos e escolas, al&eacute;m de fazer doa&ccedil;&otilde;es significativas para igrejas e hospitais.<\/p>\n<p>No Brasil, Marinho ajudou v&iacute;timas de trag&eacute;dias e da seca em Estados do Nordeste, apoiou obras de caridade, fez reparos em bairros de Salvador e tornou-se patrono da Santa Casa de Miseric&oacute;rdia, uma das mais tradicionais institui&ccedil;&otilde;es vindas de Portugal, que tamb&eacute;m fornecia cr&eacute;dito a comerciantes e conferia status aos poderosos da &eacute;poca.<\/p>\n<p>&quot;O elemento em comum entre todos esses traficantes &eacute; que eles eram filantropos. Durante a vida eles se empenhavam em construir a imagem de pessoas caridosas. E conseguiram, porque vemos que, no decorrer dos anos, a participa&ccedil;&atilde;o deles no com&eacute;rcio de humanos foi sendo apagada justamente para ficar a mem&oacute;ria das benfeitorias&quot;, diz Ana L&uacute;cia Ara&uacute;jo.<\/p>\n<p>&quot;Vemos isso at&eacute; nas est&aacute;tuas, tanto de Marinho quanto de Colston. Ambos s&atilde;o apresentados acompanhados de crian&ccedil;as, ou em postura benevolente. Isso &eacute; diferente do que ocorre nos EUA, por exemplo, onde a maioria dos monumentos aos ex-donos de escravos projetam mais poder, s&atilde;o mais viris. Eles aparecem cavalgando, empunhando armas&quot;.<\/p>\n<p>Pereira Marinho morreu em 1887, deixando uma fortuna de 8 mil contos de r&eacute;is, o equivalente a cerca de R$ 1 bilh&atilde;o em valores atuais, e 227 im&oacute;veis em seu nome somente na capital baiana. Em seu testamento, ele dizia ter &quot;a consci&ecirc;ncia tranquila de passar para a vida eterna sem nunca haver concorrido para o mal de meu semelhante&quot;.<\/p>\n<p>O Di&aacute;rio da Bahia, um jornal importante da &eacute;poca, escreveu ap&oacute;s sua morte, em 1887, que &quot;n&atilde;o sabemos, nem desejamos saber, que em nada isto nos interessa, se o Sr. Conde de Pereira Marinho prejudicou algu&eacute;m no correr de sua exist&ecirc;ncia&quot;.<\/p>\n<p>Pereira Marinho morreu em 1887, deixando uma fortuna de 8 mil contos de r&eacute;is, o equivalente a cerca de R$ 1 bilh&atilde;o em valores atuais, e 227 im&oacute;veis em seu nome somente na capital baiana. Em seu testamento, ele dizia ter &quot;a consci&ecirc;ncia tranquila de passar para a vida eterna sem nunca haver concorrido para o mal de meu semelhante&quot;. O Di&aacute;rio da Bahia, um jornal importante da &eacute;poca, escreveu ap&oacute;s sua morte, em 1887, que &quot;n&atilde;o sabemos, nem desejamos saber, que em nada isto nos interessa, se o Sr. Conde de Pereira Marinho prejudicou algu&eacute;m no correr de sua exist&ecirc;ncia&quot;.<\/p>\n<p>\nSil&ecirc;ncio sobre a escravid&atilde;o<br \/>\nAs revela&ccedil;&otilde;es sobre a biografia de Pereira Marinho por historiadores t&ecirc;m causado debates nas redes sociais, algo que, eles admitem, era pouco comum at&eacute; o momento.<\/p>\n<p>&quot;Volta e meia essa discuss&atilde;o das est&aacute;tuas aparece entre os historiadores, mas n&atilde;o me lembro de discuss&otilde;es que apare&ccedil;am na comunidade. Mas &eacute; importante saber como n&oacute;s historiadores podemos ajudar nesse processo. Acho que podemos ajudar a fomentar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e a questionar essas homenagens&quot;, diz Carlos da Silva Jr.<\/p>\n<p>No caso de Bristol, o debate sobre as homenagens a Edward Colston, que d&aacute; nome a escolas, ruas e a uma casa de shows, come&ccedil;ou nos anos 1990, quando tr&ecirc;s historiadoras fizeram um itiner&aacute;rio dos locais importantes para a hist&oacute;ria do tr&aacute;fico negreiro na cidade, segundo Ana L&uacute;cia Ara&uacute;jo.