Papa chega a Roma após viagem ao Reino Unido

Em 19/09/2010

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Cidade do Vaticano(Roma) – O papa Bento XVI chegou neste domingo(19Setembro2010) à noite a Roma, após uma viagem histórica de quatro dias ao Reino Unido. O avião do Papa aterrissou por volta das 17h00m(de Brasília) no aeroporto militar de Roma-Ciampino.

A viagem de Bento XVI a Edimburgo, Glasgow, Londres e Birmingham, organizada em ocasião da beatificação do cardeal John Henry Newman(1801-1890), que se converteu ao Catolicismo em 1845, foi a primeira visita de Estado de um papa ao Reino Unido.

Bento XVI "falou para um país de seis milhões de católicos", mas foi "ouvido por 60 milhões de cidadãos", considerou no aeroporto o primeiro-ministro David Cameron. "Foram quatro dias incrivelmente emocionantes para o nosso país", afirmou.


No Palácio de Holyroodhouse: Principe Phillip e a Rainha Elizabeth com o Papa Bento XVI.

João Paulo II foi em 1982 o primeiro Sumo Pontífice a visitar esse país depois do rompimento do rei Henrique VIII com Roma e o Catolicismo, em 1534, que levou à criação da Igreja Anglicana. Mas aquela foi apenas uma "visita pastoral", segundo o Vaticano.


Humildade
Depois de quatro dias de visita, o papa despediu-se do Reino Unido assinalando que os casos de padres pedófilos "minaram seriamente a credibilidade moral dos responsáveis" da Igreja e lembrou aos bispos que a melhor maneira de reparar os "pecados" é se aproximar "com humildade" das vítimas e dar-lhes o apoio necessário.

O último ato de sua visita ao Reino Unido foi um encontro com os prelados da Inglaterra, Escócia e Gales, antes de dar mais um passo para tentar solucionar os casos de sacerdotes pedófilos, que sacudiram a consciência dos fiéis e as bases de muitas estruturas eclesiásticas. "O vergonhoso abuso de crianças e jovens por parte de sacerdotes e religiosos atingiu gravemente a credibilidade moral dos pastores da Igreja. Falei em muitas ocasiões das profundas feridas que causa esse tipo de comportamento, em primeiro lugar nas vítimas, mas também nas relações de confiança entre os sacerdotes e o povo, entre os sacerdotes e seus bispos e entre as autoridades da Igreja e as pessoas em geral", disse o papa.

Reconheceu que nos últimos tempos os bispos adotaram "sérias medidas" para solucionar essa situação e garantir que as crianças estejam "protegidas contra os danos" e para enfrentar de forma "adequada e transparente" às denúncias que se apresentem. Mas ressaltou os "efeitos devastadores" desses abusos e a necessidade de proporcionar um correto apoio às vítimas.


"Que melhor maneira poderia haver de reparar estes pecados que se aproximar, com um espírito humilde de compaixão, às crianças que seguem sofrendo abusos em outros lugares?" questionou o papa. O Pontífice acrescentou que se queremos ser pastores cristãos eficazes, "devemos levar uma vida com a maior integridade, humildade e santidade".

Bento XVI voltou a referir-se à crise financeira no mundo e denunciou que o espectro do desemprego projeta sua sombra sobre as vidas de muitas pessoas e que o custo a longo prazo das práticas de investimentos "imprudentes" está sendo muito evidente. O encontro com os prelados colocou fim a uma visita que o levou a Edimburgo, Glasgow, Londres e Birminghan e que se viu denegrida pela detenção de seis homens, em sua maioria argelinos, em Londres em relação com uma possível ameaça terrorista contra Bento XVI aproveitando sua estadia. Os suspeitos foram postos em liberdade sem acusações.


A viagem começou em Edimburgo, onde o papa reuniu-se com a rainha Elizabeth II, mas já no avião que o levava a partir de Roma admitiu pela primeira vez que a Igreja em seu conjunto, os bispos e o Vaticano, não foram suficientemente "atentos, velozes e decididos" na maneira de enfrentar os abusos sexuais a menores e tomar as medidas necessárias. Em Londres disse que se sentia "envergonhado e humilhado" e reuniu-se com cinco vítimas britânicas, com as quais se "comoveu" escutando suas histórias e expressou sua profunda dor com seus sofrimentos.

Enquanto mantinha encontro com as vítimas, milhares de pessoas se manifestaram no centro de Londres contra ele, acusando-o de ultraconservador e de ter escondido os abusos. Durante a viagem denunciou o "secularismo agressivo" que "não aprecia ou sequer tolera" os valores tradicionais e que se tenta relegar a religião da esfera pública.

A visita teve um marcado caráter ecumênico, como a reunião que manteve com o arcebispo de Canterbury e primaz da Igreja Anglicana, Rowan Williams, diante de quem reiterou o compromisso de Roma em prol da unidade dos cristãos, mas ressaltou que a Igreja "está ligada a ser inclusiva, embora nunca às custas da verdade cristã". O encontro aconteceu um ano depois de o Vaticano abrir suas portas aos fiéis tradicionalistas anglicanos contrários às medidas demais vanguardistas da Comunhão Anglicana, como a ordenação de mulheres e de homossexuais como bispos.


