Em 14/11/2011
A Bacia Hidrográfica Rio Piancó/Piranhas/Açu é um exemplo de que o sertão é viável.
A perenidade de seu fluxo é assegurada por dois reservatórios de regularização construídos pelo DNOCS: O Coremas – Mãe d’Água, na Paraíba, com capacidade de 1,360 bilhões de m³ e vazão regularizada(Q 95%) de 9,5 m³/s e a barragem Armando Ribeiro Gonçalves(ARG), no Rio Grande do Norte, com 2,400 bilhões de m³ e vazão regularizada de 17,8m³/s
(Q 90%).Ao longo do sistema hídrico formado pela calha do rio e seus reservatórios de regularização, denominado Sistema Curema-Açu, desenvolvem-se diversos usos como irrigação difusa, irrigação em perímetros públicos, abastecimento humano, dessedentação animal, lazer, produção energética e aqüicultura.

A bacia hidrográfica do rio Piranhas – Açu abrange um território de 42.900 km² distribuído entre os Estados da Paraíba e Rio Grande do Norte, onde vivem aproximadamente 1.552.000 mil habitantes. A bacia está totalmente inserida em território semi-árido, com precipitações médias variando entre 400 e 800 mm anuais concentradas entre os meses de fevereiro e maio.
A concentração das chuvas em poucos meses do ano, conjugada a geomorfologia da região, caracterizada por solos rasos formados sobre um substrato cristalino, com baixa capacidade de armazenamento, é responsável pelo caráter intermitente dos rios da região. Além disso, o padrão de precipitação tende a apresentar uma forte variabilidade inter anual, ocasionando a alternância entre anos de chuvas regulares e anos de acentuada escassez hídrica, levando à ocorrência de secas hídricas.
Por outro lado as taxas de evapotranspiração são bastante elevadas, podendo chegar a mais de 2000 mm/ano, o que ocasiona um déficit hídrico significativo e se constitui em fator chave a ser considerado na operação dos reservatórios da região.
A formação geológica da maior parte da bacia é Cristalina, isto é, formada por rochas impermeáveis com baixa capacidade de armazenamento de água, a qual freqüentemente é de baixa qualidade. As formações sedimentares, com maior porosidade e, portanto maior capacidade de armazenamento de água, estão presentes apenas em dois pontos da bacia: uma menor, na sub-bacia do Rio do Peixe, próximo a Sousa(PB) e outra, integrante da formação Jandaíra, abrangendo o Baixo-Açu.
Outra fonte importante de água subterrânea são os aqüíferos aluviais, que na maioria dos casos, fornecem água de boa qualidade para abastecimento humano, animal e irrigação.
As principais unidades de solo que ocorrem na Bacia são os solos brunos não cálcicos e litólicos, que são solos geralmente com boa fertilidade, porém, são rasos e pedregosos não se adequando à prática da agricultura intensiva.
Os solos mais explorados na agricultura irrigada são os solos aluviais, dispersos em toda bacia, e os vertissolos presentes na bacia do rio do Peixe na Paraíba. Outras unidades de solo dignas de nota são os podzólicos vermelho-amarelos, os latossolos e os cambissolos.
A cobertura vegetal predominante na Bacia é a caatinga hiperxerófila herbáceo-arbustiva. Na parte sul da Bacia, nas proximidades do município de Monte Horebe(PB), em pontos de altitude mais elevada, ocorre a caatinga hipoxerófila, de porte arbóreo.
As espécies mais comuns são: catingueira, baraúna, faveleira, jurema, marmeleiro, pereiro, juazeiro, e cactáceas(xiquexique, mandacaru, facheiro). Nas margens dos rios é comum a ocorrência de caraibeira e oiticica. Já nos aluviões é bastante comum a ocorrência de carnaubeiras que, nas várzeas do Baixo-Açu, chega a formar cocais atualmente ameaçados pela expansão da agricultura irrigada.
