Em 19/05/2009
Os presidentes-executivos e representantes dos acionistas da Sadia e da Perdigão assinaram na noite desta segunda-feira(18Maio2009) o contrato de fusão das duas empresas, criando a gigante da indústria alimentícia Brasil Foods(BRF).
A nova empresa nasce com os apostos de décima maior empresa de alimentos das Américas, segunda maior indústria alimentícia do Brasil(atrás da JBS Friboi), maior produtora e exportadora mundial de carnes processadas e terceira maior exportadora brasileira(atrás de Petrobras e Vale). Com 119 mil funcionários, 42 fábricas e mais de R$ 10 bilhões em exportações por ano, a gigante surge com um faturamento anual líquido de R$ 22 bilhões.
A fusão foi concretizada depois de meses de negociações. A elaboração final do contrato foi marcada por muitas idas e vindas entre advogados e executivos de bancos de investimentos envolvidos no acordo.
Nesta terça(19Maio2009), os presidentes dos conselhos da Sadia, Luiz Fernando Furlan, e da Perdigão Nildemar Secches – que na segunda jantavam em um restaurante em São Paulo enquanto o contrato era assinado -, devem anunciar o negócio oficialmente e esclarecer dúvidas de analistas de mercado e jornalistas.
Também nesta terça, a fusão deve ser comunicada à CVM(Comissão de Valores Mobiliários) – órgão fiscalizador do mercado acionário -, que deve analisar se a operação foi realizada de acordo com a regulamentação. O Cade(Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão de defesa da concorrência, também precisa aprovar o negócio. Até lá, a estrutura das companhias continua funcionando de maneira independente.
Nova "Sadia-Perdigão" vai evocar orgulho nacional e perfil exportador
A Brasil Foods, empresa resultante da fusão da Sadia com a Perdigão, pretende usar as melhores práticas de comunicação adotadas na criação da InBev e do Itaú/Unibanco.
Do mesmo jeito que o ator Antônio Fagundes anunciou aos brasileiros o surgimento "da maior cervejaria do mundo", com a fusão entre AmBev e Interbrew, a atriz Marieta Severo foi convocada para mostrar como a nova companhia será mais uma empresa nacional forte no exterior e para evocar o orgulho de ser brasileiro.
Do mesmo jeito que Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles, principais acionistas do Itaú e do Unibanco, dividiram o palco e responderam em conjunto às perguntas sobre o novo banco, Luiz Fernando Furlan e Nildemar Secches, presidentes do conselho de Sadia e Perdigão, o farão sobre a Brasil Foods.
Até mesmo Lequetreque, o frango-mascote da Sadia, foi chamado para abraçar o coração símbolo da Perdigão num dos filmes, mostrando finalmente o enlace ensaiado e ameaçado há anos, que criará a empresa de R$ 22 bilhões de faturamento anual.
Com a estratégia de comunicação montada, filmes gravados e hotel para a conferência de imprensa reservado para as 09h30m da quinta-feira(14maio2009), o anúncio foi adiado "por questão de vírgulas" nas participações acionárias, diz um executivo.
Isso porque a parte mais difícil do acordo é foi a um consenso sobre a participação dos atuais controladores na nova empresa, que será diluída, mas representará parte de uma companhia maior. Assim, qualquer casa decimal significou muita diferença financeira para os acionistas.
Na avaliação dos executivos, todas as oscilações possíveis dos papéis de Sadia e Perdigão, por conta da fusão, já aconteceram desde o anúncio da retomada das negociações, em abril. Assim, não deve haver a preocupação em fazer o anúncio antes ou depois do fechamento do mercado.
Ontem, as ações da Perdigão caíram 1,56%. As da Sadia com direito a voto tiveram baixa de 1,59%, e as sem direito a voto, de 4,53%. Após a fusão ser aprovada pelo Cade(Conselho Administrativo de Defesa Econômica), a ideia é converter os papéis das duas empresas em ações da Brasil Foods, negociadas no Novo Mercado.
Outra definição é que a sede da nova companhia será em Itajaí(SC). Nem em Videira, onde a Perdigão começou, nem em Concórdia, onde Attilio Fontana fundou a Sadia.
O nome da empresa que surge com a união, Brasil Foods, foi criado por Sadia e Perdigão em 2001. Naquele ano, as duas empresas de alimentos lançaram a BRF International Foods, associação destinada à exportação de frangos para Europa oriental, Ásia, Oriente Médio e África.
Especialistas em marketing estudam agora dois logotipos, como BR Foods e BRF/Brasil Foods – sendo Brasil grafado em português, com "s".
Uma estratégia já definida é que as empresas irão usar a marca Sadia como avalista dos produtos da empresa. Segundo um executivo, é o mesmo artifício usado pela Nestlé, que adota a marca-mãe como garantia de qualidade. Outro item considerado como benefício na fusão é o uso da eficiência do modelo de gestão da Perdigão na Brasil Foods. A conta é que será unida a eficiência da Perdigão com a tradição da Sadia.
Além disso, não será necessário sequer usar apelos para obter a aprovação da opinião pública, como na criação da AmBev, dizem os especialistas. Enquanto a AmBev nasceu gigante apenas no mercado interno, a Brasil Foods já surge como grande exportadora e apela ao sentimento de orgulho e brasilidade do consumidor.
Benefícios e problemas
Produtores de suínos e aves estabelecidos em Santa Catarina, Goiás e no Paraná que trabalham integrados à Sadia e à Perdigão, assim como entidades de classe de criadores, acham que a união entre as duas empresas poderá trazer benefícios e problemas.
