Inverno não se consolida e gado continua morrendo de fome e de sede

Em 11/03/2013

Tempo de leitura: 5 minutos


Cajazeiras(PB) – A falta de chuvas na região vem agravando a cada dia o quadro desolador que afeta pequenos, médios e até grandes criadores de gado na região.

O gado continua morrendo de fome e sede e a ajuda governamental como distribuição de ração triturada(silagem) e ração de algodão e milho, não tem sido suficiente nem mesmo para atender aos pequenos criadores.

O médio criador Antonio Roberto, residente em Cajazeiras disse que não está contando o número de reses que já morreram em suas duas propriedades, a Fazenda Pau D’arco, no município de Cajazeiras e Mastruz, em Bom Jesus. “Todos os dias morrem duas três”, disse.

O agropecuarista disse que não está mais nem indo até a propriedade, pois dá muita tristeza ver os animais doentes, morrendo de fome e sede. As propriedades contam com quatro açudes, todos secos e um cacimbão, que também está secando. “Não sei mais o que fazer”, lamentou.

Ele disse que as chuvas na região não fizeram água e até o pasto que começa a nascer está sendo devorado pelas lagartas. Antonio Roberto disse que não está indo comprar a ração subsidiada pelo governo, nem pegar a silagem porque a quantidade é insuficiente, e por isso, nem adianta está indo atrás. Ele também disse que não gosta de fazer empréstimo em banco e mantém vinha mantendo suas propriedades com a venda do gado e do leite. Estou alimentando o que resta do rebanho com resíduo do caroço de algodão, comprado no comércio local. Alguns sem qualidade, ao ponto dos animais rejeitarem, mas não tem outro jeito, disse.

O produtor nunca viu uma seca tão grande na região, com efeitos tão devastadores nas propriedades rurais, resultando em prejuízos incalculáveis. Suas propriedades tinham 600 reses e produziam uma média de 250 litros de leite por dia. Hoje, esse número não chega a 70 litros. O saco do resíduo do caroço do algodão, que antes da seca custava 35 reais, hoje está sendo comercializado por 58 reais, lamentou.

O criador também lembrou que ano passado, o inverno já não correspondeu como nos anos anteriores, quando os agropecuaristas estavam tendo todas as condições para manter suas propriedades. Ele também se queixou da dificuldade para encontrar mão de obra, para trabalhar nas propriedades, como vaqueiros. “Mesmo pagando 40, 50 reais a diária, está difícil”, disse ele, que considera a atividade impraticável, principalmente depois dessa grande seca que vai deixar consequências por muito tempo.

José Cavalcante
Nossa reportagem também conversou com o maior criador de Cajazeiras, o empresário José Cavalcante da Silva. Sua situação também não é diferente da dos demais e sem pasto para o gado, a única saída é comprar resíduo e a silagem.

José Cavalcante da Silva - Cajazeiras PBJosé Cavalcante(Foto) tem cerca de 3 mil cabeças de gado em propriedades na Paraíba e no Ceará e disse que também vem gastando muito para manter o rebanho, em 5 mil hectares de terra. Ele disse que está comprando mais de 100 toneladas de silagem(palha de milho ou pés de milho triturados), vindas de Limoeiro do Norte, no Ceará. Se não fosse essa ração, o gado já teria morrido de fome, afirmou. Além disto, a compra do resíduo do caroço do algodão, milho e soja.

No momento em que a reportagem conversava com o criador, ele estava justamente fazendo as contas de 24 mil 640 quilos de ração que havia comprado, mais o frete, importando na quantia de R$ 6 mil e 38 reais.

Zé Cavalcante lembrou que recentemente trocou um veículo Ranger, no valor de 137 mil reais, por ração para o gado e teve que separar os touros para evitar a reprodução nesse momento difícil, além de já ter vendido uns 400 animais para bancar essas despesas.

Cactos e por do sol Sertão Nordestino

O agropecuarista disse em relação ao resíduo subsidiado do governo, só conseguiu comprar 40 sacos de farelo de soja e do caroço do algodão, totalmente insuficientes para manter o rebanho. No seu entendimento, a ajuda só é suficiente mesmo para ajudar quem cria poucos animais.

José Cavalcante disse ainda que está utilizando em suas propriedades 23 homens, de domingo a domingo, para trabalhar na alimentação e cuidados com o rebanho; “A situação é difícil e se não começar logo a chover, vai piorar ainda mais”, disse o criador.

FRASES

“Perdi a conta do número de vacas que morreram em minha propriedade. Nunca vi uma seca tão braba como essa”.

“Não estou mais indo mais à fazenda para não ficar triste vendo o gado morrendo de fome e sede, sem ter o que fazer”. (Antonio Roberto: pequeno criador de Cajazeiras)

“Se não fosse a ração de Limoeiro do Norte, meu gado já teria morrido”.

“A ração distribuída pelo governo só é suficiente para atender quem tem dois ou três animais”.

“Tive que vender parte do rebanho para arcar com as despesas decorrentes da seca”.

Matérias relacionadas

03.12.2012 – Reduz em 80% da produção de mel:
Seca dizima floradas e abelhas abandonam colméias


* Matéria transcrita do Jornal Gazeta do Alto Piranhas(Edição 744). O jornal de maior circulação na região do Alto Sertão da Paraíba.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *