Em 19/11/2013
Há 25 anos, Jornal do Brasil teve a chance de publicar a entrevista que poderia ter salvado a vida de Chico Mendes; o "interesse" pela publicação do material, porém, só aconteceu após o assassinato do ativista.
* Reportagem de Edilson Martins.
A pouco mais de um mês de completar 25 anos do assassinato de Chico Mendes, ocorrido no dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri (AC), recebo do jornalista Altino Machado, do Blog da Amazônia, a mensagem a seguir, que contém relevante depoimento e indagação:
"No dia 18 de dezembro de 1988, numa banca de revistas, em Rio Branco(AC), encontrei o líder sindical e ecologista Chico Mendes(1944-1988) pela última vez. Estava triste ao constatar que o Jornal do Brasil não havia publicado naquele domingo uma entrevista dele. Quatro dias depois, em Xapuri, Chico Mendes foi assassinado. Qual é a história daquela que ficou conhecida como a última entrevista do seringueiro, concedida a você, Edilson Martins?.
Vamos lá, aos idos de dezembro. Chico Mendes telefona dizendo encontrar-se em São Paulo, e que agora as ameaças sinalizavam, de verdade, sua morte. Corriam os dias de dezembro de 1988; se esse é o ano da Nova Constituição, da greve na CSN, no Rio, ainda temos que suportar as sobras da ditadura militar, José Sarney, presidindo o país. Na lata, respondi: “Dá um tempo, vou tentar um depoimento teu no Jornal do Brasil”. Naqueles anos, o JB era um dos grandes jornais, ainda, do país, apesar da crise financeira comendo pelas bordas.
Vou até a Av. Brasil, procuro o jornalista Zuenir Ventura, que editava um Caderno Especial, e falo da morte anunciada. Ele reage, dizendo não saber de quem se tratava – em verdade ninguém sabia, e combinamos de eu fazer a entrevista. Ligo para Chico, peço que venha correndo ao Rio, e até argumentei: “Mano velho, com esta entrevista eles vão ter que adiar, pelo menos uns dois ou três meses, tua morte”.
Ao chegar ao Rio, começamos a gravar, e dois dias depois o texto estava concluído. Vou ao JB, e entrego, em mãos, a entrevista ao Zuenir. À noite, corria talvez o dia 7, ou 8 de dezembro, convido-o para comer no Lamas. Ele baixa a cabeça, como se estivesse emburrado; “Tô sem grana, e você gastando dinheiro comigo”.
Fomos ao Lamas, bar boêmio do Rio, até hoje, mas àquela época reunia a nata dos profissionais que “fechavam” a primeira página dos grandes jornais. Adentramos, falei com muitos “coleguinhas”, fui a algumas mesas com o Chico ao meu lado, e ninguém, sequer ninguém, perguntou quem era aquele caipira, roupas fora do padrão, gordinho, quase um capiau. Terminamos por dividir um PF(prato feito).
No sábado, corro às bancas em busca do Caderno Especial, e vejo que a entrevista não saíra. Entro em pânico. Procuro o Zuenir e sou informado que se encontrava em Vitória, no Espírito Santo, mas que segunda-feira retornaria ao jornal. Na segunda, na redação, ele me diz que a matéria não saíra porque eu estava trazendo mais um cara que politizava demais a questão ambiental. Essa era a opinião do jornal.
– Quem?
– Os dois diretores: o Marcos Sá Correa e o Roberto Pompeu. Não tem “gancho”. Ninguém sabe quem é ele.
– Bom, o jornal vai esperar o cara ser assassinado? A morte dele está anunciada.
No dia 22 de dezembro, à noite, o jornalista Elson Martins(não é meu parente) me telefona de Rio Branco(AC), ligação péssima, e informa que o Chico havia sido “atocaiado” dentro de casa, e certamente morrera. A atriz Cássia Kiss, que morava em minha casa, entra em pânico. Ela o conhecera e, curiosamente, o que o país queria saber, naqueles dias, era quem matara Odete Roitman, numa novela da Globo. Havia sido a própria Cássia.
Já pela manhã recebo os parabéns do JB, por ter dado, via minha entrevista, um “furo” com a matéria, de lauda e meia, sobre a morte. Quase os mandei a puta que os pariu, e procurei o jornalista Fernando Gabeira. Conto a história, e ele conhecia muito bem o Chico Mendes. Gabeira diz que vai entrar em contato com a Folha de S. Paulo, e falar com Otávio Frias Filho. Podíamos, acreditava o Gabeira, publicar na íntegra o último depoimento do Chico.
