Tradição centenária de ‘roubar o santo’ nutre esperança de chuva

Em 17/01/2010

Tempo de leitura: 4 minutos


Conceição(PB) – Uma tradição centenária e que se repete há gerações na zona rural de Conceição: “roubar o santo” é uma crendice alimentada pelo sertanejo nordestino como meio para que os Céus derramem suas bênçãos sobre a terra seca.

Em uma região árida e vitimada por uma omissão governamental histórica, não resta outro caminho para o agricultor a não ser o apelo e o apego à fé. Na crença do homem simples do campo, como herança cultural dos seus antepassados, o rapto a São José, o Santo da Chuva, é uma devoção que
trará a graça de um bom inverno.

Furtar o santo da casa de um vizinho e guardá-lo em lugar seguro até o fim da colheita, quando festivamente a imagem é devolvida ao seu legítimo dono, fortalece a esperança do agricultor de que São José não vai abandoná-lo, garantindo a chuva que trará a fartura.


Duas comunidades rurais de Conceição apelaram ao “furto do santo” este ano como última esperança de salvação da lavoura. Em março, mês dedicado a São José, as chuvas diminuíram e veio a preocupação com a possível perda das plantações. Diante desse quadro, duas moradoras do sítio Cabaças do Xavier(Erituza e Maria José) protagonizaram a tradição, que mistura ritual e fé.

No dia 26 de março, elas “raptaram o santo” da casa do agricultor José Piano, morador de uma comunidade vizinha, chamada Saquinho. “Havia uma preocupação muito grande sobre o futuro da lavoura e uma providência deveria ser tomada”, disse Maria José ao radiossonoplasta Anderson Michel, que acompanhou o desfecho da manifestação de caráter religiosopopular.

No mesmo dia do rapto choveu e, a partir daí, a gente tinha certeza que nossas plantações estariam salvas”, completou dona Eretuza. Se o ritual influenciou ou não no clima ninguém sabe, mas o fato é que depois dele, coincidência ou não, as chuvas se intensificaram no município, que registrou o maior inverno dos últimos quatro anos, com um volume de precipitações superior a 935 mm, conforme informações de Michel colhidas na Emater local.

Desfecho festivo
O evento é carregado de simbologias e combinado entre os moradores, mas o dono da casa onde se encontra a imagem não pode ver a saída do santo. Por isso, enquanto algumas pessoas distraem o proprietário, outras encarregam-se de entrar na residência e “seqüestrar São José”, que precisa ser levado de rio abaixo, onde tem os seus pés lavados, simbolizando a abundância d’água, fato comum ao semi-árido em tempo de bom inverno.

Depois da safra, o santo é devolvido ao seu legítimo dono em meio a muitos louvores, orações e agradecimentos pela boa safra. A procissão de resgate ao santo reúne os moradores da comunidade e é motivo de muita alegria.

No último dia quatro, moradores da comunidade Cabaças do Xavier seguiram em procissão até o sítio Saquinho, onde restituíram o santo ao seu devido lugar.

Previsões para 2010
É possível que em 2010 o sertanejo tenha que recorrer novamente a São José. Isso porque, conforme prognóstico definido na I Reunião de Previsão e Análise Climática para o Setor Norte do Nordeste, realizada em Campina Grande entre os dias 15 e 17 de dezembro, pela Aesa(Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba), a tendência é de chuvas variando entre normal e abaixo da média entre janeiro e março de 2010 e temperaturas mais elevadas.

* Transcrita da Edição nº 161(Ano IX – De 09 à 29 de Dezembro de 2009) do Jornal Folha do Vale. O jornal de maior circulação na região do Vale do Piancó, no sertão do Estado da Paraíba.


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