Em 19/10/2012
Para analistas, Copom indica que conta com a crise para conter preços. Tombini votou pelo corte da taxa.
Brasília(DF) – Apesar de enxergar a inflação acima da meta ao longo dos próximos dois anos, o Banco Central(BC) resolveu, na semana passada, cortar os juros e deixar a taxa básica(Selic) no menor patamar da história: 7,25% ao ano.
Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária(Copom), o BC não só mostrou que o ciclo de cortes nos juros acabou, mas também deixou claro que não está disposto a aumentar a taxa básica por um bom período. "É estranho cortar enxergando uma inflação fora da meta no futuro, mas eles falam em balanço de risco, ou seja, contam com a crise para conter a inflação e adiantam que a inflação dará uns repiques", disse o economista do Banco Espírito Santo(BES) Flávio Serrano, para quem o BC já devia ter parado há tempos de cortar os juros.
Uma das premissas para que o cenário de juros estabilizados em 7,25% se concretize é o cumprimento pelo governo da meta cheia de superávit primário, de 3,1% do Produto Interno Bruto(PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país), em 2012, 2013 e até 2014. Mas o caixa está fraco com a arrecadação de impostos.
Nos últimos 12 meses, o superávit primário está em 2,46% do PIB. "Até a torcida do Corinthians já percebeu que a meta de superávit não será cumprida", disse o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central. Para ele, o BC não subirá os juros em 2013 nem em 2014, ano eleitoral. A autoridade monetária, porém, pode mudar de ideia como fez no primeiro semestre, diz ele, quando afirmou que os juros ficariam muito tempo em 9% ao ano e cortou a Selic em seguida.
Na ata divulgada ontem, o Copom diz que "a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta, ainda que de forma não linear".
A decisão do Copom de baixar 0,25 ponto percentual da Selic não foi unânime: foram 5 votos a 3. Pela primeira vez, pelas novas regras de transparência, o BC identificou as opiniões divergentes. Um grupo liderado pelo presidente Alexandre Tombini votou pela redução com o argumento de que há incertezas ante a recuperação da economia e a pressão sobre a inflação vem de choques, não da demanda.
Três diretores discordaram por achar que os cortes feitos desde agosto do ano passado seriam suficientes para impulsionar o crescimento e o crescente consumo do brasileiro pode pesar na alta de preços. "Nos próximos meses, vamos ver um jogo do governo em cima da inflação, com o corte nas tarifas de energia e(controle) no preço da gasolina", afirmou o economista Sérgio Vale, da MB Associados.
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