Morre o cantor Wando

Em 08/02/2012

Tempo de leitura: 10 minutos


Nova Lima(MG) –
O cantor Wando morreu aos 66 anos na manhã desta quarta-feira(08Fevereiro2012) no Biocor Instituto, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde estava internado desde o dia 27 de janeiro(2012). Segundo o cardiologista particular, João Carlos de Souza Dionísio, ele morreu às 08h00m, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.

Em nota, médicos e familiares informaram que, a partir das 05h40m, houve um súbito agravamento do quadro de saúde. O óbito aconteceu na presença da mulher de Wando, Renata Costa Lana e Souza. O cardiologista particular do cantor disse que foram feitas manobras de ressuscitação, mas o paciente não resistiu. Segundo boletim médico divulgado na terça-feira(07Fevereiro2012), ele apresentava quadro estável e melhora progressiva, mas a recuperação ainda era considerada de alto risco.

No domingo(05Fevereiro2012), o cantor enviou um bilhete para os fãs. "Eu estou na oficina de Deus arrumando a turbina. Me aguardem!”. Ele lutava contra o entupimento das três artérias coronárias. O cantor chegou a ser submetido a duas cirurgias e havia tido um infarto agudo dentro do hospital.

Wando foi hospitalizado com quadro de angina de peito, e exames apontaram que as artérias do coração estavam entupidas por placas de gordura. Ele estava com 110 quilos no momento da internação, 30 a mais do que o recomendado, segundo o cardiologista particular.

Segundo médico particular, ele teve uma parada cardiorrespiratória. Cantor estava internado desde 27 de janeiro. Wando deixa legado de celebração sem culpas da safadeza. Músicas do cantor, morto aos 66 anos nesta quarta-feira(08Fevereiro2012), falam de mulheres que gostam de sexo e não têm vergonha disso.

"Moça, eu te prometo / Eu me viro do avesso / Só pra te abraçar / Moça, eu sei que já não é pura / Teu passado é tão forte / Pode até machucar".

Os versos de "Moça", primeiro sucesso de Wando, já mostravam em 1975 muito da personalidade que o cantor e compositor, morto nesta quarta aos 66 anos, iria desenvolver nos anos seguintes. Primeiro, a maneira despudorada de falar do amor e principalmente do sexo. Segundo, o modo de retratar o sexo feminino. As mulheres de Wando gostam, e muito, de sexo. E ele não as julga por isso.

Sim, ele sabe que a moça "já não é mais pura" e tem um "passado forte". Mas isso não impede que ele queira se "enrolar nos seus cabelos, abraçar seu corpo inteiro, morrer de amor, de amor se perder". Seu maior sucesso, "Fogo e Paixão" (1985), é uma celebração desse sexo sem culpas: "Me suja de carmim / Me põe na boca o mel / Louca de amor, me chama de céu / E quando sai de mim / Leva meu coração / Você é fogo, eu sou paixão".

Essa maneira direta de tratar o sexo rendeu a Wando acusações de mau gosto ou breguice. Ele, a que tudo indica, não se importava. Pelo contrário: aproveitou a oportunidade para reforçar a imagem de "o cantor mais erótico do Brasil".

Veio então a tradição de receber e distribuir calcinhas em seus shows. E também os discos com títulos bem sugestivos: "Obsceno", "Tenda dos Prazeres", "Depois da Cama", "O Ponto G da História", "Picada de Amor" e por aí vai.

As músicas? Safadíssimas. "Sinto aqui dentro um desejo louco / Que corre nas veias e queima como fogo", canta em "Ritual"(1988). Em "Eu Já Tirei a Tua Roupa", foi ainda mais direto: "Eu te quero em minha cama / Amassando os meu lençóis / Me pedindo tanto amor / Dividindo sensações".

Sua mulher ideal? Tão safada quanto ele. "Eu te quero assim / Fazendo uma cama na nossa banheira / Fazendo por cima, de lado, ou de beira / Pedindo me espere que eu quero mais", canta na música que leva o adequado título de "Safada".


