Indiciamento de Cristina Kirchner acirra divisão Argentina

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Em 15/02/2015

Tempo de leitura: 7 minutos


Em ano eleitoral, presidente argentina tenta impor agenda de apelo à ‘alegria’ enquanto oposição pede esclarecimentos sobre morte de promotor. O indiciamento nesta sexta-feira da presidente Cristina Kirchner, acusada de ter tentado acobertar supostos envolvidos em um atentado contra a entidade judaica AMIA, em 1994, é apenas o primeiro passo de um longo processo, segundo juristas ouvidos.



Buenos Aires(Argentina) – A morte de um promotor que havia acusado na semana passada a presidente Cristina Kirchner de querer por um fim à investigação do atentado em 1994 que matou 85 pessoas em uma centro judaico em Buenos Aires provocou comoção e polêmica na Argentina.

O “nós contra eles”, a “alegria contra o silêncio”, o “amor contra o ódio” e outros recursos usados pela presidente Cristina Kirchner para distanciar seu grupo da oposição poucas vezes tiveram tanto sentido como neste carnaval, em que a Argentina atravessa uma polarização extrema. Analistas vêem neste início de ano a 3ª grande onda de divisão pela qual passa o país nos 12 anos de Kirchnerismo. "Ela comprou as brigas erradas", diz estudioso da era Kirchner.

O feriado foi antecedido pelo indiciamento da presidente e será sucedido por uma marcha que reunirá uma multidão para homenagear Alberto Nisman, o promotor encontrado morto no dia 18, quatro dias depois de denunciá-la. Analistas veem neste início de ano a terceira grande onda de divisão pela qual passa o país nos 12 anos de kirchnerismo. A primeira ocorreu em 2008, com a chamada crise no campo, quando Cristina enfrentou ruralistas e teve uma queda de 18 pontos na popularidade em abril e maio, segundo o instituto Poliarquía.

A segunda começou com a aprovação da Lei de Mídia, em 2009, que determina o desmembramento de grandes empresas de comunicação, e levou a um confronto aberto com o Grupo Clarín, que tem conseguido barrar a imposição da divisão com liminares.

Mesmo entre especialistas favoráveis ao kirchnerismo, não está claro se desta vez Cristina acertou ao comprar a briga contra a marcha pró-Nisman, o que levou a um choque com o Judiciário e o Ministério Público. “O governo se desorientou diante da morte trágica do promotor. Considerou logo de cara a marcha a partir da ótica ‘amigo-inimigo’ e não conseguiu neutralizar. É óbvio que será uma manifestação da oposição que teria sido controlada se o governismo tivesse ficado à frente”, disse ao Estado o sociólogo e consultor político Ricardo Rouvier.

Segundo ele, o movimento criado por Néstor e continuado por Cristina tem o confronto em sua essência e isso o manteve no poder durante 12 anos. “A tática é eficaz. Mas é verdade que o kirchnerismo pretende sobreviver depois de 2015 e não se apoia em um partido dinâmico e moderno. Ou seja, não tem futuro, ou seu destino está ligado à atual presidente”, afirma.

Indiciada por acobertar altos funcionários iranianos que segundo a Justiça argentina tiveram envolvimento em um atentado em 1994 contra a Associação Mutual Israelita-Argentina(Amia), matando 85 pessoas, Cristina recolheu-se no sul do país. Pelo Facebook, propôs deixar o “ódio” para “eles”. No discurso de ontem em El Calafate, evitou mencionar o indiciamento, a morte de Nisman ou a marcha prevista.

Para o sociólogo Damián Pierbattisti, da Universidade de Buenos Aires, o indiciamento de Cristina tem a ver com a eleição de outubro. “Essa ação tem um caráter tático. Serve para desgastar a figura de Cristina, que tem uma ampla imagem positiva, e retomar o poder, seja com eleições ou pela alteração da ordem constitucional. A diferença agora é que essas forças econômicas o fazem com anuência de parte importante do Judiciário, que não é eleito pelo povo”, afirma Pierbattisti.

