Em 26/02/2023
EUA são contra intervenção militar de China e Coreia do Norte no conflito dos russos contra ucranianos.

Vladimir Putin (à esq.) e Xi Jinping (dir.) se encontraram na capital Pequim em 4 de fevereiro de 2022.
O governo dos Estados Unidos afirma que a China está considerando enviar armas à Rússia para a guerra do país na Ucrânia e, embora Pequim negue, analistas consideram que isto pode mudar o cenário do conflito que começou em fevereiro do ano passado.
A seguir algumas perguntas fundamentais sobre a alegação de Washington e suas implicações.
O que está por trás da afirmação dos Estados Unidos?
Desde que os tanques russos entraram na Ucrânia, a China oferece cobertura diplomática e apoio financeiro ao governo de Vladimir Putin, mas sem envolvimento militar ou o fornecimento de armas letais.
Empresas chinesas sob controle estatal venderam drones não-letais e outros equipamentos para Rússia e Ucrânia, o que levou Moscou a recorrer ao Irã para adquirir armas, como os drones armados.
O governo dos Estados Unidos também afirma que a Coreia do Norte enviou foguetes e projéteis de artilharia para a Rússia.
Antony John Blinken é um oficial do governo americano e diplomata, servindo atualmente como o Secretário de Estado dos Estados Unidos, na administração do presidente Joe Biden.
Washington acredita que isto pode mudar e o secretário de Estado, Antony Blinken, expressou os temores. “Com base nas informações que temos (…) estão considerando fornecer apoio letal“, declarou Blinken no domingo sobre a China.
Em visita surpresa à Ucrânia, o Presidente democrata Joe Biden aproveitou o período na Europa para visitar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na segunda-feira (20Fevereiro2023).
Blinken não apresentou evidências para apoiar a versão e os críticos apontam outros erros do serviço de inteligência americano, mas a declaração segue o padrão de Washington de divulgar informações delicadas de maneira preventiva para interromper os planos russos.
Richard McGregor, analista para Ásia do Instituto Lowy, com sede em Sydney (Austrália).
“O fato de o senhor Blinken optar por tornar públicos seus temores sugere que o governo dos Estados Unidos tem uma inteligência sólida“, comentou Richard McGregor, analista para Ásia do Instituto Lowy, com sede em Sydney.
Pequim acusou Washington de “propagar informação falsa” e “transferência de culpa“.
Por que Washington está preocupado?
Durante a guerra, a Rússia tem enfrentado dificuldades para reunir soldados, munições e armas em quantidade suficiente para enfrentar a feroz resistência ucraniana, o que obrigou Putin a recorrer a um recrutamento em larga escala, a grupos mercenários e importações.
A Ucrânia conseguiu conter a supremacia russa e, inclusive, ter vantagem em algumas áreas. Mas alguns analistas consideram que guerra está em um ponto de inflexão, no qual cada lado clama por recursos com o objetivo de conquistar vitórias decisivas.
Neste contexto, o envio de armas chinesas mudaria o cenário, declarou à AFP Mick Ryan, major-general da reserva do exército australiano.
Mick Ryan, major-general da reserva do exército australiano.
“Esta é uma guerra de sistemas industriais. No momento, a Rússia é superada pelo Ocidente. Se a China entrar, qualquer vantagem que a Ucrânia tenha devido à capacidade industrial do Ocidente desaparece instantaneamente“, explica.
“As munições chinesas tornariam a vida muito difícil para os ucranianos, com munições de artilharia, munições de precisão ou armas de ataque de longo alcance, que estão acabando na Rússia“, acrescenta.
Por que a China se envolveria?
O analista militar chinês Song Zhongping insiste que o país não enviará armas, mas destaca que a cooperação comercial e militar entre Moscou e Pequim se aprofundou antes da guerra na Ucrânia e prosseguirá.
Song Zhongping, analista militar chinês.
“A China não vai escutar as demandas dos Estados Unidos. A China vai fortalecer a cooperação com a Rússia de acordo com sua vontade e suas preocupações com a segurança nacional“, disse.
Muitos analistas acreditam que há algo maior em jogo e veem o conflito na Ucrânia se transformando em uma ‘guerra por procuração’, ao estilo da Guerra Fria.
“A guerra na Ucrânia é um momento crucial para o ambiente de segurança internacional, para a ordem mundial“, disse Alexey Muraviev, professor de Estudos de Segurança e Estratégicos da Universidade Curtin de Perth.
Alexey Muraviev, professor de Estudos de Segurança e Estratégicos da Universidade Curtin de Perth.
Uma decisão chinesa de exportar armas seria “um passo enorme“, que arriscaria expor o país a sanções ocidentais, queimaria as pontes que restam com Washington e afetaria suas relações com a Europa.
Muraviev, no entanto, acredita que a perspectiva de uma derrota russa é preocupante para Pequim. “Se a Rússia perder política ou militarmente na Ucrânia, a China ficará sozinha“, disse. “A Rússia é a única grande potência que apoia a China“.

Xi Jinping da China (à direita) e o líder norte-coreano Kim Jong Un em Pequim em junho de 2018. A visita de Xi à Coreia do Norte em junho de 2019 marcou como sendo a primeira de um presidente chinês desde 2005.
E uma vitória russa seria “infligir uma derrota estratégica aos Estados Unidos“, acrescentou, o que ajudaria a retomar a narrativa do presidente Xi Jinping de que o Ocidente está em declínio.
Presidente russo, Vladimir Putin, e líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, posam para foto durante encontro em Vladivostok. O presidente russo, Vladimir Putin, disse ao líder norte-coreano, Kim Jong-Un, que os dois países “expandirão as relações bilaterais abrangentes e construtivas com esforços comuns”, informou a mídia estatal de Pyongyang na segunda-feira (15Agosto2023).
Para os chineses, o fracasso da Rússia a conquistar a vitória no ano passado foi um balde de água fria”, destaca. “Eles começaram a reavaliar sua própria capacidade de executar uma campanha similar“. “A guerra na Ucrânia mostra que você pode ter desfiles militares repletos de pompa, exercícios brilhantes em larga escala, mas o verdadeiro teste para saber se o seu exército está à altura da tarefa acontece no campo de batalha”.

Em uma carta a Kim para o dia da libertação da Coreia, Putin disse que laços mais estreitos são do interesse de ambos os países e ajudarão a fortalecer a segurança e a estabilidade. Kim também enviou uma carta a Putin dizendo que a amizade entre Rússia e Coreia do Norte foi forjada na Segunda Guerra Mundial com a vitória sobre o Japão, que ocupou a península coreana.
Muraviev acredita que a China poderia tentar dividir o risco e a recompensa na Ucrânia com o envio de armas por meio de empresas sob controle estatal, da Coreia do Norte ou do Grupo Wagner (paramilitar), em vez de diretamente às forças russas. “Eu acredito que a abordagem deles será mais clandestina“, afirmou.
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