Uma onda de desistências: O descontentamento generalizado nas universidades

Em 05/07/2022

Tempo de leitura: 4 minutos

A revista Nature publicou recentemente um artigo com o título Has thegreat resignation’ hit academia?”. Em tradução livre, “por que tantos acadêmicos decidem deixar a carreira acadêmica?”.

Vários pesquisadores acadêmicos devem se identificar com essa questão que, pelo visto, não é só uma realidade brasileira.

O artigo denuncia uma onda de desistências, muitas delas de pesquisadores em meio de carreira, chamando a atenção para o descontentamento generalizado nas universidades que, provavelmente, é uma realidade global.

Segundo a Nature, as demandas acadêmicas aumentaram o descontentamento entre os pesquisadores que precisam trabalhar mais e mais para competir por um número cada vez menor de cargos permanentes nas universidades.

O nível de infelicidade entre os acadêmicos foi refletido na pesquisa anual de carreiras de 2021 na pesquisa anual de carreiras de 2021 da Nature. Pesquisadores em meio de carreira estavam mais insatisfeitos do que acadêmicos em início ou fim de carreira.

No início de 2021, Karen Kelsky, vendo uma mudança dramática no descontentamento, criou o The Professor is Out, um grupo privado no Facebook para profissionais de ensino superior compartilharem conselhos e apoio para aqueles que estão deixando a academia.

Esse grupo cresceu para mais de 20 mil membros no ano passado. “O que é incrível é quantos deles são titulares”, diz ela. “A narrativa esmagadora é que as pessoas são mais felizes quando saem da academia”.

 

Pandemia

O ensino superior não escapou da “grande demissão”, a onda internacional de demissões de trabalhadores que começou em 2021, incluindo um recorde de 47 milhões de residentes nos EUA e 2 milhões no Reino Unido, em grande parte por causa das consequências da pandemia de Covid-19 e salários estagnados.

A Nature conversou com mais de uma dúzia de pesquisadores que deixaram a academia, que descrevem ambientes de trabalho tóxicos, bullying e falta de consideração por sua segurança e bem-estar como fatores em suas decisões.

 

Insegurança

A Nature também afirma que pesquisadores bem estabelecidos podem ter o privilégio de sair voluntariamente, mas muitos não têm certeza de como suas habilidades se traduzirão em outros setores.

A Austrália passa por algo semelhante. “Agora, estamos vendo muitas pessoas procurarem trabalho em outros lugares ou se aposentarem, quando podem”, diz Lara McKenzie, antropóloga da Universidade da Austrália Ocidental em Perth.

 

Brasil

Em relação ao Brasil, o problema só piora: verbas para pesquisas de 2012 para 2021 sofreram uma redução assustadora de 84%, ou seja, de R$ 11,5 bilhões para R$ 1,8 bilhão, em valores atualizados pela inflação, segundo Jornal da USP.

A pós-graduação é a base na qual se sustenta a produção intelectual brasileira, inclusive a produção científica”, afirmou Hernan Chaimovich Guralnik, professor da USP e coautor de um relatório especial da Unesco sobre investimentos em pesquisa e desenvolvimento no mundo.

Ao sancionar o orçamento de 2021, o Governo Federal manteve o bloqueio de parte expressiva dos valores do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), ignorando a lei aprovada pelo Congresso em 2020 que proibia novos contingenciamentos, segundo revista Pesquisa Fapesp, que é editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Assim, milhares de pesquisadores brasileiros inscritos no edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de doutorado e pós-doutorado de 2020 não receberam bolsas para conduzir as pesquisas. “Sem a bolsa não tem como sobreviver, visto que a dedicação é exclusiva”, explica o doutor em Química Glauco Meireles.

Em 2020, Meireles, de 31 anos, havia ficado desempregado. Por alguns meses, ele usou as economias que guardara ao longo dos últimos anos. “A gente que faz mestrado e doutorado na área de pesquisa científica tem vontade de continuar. Como são pouquíssimas empresas que reconhecem a importância dessa área e investem nela, a gente fica dependente das agências de fomento estadual e federal, que estão com orçamento cada vez menor”, diz o pesquisador.

Segundo BBC News Brasil, o cientista político Luis Fernandes, ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), afirma que “é a crise mais grave no setor desde as décadas de 1950 e 60, quando começou o fomento à ciência e tecnologia. Ao longo da trajetória, houve um período de altos e baixos, mas nunca houve uma crise como a atual. É um colapso do sistema”.

Portanto, é importante dar destaque a essa matéria da Nature, como ainda, a da revista Pesquisa Fapesp, a da BBC News Brasil e do Jornal da USP, pois muitas pessoas também compartilham dessas inseguranças no mundo acadêmico que, em resumo, refere-se a falta de estabilidade em contratos cada vez mais curtos e com a escassez de contratos de longo prazo.

Assim como, diminuição de cargos permanentes para professores levando a uma precarização cada vez maior, os salários defasados quando comparados com os salários da indústria (que, ironicamente, depende de pesquisas acadêmicas), a acumulação de tarefas de natureza administrativa deixando pouco tempo e dinheiro para pesquisa acadêmica, as condições incertas sobretudo para mulheres que gostariam de conciliar maternidade e carreira, o sexismo e a discriminação.


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