Na opinião dos produtores a fusão da Sadia com a Perdigão elevará a competitividade no mercado internacional da nova empresa que surgir e que isso poderá gerar mais ganhos aos produtores integrados. Há, no entanto, preocupação com a perda do poder de barganha no momento de negociar preços e custos com a nova gigante do setor de alimentos que vai surgir após o negócio.
No sistema integrado, o criador oferece mão de obra, e a indústria fornece animais, ração e assistência técnica para criação e engorda de aves e suínos.
Em Santa Catarina, berço das duas companhias e onde surgiu o modelo de integração no país, tanto a Faesc(Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina) como a ACCS(Associação Catarinense de Criadores de Suínos) afirmam aprovar a criação da nova empresa.
Segundo José Zeferino Pedrozo, 67, presidente da Faesc, isso não vai alterar em nada a relação entre integrados e indústria. "Mas vai aumentar o poder da empresa no mercado internacional, o que pode refletir em benefícios para o produtor integrado", afirma.
Losivanio Luiz de Lorenzi, 39, vice-presidente da ACCS, concorda. Ele avalia que o aumento de competitividade no mercado internacional acabará por beneficiar o produtor integrado. A ACCS tem 12 mil criadores de suínos filiados em Santa Catarina, sendo que 8.000 produtores estão na ativa. Desses, 80% trabalham em sistema de integração com as cinco indústrias catarinenses.
A Sadia e a Perdigão, hoje, respondem por 50% dessa integração. O restante está diluído entre Seara, Pamplona e Aurora, as outras três grandes integradoras do Estado.
Lorenzi, porém, não vislumbra melhorias, a curto prazo, na remuneração dos produtores integrados, já que há quatro anos as indústrias trabalham com preços similares. "Eu torço para que dê certo(a criação da nova empresa) em termos de mercado externo. Mas me preocupo com a perda do poder de barganha do integrado com essa nova gigante do setor", afirma Leoclides Bizonin, 60, vice-presidente técnico da Assuinoeste, entidade que reúne 2.200 produtores de suínos na região de Toledo(oeste do Paraná).
Dos 2.200 associados à Assuinoeste, 90% são integrados à Sadia, que possui na cidade o maior frigorífico de suínos do Brasil, com abate diário de 6.450 animais.
O presidente da Aginterp(Associação dos Granjeiros Integrados à Perdigão), que reúne 350 criadores de suínos e aves em Rio Verde(241 km de Goiânia), Angelo Thomaz Landim Júnior, 38, também está otimista com a aquisição.
No Centro-Oeste, os integrados possuem perfil diferente dos pequenos do Sul. São grandes produtores. Os 350 integrados da Perdigão na região de Rio Verde entregam 400 mil aves/dia e 5.000 suínos/dia para essa indústria. Landim Júnior, por exemplo, trabalha com aves e entrega 270 mil frangos a cada 45 dias.
Sadia nasceu com a aquisição de frigorífico
Prestes a completar 65 anos de atividade, a Sadia nasceu a partir da compra de um pequeno frigorífico no oeste catarinense para se tornar referência em carnes e alimentos industrializados no Brasil e em vários países do mundo.
A empresa foi fundada em 7 de junho de 1944 por Attilio Fontana, com aquisição do frigorífico Concórdia, na cidade de Concórdia, no oeste catarinense. Em 1953, inaugurou a primeira unidade fora do Estado de origem, o Moinho da Lapa, na zona oeste de São Paulo.
Atualmente, tem 17 unidades de produção
Líder nacional de segmentos industrializados, a Sadia tem um portifólio de quase 700 itens no mercado doméstico, que são distribuídos para mais de 300 mil pontos-de-venda. É referência na produção de alimentos derivados de carnes suína, bovina, de frango e de peru, além de massas, margarinas e sobremesas. No mercado externo, para o qual se apresentou nos anos 60, distribui cerca de mil produtos para mais de cem países.
Atualmente, tem escritórios em 11 países: Inglaterra, Alemanha, Emirados Árabes, Rússia, Japão, China, Turquia, Argentina, Uruguai, Chile, Panamá. Desde dezembro de 2007, a empresa também tem uma unidade de produção na Rússia.
A Sadia abriu o capital em 1971 e passou a ser negociada na Nyse (Bolsa de Nova York, na sigla em inglês) em 2001 e na Bolsa de Madri, em 2004.
Apontada como a marca mais valiosa do setor de alimentos brasileiro por quatro vezes(2001, 2003, 2004 e 2005), segundo a consultoria inglesa Interbrand, a Sadia registrou em 2008 o primeiro prejuízo anual de sua história, reflexo de perdas financeiras com operações cambiais e dos impactos da desvalorização do real.
As perdas foram de R$ 2,48 bilhões e não refletiram o desempenho operacional da empresa, que registrou receita anual recorde de R$ 12,2 bilhões, alta de 23% em relação a 2007. O volume total comercializado aumentou 8,3% em 2008, o mercado interno cresceu 12,2% e o mercado externo, 5%.
A Sadia também encerrou o ano de 2008 com o maior volume de investimentos de sua história, na ordem de R$ 1,8 bilhão. "Entre os principais projetos realizados no período estão a construção da primeira unidade no Nordeste(em Vitória do Santo Antão, PE) e de nossa maior fábrica no Brasil, em Lucas do Rio Verde(MT)", informou a empresa em comunicado à época da divulgação do balanço.
Segundo informou no relatório dos resultados de 2008, a empresa foi a 6ª maior exportadora brasileira no período, com vendas superiores a US$ 3 bilhões, segundo a Secex(Secretaria de Comércio Exterior), e é líder em industrializados de carne, frango inteiro e em partes na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Qatar, em Omã e no Bahrein, com mais de 25% de participação de mercado.
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