Em 30/09/2010
João Pessoa(PB) – O saber a serviço do resgate da história da Paraíba e o enriquecimento profissional de mais 80 graduandos do curso de Arquivologia da Universidade Estadual da Paraíba. Esse é o resultado de um trabalho que vem sendo realizado há quase um ano nas dependências do Campus V da UEPB, em João Pessoa.
A iniciativa integra as atividades da disciplina do curso de Arquivologia, denominada Restauração de Documentos Bibliográficos e ministrada pelo professor Eutrópio Bezerra. O projeto funciona em parceria com a Igreja da Santa Casa de Misericórdia, situada na Avenida Duque de Caxias, Centro da Capital.
A prática consiste na restauração de documentos que fazem parte do acervo daquele templo cristão, a exemplo de termos de posse, juramentos, fianças, manuscritos em geral – todos datados do século XVI até o século XIX. Esses documentos estavam em péssimo estado de conservação, acondicionados inadequadamente, sendo que alguns apresentavam perda de pigmentação e perfuração por ataque de insetos.
De acordo com o professor Eutrópio Bezerra, o trabalho configura-se como uma oportunidade concedida aos alunos para que apliquem a teoria apreendida em sala de aula, levando a um aprimoramento no ofício que escolheram.
Além disso, ele destacou a importância desta iniciativa, que recupera a memória não só da Santa Casa, mas do próprio Estado da Paraíba, já que a Igreja teve sua construção no início do século XVI, pouco tempo depois da fundação da cidade de João Pessoa, e tais manuscritos relatam um pouco dos acontecimentos daquela época.
Para a aluna do curso de Arquivologia, Suele Luna, a divulgação deste trabalho é importante, pois é uma forma de fazer com que a sociedade valorize o arquivista, e outras instituições possam abrir as portas para que os estudantes coloquem em prática o aprendizado. “As pessoas veem o arquivista apenas como um organizador de documentos, quando na verdade nossa atuação profissional é bem mais ampla. Compreende desde a gestão, preservação até a restauração de documentos”, esclareceu a estudante.
Estágios
Além dos inegáveis benefícios que esse trabalho de restauração traz para a Casa de Misericórdia e para a sociedade paraibana, os alunos do curso de Arquivologia têm conquistado espaço no mercado de trabalho graças à experiência adquirida nessa prática laboratorial.
Esse é o caso da estudante Suele Luna, que assim como as colegas Amanda Rosa e Eduarda Ingrid – todas do curso de Arquivologia da UEPB – conseguiu estágio no acervo bibliográfico Odilon Ribeiro Coutinho.
Já os estudantes Ednairan Amador, Sayonara Coutinho, Luiz Paulo Paulino e Maria Jose Amaro participam, uma vez por semana, de um curso oferecido pelo Laboratório de Conservação, Restauração e Encadernação(Lacre) da UFPE, que é coordenado pelo professor Eutrópio, no qual eles aperfeiçoam as técnicas de restauração, higienização e encadernação de documentos. Os alunos contam com o apoio da UEPB no fornecimento de transporte para Recife, nos dias de curso.
Todos esses estágios contam com o acompanhamento direto do professor Eutrópio Bezerra, que recebe um diário de cada aluno estagiário com as atividades do dia e um relatório mensal que versa sobre o desempenho de cada estudante no ambiente de trabalho, sendo posteriormente encaminhado à direção do CCBSA.
Mais sobre a técnica da restauração
Segundo o professor Eutrópio, a restauração segue normas específicas e tudo é feito respeitando a originalidade das obras. “O procedimento de restauração segue várias etapas. O primeiro passo é o preenchimento de uma ficha técnica, seguido de realização de um diagnóstico, que é um estudo do estado de conservação em que se encontra esse documento. Passada essa etapa, entramos no critério técnico para estudarmos qual a forma adequada para que essas folhas sejam restauradas, nada é feito aleatoriamente”, explicou.
O professor ainda acrescentou que depois das etapas citadas é efetuado o tratamento aquoso para retirar a sujeira e neutralizar a acidez do papel e a reenfibragem – o preenchimento das partes faltantes da folha. O papel segue para reencolagem, para as fibras se entrelaçarem entre si. Todo o processo é finalizado com a planificação e os acabamentos para eliminar as partes sobressalentes.
A prática é lenta. A restauração de cada livro dura, em média, um mês – a depender do estado de deterioração. Além disso, a atividade requer atenção conhecimento e habilidade. Também são necessários alguns equipamentos, que já foram adquiridos pela UEPB e deverão ficar à disposição dos alunos em breve, quando será inaugurado um novo laboratório para o desenvolvimento destas ações da disciplina Restauração de Documentos Bibliográficos.
Dentre estes equipamentos estão uma cuba em granito para tratamento aquoso, deionizadores, barrilhetes, liquidificador industrial, reservatório de polpa, ferro elétrico e secadora.
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