<\/p>\n<p>&quot;No caso da Bahia, e do Brasil em geral, o impressionante &eacute; que esse debate sobre monumentos homenageando escravistas praticamente n&atilde;o acontece. J&aacute; vimos algumas pequenas iniciativas, mas a fal&aacute;cia da democracia racial apagou dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos toda a mem&oacute;ria das atrocidades cometidas contra a popula&ccedil;&atilde;o afrodescendente&quot;, diz a professora.<\/p>\n<p>&quot;O sil&ecirc;ncio reina sobre a quest&atilde;o da escravid&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; refer&ecirc;ncia aos escravocratas, e mais recentemente, come&ccedil;aram a colocar est&aacute;tuas homenageando figuras importantes para a popula&ccedil;&atilde;o negra em Salvador e no Rio de Janeiro. Mesmo assim n&atilde;o se marca os pelourinhos, n&atilde;o se recupera a mem&oacute;ria de outros espa&ccedil;os importantes para a hist&oacute;ria da escravid&atilde;o, para que a gente possa saber onde as coisas aconteceram&quot;.<\/p>\n<p>De acordo com Moreno Pacheco, a ideia de mapear os monumentos problem&aacute;ticos da cidade j&aacute; se expandiu para incluir tamb&eacute;m os locais de hist&oacute;ria da escravid&atilde;o que n&atilde;o possuem nenhum tipo de marca&ccedil;&atilde;o, como antigos mercados de pessoas, e homenagens que n&atilde;o s&atilde;o est&aacute;tuas.<\/p>\n<p>A pra&ccedil;a diante da igreja do Nosso Senhor do Bonfim, uma das mais importantes da cidade tanto para cat&oacute;licos quanto para adeptos do candombl&eacute;, por causa do sincretismo religioso, tamb&eacute;m homenageia um dos principais traficante de escravizados do s&eacute;culo 18, Teod&oacute;sio Rodrigues de Farias.<\/p>\n<p>Foi Farias, na verdade, que levou a imagem do Senhor do Bonfim para a cidade, pagando uma promessa que fez durante uma dificuldade na travessia do Atl&acirc;ntico. Ele est&aacute; enterrado dentro da igreja, onde tampouco h&aacute; refer&ecirc;ncia ao tr&aacute;fico de africanos.<\/p>\n<p>\nO que fazer com os monumentos?<br \/>\nA derrubada da est&aacute;tua de Colston &#8211; que j&aacute; foi retirada do porto de Bristol e ser&aacute; exibida em um museu &#8211; provocou uma onda de questionamento sobre monumentos na Gr&atilde;-Bretanha e em outros pa&iacute;ses da Europa, al&eacute;m dos Estados Unidos, na &uacute;ltima semana.<\/p>\n<p>Em Londres, a est&aacute;tua do not&oacute;rio traficante de africanos Robert Milligan foi removida da &aacute;rea externa do Museu das Docas. O prefeito da capital brit&acirc;nica, Sadiq Khan, anunciou que outras homenagens na cidade ser&atilde;o revistas.<\/p>\n<p>Em Oxford, ativistas pedem que a est&aacute;tua do imperialista Cecil Rhodes, na Universidade de Oxford, seja removida, por ser o que chamam de s&iacute;mbolo do racismo e do colonialismo brit&acirc;nicos. A vice-reitora da universidade, Louise Richardson, disse &agrave; BBC News que n&atilde;o se deve &quot;esconder a hist&oacute;ria&quot; e, sim, &quot;aprender com ela&quot;.<\/p>\n<p>Em Antu&eacute;rpia, na B&eacute;lgica, uma est&aacute;tua do rei Leopoldo 2&ordm;, respons&aacute;vel pelo regime colonial brutal que matou milh&otilde;es no Congo, foi retirada de uma pra&ccedil;a ap&oacute;s protestos de ativistas, e dever&aacute; ser colocada em um museu.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, est&aacute;tuas do navegador Crist&oacute;v&atilde;o Colombo, creditado pelo descobrimento da Am&eacute;rica no s&eacute;culo 15, mas considerado por povos nativos um dos principais respons&aacute;veis por seu genoc&iacute;dio, foram decapitadas em ao menos tr&ecirc;s cidades.<\/p>\n<p>No Brasil, ao menos nas redes sociais, os coment&aacute;rios se voltaram novamente para homenagens aos bandeirantes em S&atilde;o Paulo, como a est&aacute;tua de Borba Gato e o Monumento &agrave;s Bandeiras. E, mais recentemente, para a est&aacute;tua de Pereira Marinho em Salvador.