Como tudo na vida, houve um senão. Datilografara a entrevista, nove laudas, na minha valente Olivetti 22, sem carbono, portanto, sem cópias, já que os existentes não mais prestavam. Deixo Santa Teresa, onde morava, e na redação do JB sou cumprimentado, recuso, lembrando a não publicação da entrevista no Caderno Especial. O que queria eram as laudas, e então comecei a “blefar”. Precisava “blefar”.
– Vim comunicar, embora tenha as cópias das laudas – não tinha -, que preciso dos originais, já que vou publicá-la, na íntegra, na Folha de S. Paulo.
O clima não era nada sereno, e um deles replica:
– Nada disso, vamos dar uma página inteira aqui no JB, não mais no Caderno Especial, mas no 1º Caderno, na íntegra.
Sugeri, lembro-me bem, uma página ímpar, o que foi feito, e o Roberto Pompeu foi mais longe: "Vamos fazer um pequeno editorial, na primeira página. Preciso de um texto seu com subsídios". Era a primeira vez que se fazia um editorial na primeira página.
Feito o acordo, o JB publica na íntegra o testamento, Chico Mendes passa a ser Chico Mendes, o país fica perplexo, e neste último depoimento nomina os mandantes, assusta o mundo, dado as razões de sua morte: defesa intransigente do meio ambiente – e o jornal ganha mais uns 12 anos de vida digna.

Que fique claro um detalhe: no lugar de Marcos Sá Correa e Roberto Pompeu, eu, se editor fosse, não teria agido de forma diferente. Chico Mendes(Foto acima) não tinha “gancho” para ganhar uma página inteira politizando, como de fato estava fazendo, a questão ambiental.
O que surpreende, e aí já não é mais um detalhe, é a performance do Zuenir. Desloca-se para o Acre, por convencimento meu, inclusive num voo comigo, onde lá nunca antes estivera, produz uma série sobre a morte de Chico Mendes, por sinal, boa, posto que ajudado pelo jornalista Elson Martins, que não tem nenhum parentesco comigo, repito, e a partir daí passa a ser o Torquemada dos assassinos e mandantes.
Zuenir ganha um Prêmio Esso, certamente com muito lobby, escreve um livro, adota o garoto Genésio, uma das testemunhas juradas de morte, que hoje ninguém sabe aonde se encontra, e vira amigo de infância, tendo jogado peteca, com certeza, nas barrancas do rio Acre, com Chico Mendes. Certamente, toda essa proeza, foi o seu maior feito jornalístico, mestre Zuza.
A entrevista
Confira abaixo a entrevista prestada pelo líder sindical e ecologista Chico Mendes(1944-1988), concedida ao repórter Edilson Martins e só publicada após a sua morte.
No dia 9 de dezembro, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri(AC), Francisco Mendes Filho, o Chico Mendes, integrante do Conselho Nacional de Seringueiros e conhecido internacionalmente por sua luta ecológica, esteve no Rio para participar de uma mesa redonda intitulada Amazônia a Ferro e Fogo. Nessa ocasião ele concedeu uma entrevista ao JORNAL DO BRASIL, na qual prenunciava a emboscada que iria sofrer 13 dias depois, na sua fazenda em Xapuri, onde tombou alvejado por uma espingarda.
Em seu depoimento, Chico Mendes denuncia que os irmãos Darly e Alvarinho Alves o ameaçaram de morte e mandaram assassinar mais de 30 trabalhadores rurais. Naquele mesmo dia, o deputado estadual João Carlos Batista, do Partido Socialista Brasileiro, declarou na tribuna da Assembléia Legislativa do Pará que estava sendo ameaçado de morte. Ele era advogado de posseiros e foi assassinado na noite do mesmo dia – era o sexto de uma lista de oito marcados para morrer.
Seu depoimento póstumo saiu na edição do dia 18 do JORNAL DO BRASIL. As duas histórias guardam semelhanças brutais. Nesta página, publicamos a íntegra da entrevista de Chico Mendes.
JORNAL DO BRASIL – Como está a situação no Acre?
CHICO MENDES – Minha segurança ultimamente foi reforçada, no Acre, por decisão do governador Flaviano de Melo. Ele sabe que um assassinato vai complicar a situação do estado. Não que a morte de um seringueiro no Acre seja novidade. Mas é que o nosso movimento tornou-se conhecido mundialmente. Principalmente junto às autoridades do Banco Mundial(Bird), do Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID) e do Congresso americano. Ora, não se bate de frente com essas entidades. Hoje minha vida passa pelos policiais da PM. Tenho tido uma relação amigável com meus seguranças.
JORNAL DO BRASIL – Quem mais o ameaça Publicamente?
