Em 28/09/2020
Baiano é referência na Medicina por ter defendido tratamento mais humanizado para pacientes com transtornos mentais.
Nascido em Salvador (BA) no dia 6 de Janeiro de 1872 (faleceu em Petrópolis(RJ), em 2 de maio de 1933), Juliano Moreira foi um dos primeiros médicos negros formados no Brasil e, frequentemente, é citado como um dos fundadores da psiquiatria no país, pelos avanços por ele promovidos. Moreira foi o primeiro professor universitário brasileiro a citar e incorporar a teoria psicanalítica no ensino da medicina.
Juliano era negro e pobre, filho de Galdina Joaquina do Amaral, que trabalhava na residência de Luís Adriano Alves de Lima Gordilho, Barão de Itapuã. Somente após a morte de sua mãe, quando Juliano tinha 13 anos de idade, é que ele foi perfilhado por Manoel do Carmo Moreira Júnior, português, inspetor de iluminação pública.Graças ao apoio do Barão de Itapoã, seu padrinho, que era médico e professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Juliano Moreira faz os cursos preparatórios e ingressa no curso de medicina, em 1886. Formou-se em 1891, aos 19 anos, com a tese Sífilis maligna precoce. …“Adentrei-me na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, com menos de 15 anos de idade, conforme era possível na época, doutorando-me aos 22 janeiros”.
Em 1896, fez o concurso para lente substituto da 12ª seção – cadeira de moléstias nervosas e mentais -, com a tese sobre as Discinesias arsenicais e foi aprovado em primeiro lugar, com nota máxima. Nesse momento, passou a figurar entre os redatores da Gazeta Médica da Bahia, que tinha Braz do Amaral como redator-gerente e José Francisco de Silva Lima como redator principal.
De 1895 a 1902, realizou cursos e estágios sobre doenças mentais e visitou muitos asilos na Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia. Mas, além de viagens de estudos, já era obrigado a procurar com frequência especialistas e clínicas para consultas sobre sua própria doença. Juliano Moreira sofria de tuberculose.
Acentuando-se as crises, obtém uma nova licença e viaja para a Europa em busca de melhor tratamento e posteriormente interna-se num sanatório na cidade do Cairo, onde conhece Augusta Peick, enfermeira alemã, de Hamburgo. Os dois se casaram no início da década de 1910 e vieram juntos para o Brasil.
Já em 1900 representa o Brasil em congressos internacionais: em Paris, neste ano – sendo também eleito Presidente Honorário do 4º Congresso Internacional de Assistência a Alienados, em Berlim; também seria congressista brasileiro em Lisboa (1906), Milão e Amsterdã (1907), Londres e Bruxelas (1913).Permaneceu na Faculdade de Medicina da Bahia, até 1902. Em 1903, após ter exercido a clínica psiquiátrica na Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, entre 1903 e 1930, dirigiu o Hospício Nacional de Alienados e, embora não fosse professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebia internos para o ensino de psiquiatria.
Defendeu a ideia de que a origem das doenças mentais se devia a fatores físicos e situacionais, como a falta de higiene e falta de acesso à educação, contrariando o pensamento racista em voga no meio acadêmico, que atribuía os problemas psicológicos e de saúde da população brasileira à miscigenação.
Juliano contribuiu para a abolição do uso de camisas de força e de grades nas janelas dos hospitais de internação. Também trabalhou para a aprovação de uma legislação federal que garantisse assistência médica e legal aos doentes psiquiátricos.
Destacou-se também na área da dermatologia. Foi o primeiro pesquisador a identificar a leishmaniose cutâneo-mucosa e buscou provar que a questão racial não motivava as doenças.
Já formado como médico, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), na qual, como vice-presidente, teve a responsabilidade de receber o físico Albert Einstein em visita ao país, em 1925. Em seguida, presidiu a entidade.
Foi membro da Diretoria da Academia Brasileira de Ciências entre 1917 e 1929, tendo ocupado o cargo de Presidente no último triênio. Foi também membro de diversas sociedades médicas em todo o mundo. Dentre as instituições internacionais das quais fez parte, incluem-se a Anthropologische Gesellschaft (Munique), a Societé de Medicine (Paris) e a Medico-legal Society (Nova York).
Em novembro de 1930, o novo presidente – Getúlio Vargas – dissolve o Congresso Nacional, as câmaras e as assembleias estaduais. Nomeia interventores nos Estados, mantendo seus compromissos com as oligarquias dissidentes. Em 8 de dezembro de 1930, Juliano Moreira é destituído da direção do Hospital Nacional de Alienados, onde também morava.
Aposentado, foi morar num hotel em Santa Teresa. Mantinha suas visitas a alguns de seus pacientes particulares no Sanatório Botafogo, de Ulysses Vianna, ou as sessões da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina. Em 17 de novembro de 1932, retornaria pela última vez à Sociedade que fundara, para uma sessão solene.
A tuberculose avançava. Miguel Couto, seu médico, decide encaminhá-lo para a Serra de Petrópolis. Hospeda-se na residência de Hermelindo Lopes Rodrigues, um dos seus maiores discípulos. Faleceu em 2 de maio de 1933, no Sanatório de Correias, na cidade de Petrópolis, onde se internara para tratamento de tuberculose. Não deixou filhos.
Juliano Moreira revolucionou as concepções e métodos da psiquiatria no Brasil, notadamente no tocante à atenção às pessoas com problemas mentais.
Entre seus legados incluem-se a formulação de propostas e novos modelos assistenciais psiquiátricos (1903); a aprovação da lei de assistência aos alienados em 22 de dezembro de 1903; a fundação da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins (1905).
No campo da antropologia, Juliano deixa um legado de combate ao racismo científico, por seu papel na refutação da crença de que as doenças mentais estariam ligadas à cor da pele das pessoas.
Filho de empregada doméstica negra com funcionário público português, ele só teve sua filiação paterna reconhecida após o falecimento de sua mãe. Para se formar, contou com a ajuda do patrão de sua genitora, o barão de Itapuã.
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