Padre diz que política na saúde é desgraça do povo

Em 05/03/2012

Tempo de leitura: 11 minutos


Pedra Branca(PB) – O Padre da Igreja Católica Apostólica Romana, Djacy Brasileiro, vigário da paróquia do município de Pedra Branca, em artigo publicado e distribuído a imprensa paraibana, evidenciou a questão da saúde pública da região do alto sertão paraibano.

O religioso(Foto abaixo), notório por encampar a luta pela obra de Transposição das Águas do Rio São Francisco, pela luta do fornecimento dágua para consumo humano da cidade de Santa Cruz(PB), por mobilizações pela reconstrução da ponte do Boi morto(Aparecida/PB) e pela pavimentação asfáltica da cidade do Lastro(PB), municípios onde foi vigário e teve atuação religiosa, além da elaboração de uma cartilha do eleitor, onde ensina e alerta aos incautos sobre as armadilhas praticadas pela classe políticas em campanhas eleitorais, agora presta mais um importante serviço a sociedade sertaneja, pontuando sobre o descaminho que vem sendo dado a questão da saúde pública no sertão paraibano, baseando seu escrito em relatos dos fiéis com quem mantem contato diário, e por testemunho próprio, atestando as dificuldades vivenciadas.


Confira abaixo o artigo na íntegra:

POLÍTICA NA SAÚDE É DESGRAÇA DO POVO


Em sintonia com a campanha da fraternidade deste ano – Fraternidade e Saúde Pública – quero expor, através da fala do povo sofrido, a maneira como no interior do Nordeste brasileiro, a saúde pública é tratada pelos nossos governantes.


Como é notório, a Política da Saúde deve ser parte obrigatória de qualquer plano de governo, quer federal, estadual ou municipal. É a própria Constituição Federal do Brasil de 1988, no seu artigo 196, que dá alicerce básico para a política da saúde, quando afirma, peremptoriamente, que “a saúde é direito de todos e dever do Estado (…)”.


Infelizmente, na maioria dos municípios brasileiros não há, como convém, a Política da Saúde, e sim, a “política” na Saúde. Com isso, quero dizer que a Saúde, na sua lamentável precariedade, torna-se trampolim ou rampa para muitos políticos(politiqueiros) chegarem ao Poder. Para estes eternos apaixonados pelo o Poder(Poder pelo o Poder), solucionar de uma vez por todas a problemática da Saúde Pública, é estancar as benditas fontes lucrativas do voto(os votos dos pobres). Ora, povo doente, sem assistência digna por parte do Poder Público, é bom demais: rende votos. Quanto mais a população adoece, melhor.


Depois de longa caminhada de padre por este sertão paraibano, exponho(literalmente) o que tenho ouvido do povo pobre, excluído, injustiçado, humilhado, sobre seus dramas e humilhações, nos momentos de doenças:

– Meu padre, vou votar naqueles políticos, porque eles são bons.Eles fizeram um posto de saúde na nossa comunidade.


– Sabe o que eu ouvi de um candidato, padre?. Ele me disse assim: se o senhor e sua família votarem em mim, quando adoecerem não vou deixar falta nada. Vou dar transporte, hospital, remédio.


– Pobre é bicho besta mesmo, padre, o doutor chegou na nossa casa e perguntou: tem alguém doente,se tiver eu consulto e dou remédio.Depois de perguntar isso,deu para nós,o retrato dele e o número.Pense como pobre é bicho besta?.


– Padre, doutor fulano de tal é bom demais,quando chega na nossa casa consulta todo mundo,e ainda dá remédio. Pense num doutor bom demais. Ele é candidato, vamos votar nele ou no candidato dele.


– Seu padre, vereador tal é bom demais, ele conseguiu um carro da prefeitura para levar meu filho doente para João Pessoa. Pense num homem santo?.


– Seu padre, na minha cidade há alguns vereadores que passam o dia levando doentes para hospitais de outras cidades. Eita vereador bom danado. Esse merece ganhar na eleição.


– Padre, uma vez fui pedir a ambulância lá na prefeitura e sabe que me disseram? A senhora votou no prefeito, eu disse, não. Então me disseram: vai ser difícil arrumar a ambulância.


– Olha padre, aqui, quem votou no prefeito tudo é facilitado para médico, quem não votou, coitado, morre à míngua.


– Padre Djacy, tem tanto candidato usando a saúde pública para ganhar votos e mais votos.


– Bom, aqui é assim: quem votou no prefeito tem acesso a médico, a remédio, a hospital, quem não votou, só rezar apelando a Deus para ficar bom.


– Sei não, minha prima precisa de fazer uma cirurgia, mas não vai falar com a secretária da saúde, porque não votou no prefeito. Ela tem vergonha, vão humilhar minha prima.


– Eita vida sofredora essa nossa, quando o pobre adoece, para arrumar uma vaga no hospital é duro, quem tem político forte, ainda consegue se internar, se não, morre.


– Ah, vou votar no candidato tal, porque ele leva as pessoas doentes para sua casa. Na casa dele não falta nada. A mulher, ele, os filhos e os empregados cuidam da gente. Não falta nada!