<\/p>\n<p>O debate, em todos os pa&iacute;ses, op&otilde;e os adeptos &agrave; revis&atilde;o das homenagens &agrave;queles que defendem que as est&aacute;tuas devem ser mantidas intactas, na condi&ccedil;&atilde;o de patrim&ocirc;nio p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Em seu perfil no Twitter, o escritor Laurentino Gomes, autor de um livro recente sobre a escravid&atilde;o no Brasil, defende que os monumentos &quot;devem ser preservados como objetos de estudo e reflex&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Os historiadores baianos, no entanto, acreditam que a revis&atilde;o dos monumentos tamb&eacute;m deve ser considerada como parte da hist&oacute;ria &#8211; a que estamos escrevendo neste momento..<\/p>\n<p>&quot;A hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; est&aacute;tica, &eacute; din&acirc;mica. Ent&atilde;o, a eventual retirada desses monumentos tamb&eacute;m &eacute; um fen&ocirc;meno hist&oacute;rico que vai ser estudado no futuro&quot;, diz Carlos Silva Jr.<\/p>\n<p>&quot;Al&eacute;m disso, n&atilde;o &eacute; preciso necessariamente remover todas as est&aacute;tuas. &Eacute; poss&iacute;vel encontrar solu&ccedil;&otilde;es diferentes para homenagens e monumentos diferentes. Seja adicionar explica&ccedil;&otilde;es nas placas, seja coloc&aacute;-las em museus. Mas &eacute; importante falarmos sobre isso. Devemos continuar celebrando essas pessoas como antes?&quot;.<\/p>\n<p>\nOs celebrados e os esquecidos<br \/>\nPara Pachecho, da Ufba, as est&aacute;tuas tamb&eacute;m continuam funcionando como objetos de mem&oacute;ria coletiva quando s&atilde;o retiradas do lugar de homenagens. Apenas &quot;n&atilde;o do jeito que a pessoa que as patrocinou pretendia&quot;.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o &eacute; um processo f&aacute;cil pra uma cidade lidar com o fato de que seu pr&oacute;prio passado est&aacute; sendo passado em revis&atilde;o, porque d&aacute; &agrave;s pessoas uma sensa&ccedil;&atilde;o de caos e instabilidade. Mas diante do impasse do que fazer com um monumento, mant&ecirc;-lo tal como ele &eacute;, celebrat&oacute;rio de uma figura que causou opress&atilde;o a grupos de pessoas, &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica tanto quanto retir&aacute;-los&quot;, afirma.<\/p>\n<p>&quot;Eu entendo a preocupa&ccedil;&atilde;o com manter esses monumentos como reflex&atilde;o sobre o passado. Por isso que sa&iacute;das como a de levar a est&aacute;tua para um museu s&atilde;o interessantes. Ali &eacute; poss&iacute;vel mostrar a hist&oacute;ria completa daquela figura e refletir sobre sua mem&oacute;ria. Se tiv&eacute;ssemos um museu da escravid&atilde;o na Bahia, por exemplo, que at&eacute; hoje n&atilde;o existe, a est&aacute;tua de Pereira Coutinho poderia estar l&aacute;, mostrando inclusive que a cidade j&aacute; celebrou essa pessoa, e um dia escolheu deixar de celebrar&quot;.<\/p>\n<p>Questionada sobre seu posicionamento em rela&ccedil;&atilde;o a esta e outras homenagens a traficantes de escravos em Salvador, a Funda&ccedil;&atilde;o Greg&oacute;rio de Matos &#8211; &oacute;rg&atilde;o vinculado &agrave; prefeitura que &eacute; respons&aacute;vel pela preserva&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico da cidade e lista a est&aacute;tua de Pereira Marinho entre seus monumentos &#8211; n&atilde;o respondeu at&eacute; a publica&ccedil;&atilde;o da reportagem.<\/p>\n<p>Em nota &agrave; BBC News Brasil, a Santa Casa de Miseric&oacute;rdia da Bahia afirmou que &quot;os fatos que marcaram a biografia do Conde Pereira Marinho s&atilde;o de conhecimento da institui&ccedil;&atilde;o e s&atilde;o apresentados a todos que buscam conhecer a hist&oacute;ria dos que fizeram parte da Santa Casa como eles s&atilde;o: pontos da historicidade de uma &eacute;poca&quot;.<\/p>\n<p>De acordo com Carlos da Silva Jr., a Santa Casa costumava enterrar os africanos que chegavam mortos nos navios ou morriam j&aacute; como propriedade de senhores baianos.