A cobertura vegetal da bacia em sua maior parte se encontra bastante antropizada em decorrência da abertura de áreas para exploração agrícola e principalmente pela exploração de lenha como fonte energética para olarias, panificadoras e uso doméstico. Além da perda de biodiversidade, a remoção da vegetação sem critérios de manejo, expõe o solo à ação erosiva das chuvas provocando o transporte de partículas para os corpos hídricos e causando o gradual assoreamento dos reservatórios da região.
Por conta desse padrão de ocupação humana a região do Seridó Potiguar, que compreende a parte oriental da bacia, nas proximidades dos municípios de Caicó, tornou-se um dos focos de desertificação presentes no país, demandando ações específicas para reverter o problema.
Perfil Socio-econômicoA taxa média de urbanização na bacia fica em torno de 66% e a grande maioria dos municípios(75%) tem menos de 10.000 hab. A maior cidade da Bacia é Patos(88.000 habitantes).
Outras cidades importantes são Sousa, Cajazeiras e Pombal na Paraíba, e Caicó, Assu e Currais Novos no Rio Grande do Norte. O IDH médio dos municípios da Bacia está em torno de 0,66.
A população urbana da bacia conta com bons índices de atendimento de abastecimento de água, 96% de atendimento na Paraíba e 92% no Rio Grande do Norte, a par de baixos índices de cobertura por redes de coleta de esgotos(2,46% na Paraíba e 13,95% no Rio Grande do Norte).

A agropecuária é a principal atividade econômica da região, onde se destaca a pequena agricultura de subsistência de feijão, milho consorciado e a pecuária extensiva.
O cultivo de algodão arbóreo(“mocó”) já foi uma importante atividade econômica na região, e, ao contrário do algodão comum, era um cultivo perene, resistente à seca, que alimentava um grande número de usina de beneficiamento, e que além de uma fibra de excelente qualidade, tinha como subprodutos óleo vegetal e ração animal(torta de algodão). Era uma fonte de renda segura para o produtor.

No final dos anos 80 com a chegada do bicudo, praga de difícil controle nas condições da região e depois com a abertura do mercado nacional às importações subsidiadas de países da Ásia nos anos 90, a cultura, que no início dos anos 80 era plantada em mais de 2 milhões de hectares no Nordeste, entrou em declínio, e hoje a área cultivada está em torno de 1.300 hectares.

A agricultura irrigada foi adotada como estratégia de desenvolvimento regional, pelo governo federal, através do DNOCS, e mais recentemente pelos governos estaduais. Isto resultou num conjunto de perímetros operando com grau de sucesso variável, descritos na tabela abaixo:
Perímetros irrigados públicos na bacia do Piranhas-Açu
|
Perímetro |
Município
|
Área
irrigável (ha)
|
Área implantada (ha)
|
|
Várzeas de Sousa
|
Sousa e Aparecida
|
5.000
|
1.000
|
|
São Gonçalo
|
Sousa
|
3.046
|
2.267
|
|
Engenheiro Avidos
|
Cajazeiras
|
500
|
100
|
|
São Bento
|
São Bento
|
147
|
147
|
|
Eng.º Arcoverde
|
Condado
|
278
|
278
|
|
Lagoa do Arroz
|
Cajazeiras, São João do Rio do Peixe e Santa Helena
|
980
|
300
|
|
Gravatá
|
Nova Olinda e Pedra Branca
|
940
|
200
|
|
Piancó I
|
Pombal, Coremas, Cajazeirinhas
|
543
|
249
|
|
Piancó II
|
Boaventura, Diamante, Ibiara e Itaporanga
|
1.000
|
1.000
|
|
Piancó III
|
Itaporanga e Piancó
|
750
|
?
|
|
Escondido
|
Belém do Brejo do Cruz
|
100
|
|
|
Carneiro
|
Jericó
|
639
|
50
|
|
Pilões
|
São João do Rio do Peixe, Poço de José de Moura e Triunfo
|
250
|
180
|
|
Poço Redondo
|
Santana de Mangueira e Ibiara
|
300
|
?