– Aquele doutor é bom demais, fez a cirurgia da minha filha. Ele não cobrou nada. Ele é bom demais. Soube que ele vai ser candidato. Toda minha família vai votar nele.


– Vou votar no doutor fulano de tal, ele faz cirurgias de graça, não cobra nada. Já combinamos de votar nele na próxima eleição.


– Tá chegando um tempo bom, tempo de eleição. Nesse tempo, padre, não falta nada prá nós, nem dentista, nem médico, nem remédio, e quem quiser se operar, tudo é facilitado, padre.


– Na minha doença, quem me salvou foi doutor tal, ele me levou para a casa dele, me tratou, me deu remédio e dinheiro para a passagem. Eu, minha mulher e meus filhos vamos votar no candidato dele. Ele merece, é um santo homem!


– Padre, nosso vereador é um santo. Ele tem uma casa na cidade tal, só para receber os doentes que votaram nele. Eita vereador bom demais.


– Ontem, para conseguir uma ficha para o dentista, tive que ir para a calçada do posto de saúde, às três da madrugada. Quando cheguei lá, já tinha muita gente na fila. Muita gente, inclusive dormindo no chão.


– Quando a gente adoece a gente vai para casa que o prefeito fez para as pessoas doentes, lá, de tudo tem, não falta nada. Vamos votar no homem, ele é santo, de Deus.


– Uma vez, padre, meu pai adoeceu, fui pedir uma ajuda na Secretaria de Saúde. Sabe o que me disseram? Nós vamos ajudar o senhor, agora, o senhor vai votar no nosso candidato. Saí de lá chorando, revoltada.


– Vou lhe dizer uma coisa, seu padre, conheço muita gente que está no poder, graças essa saúde desgraçada do nosso estado e da nossa cidade.


– Vou lhe dizer uma coisa, padre. Na nossa cidade, sempre tem festas de rua feita pela prefeitura. É muita festa. As bandas que vêm são boas, caríssimas. Aí eu pergunto: tem dinheiro para pagar bandas caras, mas não te dinheiro para cuidar bem da nossa saúde. Pode?


– Muita gente ganha voto pagando consulta e remédio para os pobres, seu padre.


– Padre, quando o pobre adoece, é a pior humilhação, a gente sai pedindo a um e a outro. A gente vai na casa do vereador, do prefeito, vai na secretaria de saúde. É uma cruz danada, esta nossa.


– O deputado chegou na minha casa, apresentou o candidato dele,dizendo: votem no meu candidato, ele é bom, ele dá remédio, leva para o hospital, dá ambulância, dá comida, leva para a casa dele e só volta quando melhora. Votem nele.


– Padre, estou vendendo cartelas de um bingo, que é para pagar um exame muito caro que o médico passou para minha filha fazer; o exame é caro demais. Se eu for pedir ajuda aos políticos, vão pedir meu voto e da minha família.


– Não sei por que tanto desvio do dinheiro da Saúde Pública. Roubam o dinheiro da Saúde, e quem sofre as conseqüências é o povo pobre, seu padre.


– Padre Djacy, sou médico, trabalho neste hospital. Uma coisa eu digo-lhe: em tempo de eleição, este hospital fica superlotado de pessoas doentes. Os políticos os trazem do interior.


– Na no hospital da minha cidade não tem nada, nada, nada, o médico não aparece, não tem remédio, agora os políticos só vivem prometendo que vão equipar o hospital, e nada.


– Padre, no nosso sítio, o povo só ver médico em tempo de eleição.


– Todo ano é sempre assim, vamos melhorar a saúde, vocês vão ter médicos e tudo mais. E nada disso acontece, só fica mesmo na promessa.


– Seu vigário, na nossa comunidade, só tem vez quem votou no homem. Quando adoece, quem votou nele tem tudo, agora, quem não votou, tem que fazer promessa para escapar.


– Na campanha, o candidato chegou na nossa comunidade prometendo posto de saúde, médico, ambulância, remédio. Ele ganhou,e até agora nada. Tudo ficou na promessa.


– Ninguém se engane, a gente tá aprendendo a ter noção dos nossos direitos dentro da saúde. Político, padre, não pode usar a saúde para se eleger.


– Senhor padre, há uma nova lei de combate à corrupção eleitoral. Nós, na eleição, devemos ficar por dentro dessa tal lei.


– Padre, ta acabando o tempo da enganação, político nenhum queira nos enganar. Saúde, padre, é um direito sagrado do cidadão.


– As coisas estão mudando, padre, a gente sabe que doutor nenhum faz nada de graça. A gente sabe que quando ele faz uma cirurgia, ele assina uma guia para receber o seu dinheiro. A gente era enganada.


– Padre, quem paga as despesas dessas casas para os doentes que existem em patos, campina, João pessoa
?. É a pessoa do prefeito, do vereador, do deputado, ou existe dinheiro para isso?.


É inconcebível, inadmissível, o político fazer política ou politicagem na Saúde. Tal atitude não passa de um crime grave e um atentado à dignidade da pessoa humana. É desrespeitar ou ofender à própria Constituição Federal do Brasil, quando lá está consignado, categoricamente, que “a saúde é um direito de todos e dever do Estado”.

 

Padre Djacy Brasileiro, em 05 de março de 2012.


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