CHICO MENDES – Agora são dois fazendeiros em Xapuri(AC), os proprietários da Fazenda Paraná, Darly Alves e Alvarinho Alves. São irmãos. Estão inclusive foragidos da Justiça, com mandado de prisão decretado. Desde 1973, esses dois fazendeiros tinham ordem de prisão no Paraná. Nós invocamos essa ordem de prisão para o Acre, e confiamos, infelizmente, no superintendente da Polícia Federal, Mauro Spósito, que reteve durante 16 dias essa ordem de prisão. Segundo o próprio juiz da Comarca de Xapuri, tal retenção não foi por acaso. Houve uma expectativa inicial: quem teria avisado os dois foragidos da Justiça? Hoje estamos absolutamente convencidos, por informações vazadas do próprio DPF, que esses dois fazendeiros são amigos do delegado da Policia Federal no Acre, Mauro Spósito. Os irmãos já mandaram assassinar mais de 30 trabalhadores.
JORNAL DO BRASIL – Cite algum desses crimes.
CHICO MENDES – Na noite de 27 de maio deste ano eles mandaram atacar o nosso acampamento de trabalhadores, em Xapuri, onde dois seringueiros foram baleados: Raimundo Pereira e Manuel Custódio. Foram brutalmente baleados. Logo em seguida, no dia 18 de junho, Ivair Ginho foi morto numa emboscada com espingarda calibre 12, dois tiros, e mais oito de revólver. Foi assassinado por grupos a serviço desses dois fazendeiros. Logo em seguida, em agosto, tudo neste ano apenas, um outro trabalhador, José Ribeiro, em Xapuri, foi também assassinado por pistoleiros.
JORNAL DO BRASIL – Qual a razão dessas mortes?
CHICO MENDES – São assassinos profissionais, frios e covardes. Depois, com tal atuação, eles estabelecem o pânico. Criam o clima de intimidação, apavoram a população.
JORNAL DO BRASIL – Qual é a ameaça dos dois irmãos fazendeiros?
CHICO MENDES – Só se entregariam à Justiça após verem o meu cadáver. Duvido que se entreguem. A PM do Acre sabe da existência de pistoleiros no meu encalço, a serviço deles.
JORNAL DO BRASIL – Onde o perigo é maior?
CHICO MENDES – Nos aeroportos. É porque desconfio que vão me pegar. Agora em São Paulo tive o acompanhamento de policiais civis e PMs do estado. Ao chegar no Rio, estou também sob a cobertura de amigos e do pessoal da Campanha Nacional de Defesa pelo Desenvolvimento da Amazônia(CNDDA).
JORNAL DO BRASIL – Ao retornar, agora, ao Acre, sua vida corre mais perigo ainda?
CHICO MENDES – Eu tenho consciência de que todas as lideranças populares, nesses últimos dez anos – advogados, padres, pastores, líderes sindicais – todos eles foram mortos. Mesmo com a garantia de vida do governo. Não precisa nem citar exemplos, pois eles estão vivos na memória de todos. Tenho esperança de continuar vivo. É vivo que a gente fortalece essa luta. De parte do governo do estado não tenho o que temer. Pelo contrário. Agora, por outro lado, eu estou diante de dois inimigos poderosos: a União Democrática Ruralista(UDR) e a Polícia Federal no Acre.
JORNAL DO BRASIL – A Polícia Federal o acusa agora de dedo-duro. Mas a Imprensa de Rio Branco já denunciou essa velha manobra, como herança dos anos ditatoriais.
CHICO MENDES – É uma campanha de calúnia, na tentativa de me desmoralizar na região. Mas vamos supor que de fato eu seja um informante da Superintendência da Policia Federal no Acre. Ora, o doutor superintendente estaria cometendo um desserviço ao queimar um quadro tão conhecido. Mas não é por aí. Estou sob dois fogos. Na data em que ele me acusa de informante, em 1975, eu estava sendo submetido a duros interrogatórios, sob o comando desse policial, em Xapuri.
JORNAL DO BRASIL – Xapuri, município acreano, é a frente mais avançada, em toda a Amazônia, na defesa intransigente da floresta? É a frente Política mais conseqüente desse resistência?
CHICO MENDES – Poderíamos dizer que é a Frente Verde da Amazônia. É o único lugar, única região, em toda a Amazônia, em que, neste ano de 1988, os fazendeiros só conseguiram desmatar 50 hectares de selva. A previsão era desmatar 10 mil hectares de floresta primária, mata virgem.
JORNAL DO BRASIL – Um pouco mais que três parques nacionais da Floresta da Tijuca juntos. A floresta tomba, e vocês também. Quantos companheiros vocês perderam?