Rouvier discorda que a denúncia de golpismo judiciário, repetida por membros do governo e intelectuais kirchneristas como Pierbattisti, deva ser interpretada literalmente. “Não há perigo de crise de governabilidade. Mas o governo exibe esse perigo como real. O kirchnerismo põe em tensão o sistema normativo e isso produz choque com o Judiciário, que por sua vez ataca o governo”, diz.

Em bloco
Parte da estratégia de Cristina de se “apropriar” da alegria é levada ao pé da letra pelo kirchnerismo. Em uma esquina de Boedo, bairro de classe média baixa em Buenos Aires, um bloco de carnaval ensaia exaltando os feitos do “Pinguim” – apelido de Néstor Kirchner, proveniente do sul do país. O presidente do Dandys de Boedo, Gonzalo Battipaglia, de 34 anos, recebe um salário do governo para ser o “coordenador nacional do programa de fortalecimento das expressões do carnaval argentino”. O cargo é uma indicação, admite ele. “Temos discussões internas saudáveis. Quando fazemos campanha na rua, alguns nos apoiam, outros nos ignoram, outros dizem que vão nos matar. É normal”.

Durante a crise de 2001, Battipaglia era um dos jovens que atiravam coquetéis molotov contra bancos. “La Cámpora me permitiu fazer política sem esconder o rosto e atirar bombas. Temos 20 integrantes kirchneristas no bloco, mas ninguém precisa ser para participar”, afirma, salientando entretanto, que, da marcha por Nisman, duvida que alguém participe.


A vítima
Natalio Alberto Nisman(Buenos Aires, 5 de dezembro de 1963 – Buenos Aires, 19 de janeiro de 2015) foi um procurador federal argentino, conhecido por investigar o atentado na Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, que matou 85 pessoas. Este ato foi o maior ataque terrorista da América Latina. Em 19 de janeiro de 2015, Nisman foi encontrado morto em sua casa.

Nascido em uma família judaica em Buenos Aires, Alberto Nisman começou sua carreira como procurador em Morón, Buenos Aires. Ele era casado com Sandra Arroyo Salgado julgar, e tinha duas filhas.

Ele trabalhou nas investigações do atentado terrorista à Associação Mutual Israelita Argentina(AMIA), ocorrido em 1994. Em 25 de outubro de 2006, Nisman acusou formalmente o governo do Irã de dirigir o ataque a AMIA e a milícia Hezbollah de executá-la. De acordo com a acusação, a Argentina tinha sido alvo de Irã após a decisão de Buenos Aires de suspender um contrato de transferência de tecnologia nuclear para Teerã. Em novembro de 2007, na sequência da acusação, a Interpol publicou os nomes de seis indivíduos oficialmente acusados no atentado terrorista e entraram na lista de procurados da Interpol: Imad Fayez Moughnieh, Ali Fallahijan, Mohsen Rabbani, Ahmad Reza Asghari, Ahmad Vahidi e Mohsen Rezaee.

Nisman pediu, em 2008, a detenção do ex-presidente Carlos Menem e o juiz Juan José Galeano. A WikiLeaks revelou que diplomatas dos EUA consideraram que Nisman podia ter feito isso de forma a estar em situação regular com a presidente Cristina Fernández de Kirchner.


Alberto Nisman foi encontrado morto com um tiro em seu apartamento no bairro de Puerto Madero, em Buenos Aires.


Nisman rejeitou, em 2013, memorando de entendimento assinado com o Irã para investigação do caso. Dois anos mais tarde, ele acusou a presidente Cristina Kirchner, o chanceler Héctor Timerman e outros políticos de encobrir os suspeitos iranianos no caso.

Nisman vivia sob constantes ameaças contra a sua vida desde que começou sua investigação e em 19 de janeiro de 2015, foi encontrado morto em sua casa em Buenos Aires, poucas horas antes de apresentar suas conclusões ao Congresso.


Tags: Internacional

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