Morre aos 87 anos o escritor Ariano Suassuna

Em 23/07/2014

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Recife(PE) – O escritor e dramaturgo Ariano Vilar Suassuna morreu na tarde desta quarta-feira(23Julho2014), às 17h15m, no Recife, aos 87 anos, de uma parada cardíaca provocada pela hipertensão intracraniana, após sofrer um AVC hemorrágico na segunda-feira(21Julho2014).

Ele foi internado no Real Hospital Português às 20h00m de segunda e foi submetido a uma cirurgia neurológica de emergência. Autor do "Romance d’A Pedra do Reino" e de clássicos do teatro nacional como "O Auto da Compadecida" e "O Santo e a Porca" e imortal da ABL(Academia Brasileira de Letras), ele também sofria de diabetes.

O velório do corpo de Ariano Suassuna será realizado no Palácio Campo das Princesas, no Recife, sede do governo de Pernambuco. A cerimônia será inicialmente restrita a familiares e amigos, sendo aberta ao público depois das 23h30m até as 15h00m de quinta(24Julho2014). O enterro será às 16h00m de quinta-feira, no cemitério Morada da Paz, em Paulista(Grande Recife).

Um dos autores mais populares do Brasil, ele tornou-se mais conhecido nacionalmente desde que, a partir dos anos 1990, passou a rodar o país com suas "aulas-espetáculos", misto de palestra, concerto e espetáculo de dança, em que exibia com graça de palhaço a sua erudição e seu fervor pela cultura brasileira.

Uma de suas últimas aparições públicas foi justamente ao ministrar uma dessas aulas, no dia 16, em Salvador. Ele tinha outra marcada para 5 de agosto, em Curitiba, e viria a São Paulo em outubro.

Nas aulas, frequentemente usava a combinação de terno preto e camisa vermelha, cores do Sport Club do Recife, time do coração. Chamava o traje de ""sport fino". Em dezembro passado,em entrevista o escritor afirmou ter feito "um pacto com Deus" para, apesar dos problemas de saúde, conseguir concluir o primeiro volume do romance monumental em que trabalha há 33 anos e que deverá ter ao todo sete volumes.

Na ocasião, contou que a obra completa se chamará "A Ilumiara"; – o livro de abertura, um romance epistolar, será "O Jumento Sedutor"; e revelou versos que estarão ao final das cartas que encerrarão os capítulos. Suassuna deixa a mulher, Zélia, com quem foi casado por 56 anos, cinco filhos e 15 netos.

Oitavo filho
Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927 em João Pessoa, quando a capital da Paraíba tinha o mesmo nome do Estado. Foi o oitavo dos nove filhos de Rita de Cássia Dantas Vilar e de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna.

Após a morte do pai, assassinado em 1930 por motivos políticos, Suassuna se muda para Taperoá(PB) com a família. É nesta cidade, no norte da Paraíba, que o futuro escritor ouve um desafio de viola e assiste uma peça de mamulengo pela primeira vez. Os dois tipos de manifestação artística vieram a ter grande influência em sua obra.

Em 1942, foi morar no Recife(PE), onde terminou o ensino secundário e começou a cursar Direito. Durante os anos no Ginásio Pernambuco, Suassuna entra em contato com a música erudita e a pintura. Nos anos de colégio, publica o primeiro poema, "Noturno", no "Jornal do Commercio", do Recife.

Teatro
Na faculdade de direito, Suassuna funda, com o escritor e dramaturgo Hermilo Borba(1917-1976), o Teatro do Estudante de Pernambuco. O grupo monta suas peças "As Harpas de Sião"(ou "O Desertor de Princesa"), em 1948 e "Os Homens de Barro", em 1949.

A primeira peça escrita por Suassuna, "Uma Mulher Vestida de Sol", de 1947, foi premiada no ano seguinte. O primeiro "Auto"(peça em estilo medieval) inspirado em literatura de cordel, o "Auto de João da Cruz", é de 1950. O famoso "Auto da Compadecida" foi escrito em 1955. No ano seguinte, torna-se professor de estética na Universidade do Recife(futura UFPE) e larga de vez a advocacia.

Em 1957, Suassuna casou-se com Zélia de Andrade Lima, com quem teve seis filhos: Joaquim, Maria, Manuel, Isabel, Mariana e Ana. No final dos anos 1950, peças do autor como "O Casamento Suspeitoso", "O Santo e a Porca" e "Auto da Compadecida" são encenadas em teatros do Rio e de São Paulo e ganham prêmios importantes, como os das associações paulista e brasileira de críticos teatrais.