CHICO MENDES – No Acre, seis companheiros. De liderança expressiva perdemos o Wilson Pinheiro, em 1980. Essa luta contra os desmatamentos criminosos começa em 1975. É uma luta com mais de 13 anos. O marco dessa luta é o dia 10 de março de 1986. É aí que tem início o primeiro empate assumido, num seringal em Brasiléia, no Acre.
JORNAL DO BRASIL – O que é um empate?
CHICO MENDES – É uma forma de luta que nós encontramos para impedir o desmatamento. É forma pacífica de resistência. No início, não soubemos agir. Começavam os desmatamentos e nós, ingenuamente, íamos à Justiça, ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal(IBDF), e aos jornais denunciar. Não adiantava nada. No empate, a comunidade se organiza, sob a liderança do sindicato, e, em mutirão, se dirige à área que será desmatada pelos pecuaristas. A gente se coloca diante dos peões e jagunços, com nossa famílias, mulheres, crianças e velhos, e pedimos para eles não desmatarem e se retirarem do local. Eles, como trabalhadores, a gente explica, estão também com o futuro ameaçado. E esse discurso, emocionado sempre gera resultados. Até porque quem desmata é o peão simples, indefeso e inconsciente.
JORNAL DO BRASIL – Mas Isso fura às vezes?
CHICO MENDES – Sim, o fazendeiro recorre a uma ordem judicial e, com apoio das forças policiais, executa o desmatamento. Espero que com a nova Constituição esse absurdo não prossiga. Mesmo assim, nosso movimento continuava crescendo, sem prejuízo de grandes recuos. Já em 1980, esse movimento dos seringueiros, movimento de empate, se generalizava por toda a região. Até aquele momento, a luta era liderada pelo Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia(AC). Era um homem comprometido com a defesa da floresta e muito corajoso.
JORNAL DO BRASIL – Quer dizer que essa luta começa em Brasiléia?
CHICO MENDES – Começa em Brasiléia. Só que, em 1980, o Wilson Pinheiro foi assassinado dentro do sindicato, pelas costas, quando assistia a um programa de televisão. Foi assassinado a mando de fazendeiros. Houve uma reunião dos fazendeiros, em julho de 1980, em que ficou acertado que uma forma de barrar o movimento dos seringueiros era matar as principais lideranças. Na noite de 21 de julho de 1980, Wilson foi fuzilado na sede de seu próprio sindicato. A nossa luta sofre um grande abalo. Mas logo depois ressurge em Xapuri, que fica a menos de 100 quilômetros de Brasiléia. E Xapuri, via sindicato, começa a comandar todas as nossas operações de resistência, e vale dizer resistência pacifica, mas resistência. Quando conduzimos nossas famílias para o empate, deixamos transparente que o movimento é pacífico. Ninguém vai pra guerra levando mulher e filhos.
JORNAL DO BRASIL – Qual o balanço dessa resistência em defesa da floresta?
CHICO MENDES – Bom, de março de 1976 até agora já realizamos 45 empates, sofremos 30 derrotas e tivemos 15 vitórias.
JORNAL DO BRASIL – O empate tem que objetivo?
CHICO MENDES – Criar um fato político. Mais que isso: desapropriar a área e finalmente criar a Reserva Extrativista.
JORNAL DO BRASIL – A Reserva Extrativista é uma criação de vocês?
CHICO MENDES – Veja bem: até 1984, a gente realizava os empates, mas não tínhamos muita clareza do que queríamos. Sabíamos que o desmatamento era o nosso fim e de todos os seres vivos existentes na selva. Mas a coisa terminava aí. As pessoas falavam: "Vocês querem impedir o desmatamento e transformar a Amazônia em santuário? Intocável?". Estava aí o impasse. A resposta veio através da Reserva Extrativista. Vamos utilizar a selva de forma racional, sem destruí-la. Os seringueiros, os índios, os ribeirinhos há mais de 100 anos ocupam a floresta. Nunca a ameaçaram. Quem a ameaça são os projetos agropecuários, os grandes madeireiros e as hidrelétricas com suas inundações criminosas. Nas reservas extrativistas, nós vamos comercializar e industrializar os produtos que a floresta generosamente nos concede. Temos na floresta o abacaba, o patoá, o açaí, o buriti, a pupunha, o babaçu, o tucumã, a copaíba, o mel de abelha, que nem os cientistas conhecem. E tudo isso pode ser exportado, comercializado. A universidade precisa vir acompanhar a Reserva Extrativista. Estamos abertos a ela. A Reserva Extrativista é a única saída para a Amazônia não desaparecer. E mais: essa reserva não terá proprietários. Ele vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o usufruto, não a propriedade.