Durante esta viagem, considerado "um êxito" pelo Vaticano, viveu um momento histórico: pela primeira vez um papa pisava no mais importante templo do anglicanismo, a londrina Abadia de Westminster. Segundo o Vaticano, 600 mil pessoas acolheram ao papa nos diferentes atos, sendo o maior deles o de Hyde Park de Londres, ao qual assistiram, segundo o porta-voz Federico Lombardi mais de 200 mil pessoas.

O motivo da visita foi a beatificação em Birmingham do cardeal John Henry Newman(1801-1890), um converso do anglicanismo, considerado um dos "pais espirituais" do Concílio Vaticano II, reconhecido intelectual que influenciou na formação do papa Ratzinger.


Beatificação
Diante de 55 mil fieis, o Papa Bento XVI beatificou no domingo(19Setembro2010) o cardeal John Henry Newman, um intelectual anglicano convertido ao catolicismo, e recordou os heróis que combateram o nazismo, no quarto e último dia de sua visita de Estado ao Reino Unido.



A fina chuva intermitente não desanimou os fieis que se reuniram desde as primeiras horas do dia no parque Cofton, na periferia de Birmingham, para assistir à primeira beatificação do Papa desde sua eleição em 2005 com cartazes com dizeres como "Papa: estamos contigo 100%".

Apesar de Bento XVI(ao contrário de seu antecessor, João Paulo II) não presidir esse tipo de missa, ele abriu uma exceção no caso de Newman(1801-1890) por tratar-se de um dos pensadores cristãos mais importantes do século XIX e também um dos principais convertidos procedentes do anglicanismo.


O eclesiástico anglicano, que buscava um cristianismo autêntico, se converteu aos 44 anos ao catolicismo, que considerava mais fiel às raízes originais da Igreja, o que provocou uma grande comoção em sua época.

Considerado um dos pais espirituais do Concílio Vaticano II, que se inspirou em suas ideias sobre a relação entre a fé e a razão, sua obra conseguiu uma grande reconhecimento no mundo católico, e em 1879 foi nomeado cardeal pelo Papa Leão XIII. "Suas intuições sobre a relação entre a fé e a razão, sobre o lugar vital da religião revelada na sociedade civilizada, e sobre a necessidade de uma educação esmerada e ampla foram de grande importância (…) Hoje também seguem inspirando e iluminando muitos em todo o mundo", afirmou o papa em sua homilia.


Os fieis também puderam ver no altar o diácono americano cuja cura repentina de uma enfermidade grave depois de rezar ao cardeal foi considerada um milagre, o que proporcionou a beatificação. Jack Sullivan fez uma leitura do evangelho.

Em sua homilia, pronunciada no dia em que se comemora o 70º aniversario da batalha da Inglaterra entre as forças aéreas britânicas e alemãs, o Papa prestou um tributo aos britânicos que "sacrificaram suas vidas lutando contra a demoníaca ideologia nazista".

"Para mim, que estive entre as pessoas que viveram os obscuros dias do regime nazista na Alemanha, é profundamente comovente estar com vocês nesta ocasião, e poder recordar tantos cidadãos britânicos que sacrificaram suas vidas, resistindo com paixão às forças desta ideologia demoníaca", disse o Papa. "Penso em particular na vizinha Coventry, que sofreu duríssimos bombardeios, com inúmeras vítimas em novembro de 1940", acrescentou o Papa alemão em sua homilia.


"Setenta anos depois, recordamos com vergonha e horror o espantoso preço de morte e destruição que a guerra traz consigo, e renovamos nossa determinação de trabalhar pela paz e a reconciliação", afirmou o Papa durante a missa de beatificação do cardeal John Henry Newman.

Em sua chegada na quinta-feira ao Reino Unido para uma visita de Estado que termina neste domingo, Bento XVI já prestara homenagem ao combate contra a "tirania nazista" em um discurso no Palácio Holyroodhouse de Edimburgo ante a rainha Elizabeth II, que viveu os bombardeios alemães contra Londres.

Depois da missa, o Papa visitou o Oratório de Birmingham, onde inaugurou uma nova capela restaurada em homenagem ao novo beato. Depois almoçou com bispos da Inglaterra e Gales.

Nesse encontro, voltou a referir-se aos abusos sexuais cometidos por padres pedófilos contra menores, o tema dominante de sua visita, dizendo que essa questão "mina gravemente a credibilidade dos responsáveis da Igreja".

Os outros grandes temas desta visita que o Vaticano classificou de "êxito espiritual porque milhares de pessoas ouviram a mensagem do Papa", foram as relações ecumênicas, especialmente com a Igreja Anglicana, e a luta contra o que o Papa classificou de "secularização agressiva".



Por último, na presença do primeiro-ministro britânico David Cameron, pronunciou seu último discurso no aeroporto da capital, antes de tomar o avião de volta a Roma.

Bento XVI agradeceu aos britânicos a "calorosa acolhida" que lhe foi dispensada e disse esperar que as reuniões que manteve durante sua visita "contribuam para confirmar e fortalecer as excelentes relações entre a Santa Sé e o Reino Unido, especialmente na cooperação para o desenvolvimento internacional, o cuidado com o meio ambiente e a construção de uma sociedade civil com um renovado sentido de valores compartilhados e metas comuns".


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