|
|
Projeto Bruscas
|
Curral Velho
|
500
|
?
|
|
Conceição I e II
|
Conceição
|
1000
|
?
|
|
Santa Inês
|
Santa Inês
|
500
|
?
|
|
Capoeira
|
São José do Bonfim, Patos e Santa Terezinha
|
170
|
20
|
|
Farinha
|
Patos
|
?
|
?
|
|
Baixo – Açu (DIBA)
|
Ipanguaçu, Alto do Rodrigues e Afonso Bezerra
|
5.168
|
2.000
|
|
Mendubim
|
Assu
|
8000
|
Zero
|
|
Pataxó
|
|
2500
|
|
|
Cruzeta
|
Cruzeta
|
196
|
58
|
|
Itans
|
Caicó
|
69
|
?
|
|
Sabugi
|
Caicó
|
403
|
325
|
Além dessas áreas existe a pequena irrigação difusa praticada às margens dos açudes e vales perenizados, onde se cultiva gêneros alimentícios e pastagens. Mais recentemente na área do Baixo Açu tem havido a expansão da agricultura irrigada em grandes lotes empresariais onde se cultiva principalmente banana, e que tem sido alvo de denuncias por grupos ambientalistas por conta de práticas inadequadas de aplicação de agrotóxicos e descarte de resíduos de tratamento fitossanitários no rio Piranhas-Açu.

A atividade industrial na Bacia compreende a indústria têxtil em São Bento(PB), curtumes, sal, cerâmica e laticínios e a indústria de Petróleo e Gás nas proximidades do Alto do Rodrigues e Macau(RN).
A mineração é explorada principalmente no Seridó dos dois Estados, onde predomina a extração de pegmatitos, scheelita e pedras semipreciosas(água marinha, berilo, turmalinas, etc.).
A Carcinicultura, criação de camarões, é uma atividade que tem teve uma expansão considerável na região do Baixo Açu tornando o Estado do Rio Grande do Norte no maior produtor nacional deste crustáceo. No entanto a atividade é acusada de depredar os mangues e de poluir o Sistema flúvio-marinho com os efluentes da despesca.
Sistemas de Águas Superficiais
Na bacia do rio Piranhas-Açu, incluindo os já citados reservatórios Curemas-Mãed’água e Armando Ribeiro Gonçalves, existem 46 reservatórios considerados estratégicos por apresentarem capacidade de armazenamento superior a 10 milhões de m³.
Esse caráter estratégico advém do fato de que só a partir dessa capacidade o reservatório pode fazer frente a períodos de estiagem e realizar a passagem entre períodos chuvosos.
Confira abaixo a relação dos reservatórios estratégicos da bacia
|
Reservatório
|
Município
|
UF
|
Capacidade
milhões m³ |
|
Catolé I
|
Manaíra
|
PB
|
10,50
|
|
Timbaúba
|
Juru
|
PB
|
15,44
|
|
Saco
|
Nova Olinda
|
PB
|
97,49
|
|
Bruscas
|
Curral Velho
|
PB
|
38,21
|
|
Piranhas
|
Ibiara
|
PB
|
25,70
|
|
Bom Jesus II
|
Água Branca
|
PB
|
14,17
|
|
Jenipapeiro (Buiu)
|
Olho d’Água
|
PB
|
70,76
|
|
Queimadas
|
Santana dos Garrotes
|
PB
|
15,63
|
|
Cachoeira dos Alves
|
Itaporanga
|
PB
|
10,61
|
|
Cachoeira dos Cegos
|
Catingueira
|
PB
|
71,89
|
|
Coremas-Mãe D’água
|
Coremas
|
PB
|
1.358,00
|
|
Engenheiro Arcoverde
|
Condado
|
PB
|
30,59
|
|
São Gonçalo
|
Sousa
|
PB
|
44,60
|
|
Capoeira
|
Mãe d’Água
|
PB
|