Sem deixar a produção literária e as aulas de estética, arte e cultura brasileira, Suassuna se forma em filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco. A busca por uma arte popular nordestina baseada na estética erudita ibérica medieval o levou a criar, nos anos 1970, o Movimento Armorial.

Um dos marcos dessa nova estética foi "O Romance d’A Pedra do Reino", que levou cerca de 12 anos para escrever e foi publicado em 1971, pela editora José Olympio. A obra ganha o prêmio nacional de ficção do Instituto Nacional do Livro no ano seguinte.

Imortal
Em 1990, Suassuna tomou posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 32. Ele também é membro das academias de letras de Pernambuco e da Paraíba.

Suassuna sempre esteve envolvido com a política pública cultural. Nos anos 1967 e 1968 ajudou a fundar o Conselho Federal de Cultura e o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco. Em 1975, foi nomeado Secretário de Educação e Cultura do Recife, cargo que exerceu até 1978.

Em 1995, tornou-se secretário da Cultura de Pernambuco, durante o governo de Miguel Arraes, cargo para o qual foi nomeado novamente em 2007, no primeiro mandato de Eduardo Campos. Era assessor especial do governo de Pernambuco.

Com a confirmação da morte do escritor paraibano, a Academia Brasileira de Letras, o Governo do Estado da Paraíba e a Prefeitura Municipal de João Pessoa(PB), decretaram luto oficial por três dias.

Ao som de maracatu, família e amigos se despedem de Ariano Suassuna.

Milhares de pessoas – entre familiares, amigos e admiradores – passaram pelo Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual de Pernambuco, para se despedir do escritor Ariano Suassuna, velado no local desde a noite desta quarta-feira. Ao som da rabeca, dos chocalhos e da batucada do maracatu, o bloco carnavalesco O Galo da Madrugada prestou sua última homenagem ao autor.

Além de amigos e familiares, pelo local passaram políticos como o governador de Pernambuco, João Lyra Filho, que decretou luto de três dias, o presidenciável Eduardo Campos(PSB), de quem Suassuna foi secretário de Cultura, e o ex-ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho. A presidente Dilma Rousseff chegou ao velório por volta das 14h20m para prestar a sua homenagem ao autor.

No sepultamento, havia uma faixa com os dizeres "Obrigado, Ariano Suassuna, você é a presença do nome Taperoá no mundo". Taperoá é a cidade para onde a família de Ariano se mudou quando o pai foi assassinado, durante a Revolução de 1930. Enquanto o caixão era sepultado, vozes femininas, acompanhadas por cordas, cantavam incelências, cantos fúnebres eram muito comuns nas áreas rurais do Nordeste.

Antes da partida para o cemitério, parentes, fãs, populares e autoridades entoaram juntos o hino do bloco Madeira do Rosarinho, que está para Pernambuco como "Cidade Maravilhosa" para o Rio de Janeiro. A música, composta por Lourenço Barbosa, o Capiba, era entoada por Ariano onde quer que chegasse, fosse em uma aula-espetáculo ou na solenidade de inauguração de algum espaço, como ocorreu durante a inauguração do Paço do Frevo, no Recife. A letra é uma metáfora da história de luta do povo pernambucano com o seu refrão "nós somos madeira que cupim não rói".



Ariano era torcedor fanático do Sport Club do Recife e muitos fãs apareceram no velório com a camisa do clube. Além disso, também entoaram o tradicional grito de guerra "cazá cazá". Maria das Neves, filha de Suassuna, disse que o pai "deixa o carinho do povo como última herança". Já Luiz Fernando Carvalho, que adaptou "O romance d’a Pedra do Reino" para a televisão, afirmou que o escritor o apresentou ao universo da mãe, nordestina, morta quando o diretor era criança. "Ele me ajudou a preencher essa lacuna que eu tinha na memória ao me mostrar tão bem o sertão".

Na noite desta quarta-feira, logo após a chegada do corpo no Palácio, uma das netas de Ariano, Germana Suassuna, leu um texto no qual lembrava as tiradas espirituosas do avô e os acontecimentos mais marcantes de sua vida, como o assassinato do pai, o ex-governador da Paraíba, João Suassuna, por motivos políticos, na década de 1930.

Germana também falou do encontro do escritor com Zélia, sua companheira havia mais de cinco décadas. Prometeu que a família permanecerá unida, fazendo reuniões constantes como o patriarca gostava de ver. Suassuna e Zélia tiveram seis filhos e quinze netos. Toda a família, bastante emocionada, compareceu ao velório.

O caixão do escritor está coberto com bandeiras do Brasil, de Pernambuco e do Sport Club do Recife.