Em 01/03/2009
Porto Alegre(RS) – A expedição de 57 dias do Projeto-Aventura Desafiando o Rio-Mar, feita de caiaque pelo professor do Colégio Militar de Porto Alegre, coronel Hiram Reis e Silva, no rio Solimões, na Amazônia, terminou neste mês e virará um livro "escrito a mil mãos". O material será trabalhado em sala de aula com os estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. "A idéia é entregar um livro não acabado para eles trabalharem", disse Hiram.
"Por enquanto, escrevo o meu livro. A idéia é que depois os alunos façam o trabalho, que peguem os relatos que fiz durante a viagem e ampliem. Têm muitas citações de cientistas e muita coisa que foi contada, como lendas, tradições e história", afirmou.
As peculiaridades locais, a análise da história, da flora, da fauna, da hidrografia e dos povos da floresta foram captados pelo professor durante a descida do rio Solimões de caiaque. O meio de transporte foi utilizado para baratear o custo da expedição, para não utilizar combustíveis poluentes, para não afugentar a fauna e para facilitar o acesso aos locais mais remotos. Também participram da aventura o professor de educação física Romeu Chala, que substituiu o coronel André Flávio Teixeira, por motivos de doença na família em novembro, três semanas antes da viagem, e Fabiola Arruda de Verga, formada em turismo e que trabalha com antropologia. Ela acompanhou a dupla até 12 de dezembro.
Euclides de Cunha
Durante o percurso, o coronel Hiram disse que se ateve à literatura usando Euclides da Cunha. "Além de ser excelente escritor, conhecia a região. Eu o utilizei até para valorizar o nosso escritor, que é bastante esquecido." O professor disse que muitas vezes conseguiu verificar in loco as descrições feitas pelo escritor. "Nos relatos, ele fala que o Solimões é tributário dele mesmo. A água do Solimões vai até o (rio) Japurá e retorna ao Solimões pelo próprio Japurá".
"O (rio) Aranapu é um Paraná (canal entre dois rio) que une o Solimões ao (rio) Japurá e que nos últimos 18 anos, apenas em duas oportunidades, o Solimões recebeu águas do Japurá por intermédio do Aranapu. A sabedoria de Euclides da Cunha se torna patente mais uma vez. O rio-menino é afluente dele mesmo ao lançar suas águas no Japurá através do Aranapu e recebê-las, mais adiante, de volta". "…ou vai, noutros pontos, em furos inopinados, afluir nos seus grandes afluentes, tornando-se ilogicamente tributário dos próprios tributários…", escreveu Euclides.
Para Hiram, "o imortal Euclides da Cunha é único e sua visão holística serve de exemplo às novas gerações". "A visão holística de Euclides é caracterizada pelos seus comentários de cunho antropológico, aspectos do relevo, solo, fauna, flora, clima da região e sobre o caráter divagante do rio Purus, baseados na concepção do "ciclo vital". Durante a viagem ao Purus teve o cuidado de recolher amostras de fósseis e rochas, posteriormente encaminhadas ao Museu do Pará (atualmente Emílio Goeldi)."
Aulas
O material será aproveitado em sala de aula. "As disciplinas de geografia, história estão muito fixadas. Na parte da biologia, trouxemos plantas. Estamos verificando o princípio ativo delas. Esse trabalho está sendo feito por uma professora do Colégio Militar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também um glossário que trouxemos será aproveitado na disciplina de português", explicou.
A experiência também será divulgada por meio de palestras em universidades, lojas maçônicas e outras instituições.
Soberania
Além de um trabalho multidisciplinar e interdisciplinar, o objetivo do professor é lutar pela soberania da Amazônia. "Não tenho partido político. Meu partido é soberania da Amazônia, mas o último presidente que realmente se importou com isso foi o(José) Sarney. A partir disso, só tivemos empreguismo. O projeto todo é educativo, mas também queremos levantar a questão da soberania".
Em quase nove anos, o coronel Hiram disse que já proferiu mais de 320 palestras para chamar a atenção sobre a importância estratégica da Amazônia em termos de recursos naturais, minerais e da biodiversidade. Segundo o professor, nessas palestras, ele alerta sobre a história da articulação dos interesses internacionais.
"Há necessidade de se romper esta doentia letargia da população brasileira diante do fato em si e da atitude do governo brasileiro que chega as raias do crime de prevaricação. Procuramos em todos nossos pronunciamentos despertar a todos que nos ouvem, principalmente na juventude brasileira, para que, com conhecimento de causa, exerçam uma pressão cidadã, no sentido de reverter o maior esbulho do patrimônio brasileiro, atualmente em andamento", afirmou.
Expedição
A viagem durou 57 dias. A média de deslocamento fluvial foi de 5 horas e a pesquisa variava de acordo com o local. Nas pequenas comunidades, o grupo parava apenas para pernoitar. O contato com os ribeirinhos e com os povos indígenas propiciou a obtenção de relatos, curiosidades, lendas e outras peculiaridades. "Nas cidades, pelo seu valor histórico e pessoas capazes de repassar informações interessantes, chegamos a parar de três a quatro dias. A única exceção foi a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá em que permanecemos alojados em um ‘flutuante’ durante quatro dias. Além de acompanhar os trabalhos dos pesquisadores, tive a oportunidade de observar e fotografar a flora e a fauna que compõem a vegetação de várzea", disse o coronel.
Material fotográfico
A idéia inicial do professor Hiram era voltar na bagagem com 1,6 mil fotografias. Mas ele superou a previsão e voltou com 4.350 fotos. Estamos pretendendo fazer uma exposição mostrando o dia a dia das comunidades, as paisagens maravilhosas, o artesanato,a fauna e as carinhas de crianças índias e não índias das três etnias que visitamos.
Críticas e elogios
A falta de apoio de instituições públicas ou privadas ao projeto foi a maior crítica feita pelo coronel. "O projeto só foi possível graças à colaboração de familiares, amigos e parceiros pela causa da Amazônia brasileira". Já a hospitalidade amazônica mereceu o maior elogio do professor. "A saudade da amazônica hospitalidade já começa a nos afetar. Guardaremos eternamente na lembrança a imagem e o carinho de cada um que, de alguma maneira, marcou nossas vidas nessa expedição pelo rio-máximo", disse.
Continuação do projeto
O professor Hiram disse que o projeto não está finalizado, pois ainda não atingiu o mar, como o próprio nome dele aponta – Projeto-Aventura Desafiando o Rio-Mar.
"Mas achamos que antes de atingi-lo devemos percorrer um dos três maiores rios do planeta, o rio Negro. A grande motivação é poder palmilhar os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo – o Mariuá com 700 ilhas e o das Anavilhanas com 400 ilhas -, o Parque Nacional do Jaú, maior parque do mundo em floresta tropical úmida contínua e intacta, as florestas submersas, admirar o contraste das milhares de praias de areia branca, constituídas basicamente de grãos de quartzo, com as águas pretas do rio, o boto vermelho e a flora exuberante e diversificada proporcionam um cenário de fantástica beleza".
Para essa empreitada, Hiram contará com o coronel Teixeira. A data da descida dependerá, principalmente, da Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial(Depa) e de recursos financeiros. "O apoio da Depa seria no sentido considerar o projeto de interesse do Sistema Colégio Militar, tendo em vista que o melhor período para realização do mesmo seria o mês de julho. Um levantamento inicial aponta, como já temos alguns itens adquiridos para o Projeto Solimões, que seriam necessários R$ 30 mil para esta nova expedição", disse Hiram.
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