53,45
|
|
Farinha
|
Patos
|
PB
|
25,74
|
|
Jatobá I
|
Patos
|
PB
|
17,52
|
|
Santa Luzia
|
Santa Luzia
|
PB
|
11,96
|
|
São Mamede
|
São Mamede
|
PB
|
15,79
|
|
Pataxó
|
Ipanguaçu
|
RN
|
24,37
|
|
Eng. Arm. R. Gonçalves
|
Assú
|
RN
|
2.400,00
|
|
Mendubim
|
Assú
|
RN
|
76,35
|
|
Boqueirão de Parelhas
|
Parelhas
|
RN
|
85,01
|
|
Caldeirão de Parelhas
|
Parelhas
|
RN
|
10,00
|
|
Esguicho
|
Ouro Branco
|
RN
|
21,57
|
|
Carnaíba
|
São João do Sabugi
|
RN
|
25,71
|
|
Sabugi
|
São João do Sabugi
|
RN
|
65,33
|
|
Várzea Grande
|
Picuí
|
PB
|
21,53
|
|
Passagem das Traíras
|
Jardim do Seridó
|
RN
|
48,86
|
|
Itans
|
Caicó
|
RN
|
81,75
|
|
Marechal Dutra
|
Acari
|
RN
|
40,00
|
|
Cruzeta
|
Cruzeta
|
RN
|
35,00
|
|
Dourado
|
Currais Novos
|
RN
|
10,32
|
|
Rio da Pedra
|
Santana do Mato
|
RN
|
12,43
|
|
Beldroega
|
Paraú
|
RN
|
11,37
|
|
Carneiro
|
Jericó
|
PB
|
31,29
|
|
Riacho dos Cavalos
|
Riacho dos Cavalos
|
PB
|
17,70
|
|
Tapera
|
Belém do Brejo do Cruz
|
PB
|
26,42
|
|
Baião
|
São José do Brejo do Cruz
|
PB
|
39,23
|
|
Escondido
|
Belém do Brejo do Cruz
|
PB
|
16,33
|
|
Santa Inês
|
Santa Inês
|
PB
|
26,12
|
|
Serra Vermelha I
|
Conceição
|
PB
|
11,80
|
|
Condado
|
Conceição
|
PB
|
35,02
|
|
Bartolomeu I
|
Bonito de Santa Fé
|
PB
|
17,57
|
|
Eng. Avidos
|
Cajazeiras
|
PB
|
255,00
|
|
Lagoa do Arroz
|
Bom Jesus
|
PB
|
80,22
|
|
Pilões
|
São João do Rio do Peixe
|
PB
|
13,00
|
Considerando que o potencial de construção de açudes está bem próximo do ponto de esgotamento, além do qual a construção de novos reservatórios, pelo menos do ponto de vista hidrológico, provocaria deseconomias através do aumento de perdas por evaporação, um desafio que se impõe é a otimização do uso da água armazenada, seja através da introdução de rotinas de operação mais racionais, seja pela melhoria técnica dos processos produtivos dos usuários, principalmente irrigantes e concessionárias de abastecimento.

Outro tipo de problema preocupante, e relativamente recente, é a ocorrência de florações de cianobactérias nos reservatórios da Bacia. Essas bactérias podem produzir toxinas, que não são removidas por métodos de tratamento de água convencionais, e que podem inclusive contaminar peixes tornando-os impróprios ao consumo. Uma provável causa para a ocorrência do problema é o lançamento de esgotos não tratados nos corpos hídricos da Bacia.
Considerando que a água acumulada nos reservatórios é a principal, senão a única fonte disponível para abastecimento humano e animal, faz-se necessário uma priorização de investimentos por parte do poder público para saneamento ambiental.
* ANA – Agência Nacional de Águas/DINFO.
* Algumas correções na tabela considerando o Vale do Açu feita pelo geólogo Eugênio Fonseca Pimentel membro do Comitê da Bacia Hidrográfica Piranhas-Açu.
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