Em 12/09/2020
Após mais de 60 anos de realização, o concurso Miss Brasil Mundo recebe sua primeira candidata trans, a modelo Rayka Vieira Santos, de 25 anos, Ela mora em Anápolis, a 55 km de Goiânia e conquistou o título de Miss Centro Goiano.
Ela conta que já se considera uma vitoriosa só de poder participar do concurso de beleza, mas que, fazer parte do Miss Brasil, é muito importante para compartilhar sua história e encorajar outras mulheres transexuais que desejam passar pela experiência.
Para Rayka, ser miss é mais que beleza física, um título e uma coroa. “É ser muito mais do que uma mulher bonita, é ser uma mulher que abraça todas as causas sem distinção, com amor e com determinação, que usa a sua voz pelo bem, alguém que, com a visibilidade, pode ajudar em várias causas”, afirma.“Não quero esse título apenas por beleza, quero usar dele para que, por onde eu passar nesse país, eu possa deixar uma mensagem de coragem e força para as pessoas que cruzarem meu caminho”, pontua.
Trabalhando como modelo há seis anos, Rayka conta que sempre acompanhou as amigas participando de concursos beleza e tinha vontade de concorrer. O sonho de se tornar miss é antigo, segundo ela, e só recentemente começou a se tornar uma realidade próxima.
“Venho acompanhando amigas sempre concorrendo e eu sempre ali de olho, pensando se, quem sabe, um dia poderia ser eu. Sonhava um dia concorrer em um regional, mas nunca pensei que poderia concorrer em um concurso a nível nacional, representando as mulheres da minha região. Hoje estou aqui e estou muito feliz, cheguei no inimaginável”, comemora.
A candidata conta ainda que o lema do concurso é “Beleza pelo Bem”. Rayka comenta que só em participar já tem oportunidades de ter voz para representar as mulheres transexuais e desenvolver um projeto voltado para o público LBTQI+.
“As pessoas podem ter uma visão diferente, elas podem nos ver e saber que existimos, podemos estar em todos os lugares. Tem um valor agregado gigante porque o lema concurso é chamado de beleza pelo bem, poder participar do concurso está me dando a oportunidade também de fazer um projeto voltado ao público LBTQI+ que muitas vezes é esquecido”, comenta.
“Quero fazer algo especial, pois eu senti essa dor e sinto todos os dias. Quero ajudar jovens a terem tratamentos especializados para não se perderem na caminhada”, afirma.
Competição adiada
A competição estava prevista para acontecer no fim do mês de outubro, porém, devido à pandemia do novo coronavírus, foi adiada para 4 de março do próximo ano, em Alagoas. Com a participação confirmada no concurso, a candidata explica que houve mudanças na rotina, em relação à atividade física, procedimentos estéticos e também na alimentação.
“Tem apenas duas semanas que tudo começou e, devido à grande repercussão, não estou conseguindo ainda tirar muito tempo para cuidados estéticos. Por três anos eu fazia musculação e corria. A dieta era totalmente diferente também da minha alimentação de hoje, porque meu foco era outro”, relata.
Além disso, a modelo afirma que deve focar em um projeto social e se preparar psicologicamente, uma vez que enfrenta, como um dos desafios, os ataques sofridos na internet.
“Nesses seis meses quero me preparar bem e focar também no meu projeto social, que acredito ser a parte mais importante, além de preparar também minha parte psicológica, visto que os ataques também são muitos. Nessa noite mesmo fui surpreendida com o post de um pastor disseminando ódio contra mim nas redes. Preciso, além do físico, preparar minha mente. Ser miss é isso”, pontua.
Transexualidade e preconceito
Rayka conta que a transição ocorreu há 10 anos. Na infância, ela chorava ao cortar os cabelos. Já na pré-adolescência, quando se vestia com roupas masculinas, não se sentia bem e tinha preferência por roupas pretas por dar impressão de algo mais neutro. “Já com 15 anos não suportei mais e comecei a minha transição”, diz.
A modelo diz que teve o apoio da mãe desde o início e, depois de alguns anos, do pai. “Graças a Deus eu fui criada em um lar de amor e, com muita conversa e conhecimento, ela (mãe) me apoiou. Já a relação com meu pai, por ele ter outra família, passamos oito anos sem nos falar. Hoje, superamos o orgulho e o preconceito e é só amor e respeito”, comenta.
Ainda segundo a modelo, há uma certa resistência por parte das mulheres transexuais em relação à participação em concursos de beleza, devido ao medo de ataques preconceituosos.
“Nós temos que provar o tempo todo que somos boas, qualquer deslize é motivo de piada ou chacota. O recado que quero deixar é que vocês não tenham medo, vivam o sonho de vocês e não o sonho do outros. Milhares de pessoas vão apoiar vocês, pois o amor sempre vence”.
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