<\/p>\n<p>&quot;O enterro era feito num bangu&ecirc;, sepultura barata, de indigente, que era dada a pessoas que n&atilde;o tinham dinheiro para ser enterradas em outros espa&ccedil;os ou que eram escravizadas. Os donos normalmente teriam que pagar por isso. E muitos, para n&atilde;o gastarem, deixavam os escravos na rua ou na porta da Santa Casa, para que eles fizessem o enterro&quot;, conta.<\/p>\n<p>A maior parte dos cativos foram enterrados na regi&atilde;o central da cidade. O local n&atilde;o est&aacute; marcado, nem foi determinado com absoluta certeza pelos historiadores, mas fica em um dos terrenos pr&oacute;ximos ao edif&iacute;cio atual da Santa Casa e do Hospital Santa Izabel, onde se encontra a est&aacute;tua do traficante respons&aacute;vel por trazer muitos dos africanos enterrados pela institui&ccedil;&atilde;o e imortalizado como seu principal benfeitor.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\"><strong>Leia a &iacute;ntegra da nota da Santa Casa de Miseric&oacute;rdia da Bahia:<\/strong><\/p>\n<p>&quot;<\/span><em><span style=\"font-family: Verdana;\">A Santa Casa de Miseric&oacute;rdia da Bahia, entidade filantr&oacute;pica privada, informa que, como institui&ccedil;&atilde;o secular datada de 1549, esteve inserida nos mais diversos contextos da sociedade baiana ao longo do tempo. Os fatos que marcaram a biografia do Conde Pereira Marinho s&atilde;o de conhecimento da institui&ccedil;&atilde;o e s&atilde;o apresentados a todos que buscam conhecer a hist&oacute;ria dos que fizeram parte da Santa Casa como eles s&atilde;o: pontos da historicidade de uma &eacute;poca.<\/p>\n<p>A est&aacute;tua localizada em frente ao pr&eacute;dio do Hospital Santa Izabel foi apresentada no mesmo dia em que o complexo hospitalar foi fundado, no ano de 1893, como consta na ata de inaugura&ccedil;&atilde;o do pr&eacute;dio. Este documento est&aacute; dispon&iacute;vel para consulta e comp&otilde;e o acervo do Centro de Mem&oacute;ria Jorge Calmon, arquivo hist&oacute;rico que re&uacute;ne registros do s&eacute;culo XVII at&eacute; os dias atuais, visitado por diversos pesquisadores nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>O Conde Pereira Marinho foi respons&aacute;vel pela doa&ccedil;&atilde;o que possibilitou a retomada da constru&ccedil;&atilde;o do Hospital Santa Izabel ap&oacute;s 40 anos de obras interrompidas por falta de recursos financeiros. Por essa raz&atilde;o, em 1893, a est&aacute;tua foi erguida.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O monumento, classificado como patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico e obra art&iacute;stica, comp&otilde;e o conjunto arquitet&ocirc;nico do Hospital Santa Izabel, reconhecido e tombado pelo Instituto do Patrim&ocirc;nio Art&iacute;stico e Cultural do Estado da Bahia(<span style=\"font-family: Arial;\">IPAC<\/span>).<\/p>\n<p>A Santa Casa de Miseric&oacute;rdia da Bahia reitera que, como institui&ccedil;&atilde;o com quase 500 anos de hist&oacute;ria, atua com o compromisso de promover o vi&eacute;s educativo e o car&aacute;ter reflexivo dos fatos hist&oacute;ricos, seja atrav&eacute;s do Museu da Miseric&oacute;rdia, do Centro de Mem&oacute;ria Jorge Calmon, do Circuito Cultural do Cemit&eacute;rio Campo Santo ou dos monumentos que comp&otilde;em o patrim&ocirc;nio cultural da entidade<\/span><\/span><\/em><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Verdana;\">&quot;.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempo de leitura: 17 minutosQuando manifestantes antirracistas retiraram a est&aacute;tua do brit&acirc;nico Edward Colston, no domingo(07Junho2020), e a jogaram no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[9],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8767"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8767\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obeabadosertao.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}