JORNAL DO BRASIL – Quem aprovou a idéia primeiro?
CHICO MENDES – Por incrível que pareça foi o exterior. Lamentamos que isso tenha acontecido. Em 1987, em janeiro, recebemos uma comissão da ONU, em Xapuri. Viram nossa luta. Já em março desse mesmo ano fui convidado a participar de uma reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID), em Miami. Por que minha presença ao lado desses banqueiros? Por que são esses bancos que com seus financiamentos estão destruindo a Amazônia. Durante esse encontro fui entrevistado seguidas vezes pela imprensa internacional. Não fui procurado por um único jornalista brasileiro. Logo depois, fui ao Congresso e falei para os congressistas americanos.
JORNAL DO BRASIL – Que denúncias foram feitas?
CHICO MENDES – Os projetos financiados pelos bancos internacionais na Amazônia. Esses projetos estão destruindo todas as formas de vida na última reserva verde que sobrou na Terra.
JORNAL DO BRASIL – O governo de Rondônia parece não gostar de sua atuação, que teria ajudado a suspender o financiamento de um projeto de US$ 200 milhões por parte do Banco Mundial(Bird). É verdade?
CHICO MENDES – O governo de Rondônia anunciou um projeto com mais de 1 milhão de hectares para criação de reservas extrativistas. Tudo armação. Denunciamos. Mandei uma carta para o Bird, alertando-o sobre a importância do projeto. A partir disso, o empréstimo foi sustado.
JORNAL DO BRASIL – Rondônia foi violentada?
CHICO MENDES – A maior vítima de todos esses projetos de desenvolvimento. Nada similar foi feito no mundo em termos de destruição em tempo tão curto. Terras férteis transformadas em pastos, mata queimada, seringueiros expulsos. Um apocalipse.
JORNAL DO BRASIL – Quantas reservas extrativistas já foram criadas no Acre?
CHICO MENDES – O governador já aprovou o São Luís do Remanso, 40 mil hectares; Santa Quitéria, em Brasiléia, com 40 mil hectares, que já está se encaminhando; e o Seringal Cachoeira, com 25 mil hectares, em Xapuri, na base da luta, do empate, da resistência; e Macauã, em Sena Madureira, com mais de 50 mil hectares. Nós não ignoramos que o governador Flaviano de Melo também recebe muita pressão dos fazendeiros.
JORNAL DO BRASIL – O governador Flaviano de Melo já foi ameaçado de seqüestro pelos madeireiros.
CHICO MENDES – Ele tentou regulamentar o desmatamento. Mexeu em casa de marimbondo. Hoje há um corredor de fumaça que vai de Mato Grosso do Sul até o Acre. Isto apenas nos meses de agosto e setembro. Este ano, em quase 50 anos de Amazônia, nunca vi tantas queimadas. Estão incendiando tudo. Todos os aeroportos, durante o ano passado, ficaram interditados durante uma semana. Este ano, essa interdição foi além de um mês. A Amazônia, vista de cima, nesse período, é fumaça só. E como dói.
JORNAL DO BRASIL – Você já ganhou duas comendas?
CHICO MENDES – O Prêmio Global 500, da ONU, e uma medalha da Sociedade para um Mundo Melhor, em Nova Iorque. Além de uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos.
JORNAL DO BRASIL – Com prêmios e reconhecimento internacional, você então seria um cadáver delicado?
CHICO MENDES – Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero viver.
* Jornal do Brasil, 25/12/1988.
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Depoimentos no dia do velório e cenas do enterro de Chico Mendes
Chico Mendes em Palestra no Departamento de Geografia da USP
Chico Mendes – A voz da Amazônia(Rede Manchete/1989)
* Edilson Martins é jornalista e escritor acreano radicado no Rio, trabalhou e ainda colabora na grande imprensa brasileira. É autor de oito livros: “Nossos Índios, Nossos Mortos”; “Amazônia, a Última Fronteira”; “Nós, do Araguaia”; “Makaloba” e “Chico Mendes”, entre outros.
Dirigiu o documentário “Chico Mendes”, entre outros, onde é feita a narrativa de sua morte, tendo sido, na primeira década dos anos 1990, um dos mais exibidos no mundo. Já ganhou o maior prêmio televisivo do país, o “Wladimir Herzog”.
No ano passado, lançou a série televisiva “AmazôniAdentro”, uma revisitação à região nos últimos 120 anos. Tem novo livro pronto, “A Viagem de Bediai”, e trabalha na produção de uma grande série para a TV sobre a região amazônica.
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