Biografia
Ex-feirante ganhou fama por composições de teor romântico e erótico. ‘Sempre gostei desses negócios‘, dizia, sobre receber e distribuir calcinhas.

Como letrista, Wando(que morreu nesta quarta-feira(08Fevereiro2012), aos 66 anos), ficou célebre por composições de teor romântico e erótico. Sua marca registrada era a calcinha. Em depoimento disponível em seu site oficial, o próprio cantor conta como tudo teria começado, explicando que a peça foi uma espécie de fonte de inspiração para seu álbum “Tenda dos prazeres”(1990).

Uma calcinha de cabeça pra baixo, ela vira uma tenda, não é? Aí, coloquei uma calcinha na capa do disco, e essa coisa fez tanto sucesso, que até hoje eu não consigo tirar do show. Eu distribuo calcinhas e recebo, tenho uma coleção muito grande, de todas as formas, jeito, cores e tamanhos”.

No mesmo depoimento, Wando aborda outras estratégias que adotou ao longo da carreira: “Teve uma época(em) que eu mordia a maçã no palco, e continuo mordendo ainda, porque conta a história de como é que começou o pecado, não é?”. As alusões ao sexo prosseguiram, com distribuição de convites de motel – sempre durante apresentações ao vivo.



Teve uma época no Canecão(casa de shows do Rio de Janeiro, atualmente inativa) que a gente botou uma banheira no palco, eu botava uma mulher nua no palco. Eu sempre gostei desses negócios”.

Vanderley Alves dos Reis nasceu em 2 de outubro de 1945 – “num arraial chamado Bom Jardim(em Minas Gerais)”. Lá, ficava a fazenda que teria pertencido aos seus avós. Seu registro, no entanto, foi feito na cidade de Cajuri, no mesmo estado. Ele conta que, ainda criança, mudou-se para Juiz de Fora(MG), onde concluiu o antigo primário.

Mais tarde, ele foi para Volta Redonda(RJ), “onde eu entreguei leite nas casas, vendi jornal, virei feirante, dirigi caminhão na estrada”. Na mesma época, passou a se interessar por música, tendo inicialmente se dedicado ao estudo do “violão clássico”.

Após deixar a profissão de feirante, Wando mudou-se para Congonhas(MG). Lá, começou a “viver de música”, como integrante de um conjunto chamado “Escaravelhos” – “escaravelho pra quem não sabe, é um besouro, a mesma coisa que Beatles”. Cinco anos mais tarde, decidiu tentar a sorte no “eixo Rio de Janeiro – São Paulo”. Frustrada a passagem pelo Rio, chegou a São Paulo, onde teve gravado seu primeiro sucesso, na voz de Jair Rodrigues.

A composição, “O importante é ser fevereiro”, teria sido “uma música muito tocada no carnaval de 1974”, lembrou-se mundo romântico de Wando”(1988), o 14º da carreira, segundo a contagem do site oficial. Ele foi precedido por trabalhos como “Gosto de maçã”(1978), “Gazela”(1979), “Fantasia noturna”(1982), “Vulgar e comum é não morrer de amor”(1985) e “Ui – Wando paixão”(1986). Na sequência, viriam, dentre outros, “Obsceno”(1988), “Depois da cama”(1992) e “O ponto G da história"(1996).

Entre álbuns de estúdio e registros ao vivo, o site de Wando contabiliza 28 trabalhos, ao todo. O cantor acreditava ter vendido dez milhões de discos – “até na época que a gente contava”. “Depois(houve) a história da pirataria, que acabou me fazendo muito mais popular. Eu acho que a pirataria é ruim para um lado, para o lado compositor, mas para o lado intérprete, o cara que faz show, eu acho que ela favoreceu muito”.

Em entrevista à Agência Estado, em 2007, Wando comentou sua imagem de “sedutor”: “Na verdade, eu sou como um ator. Até porque eu estaria morto hoje se fosse mesmo assim. Isso é um personagem, naturalmente. É normal que as pessoas pensem que eu sou desse jeito, mas não deixo que as pessoas alimentem muito essa imagem”.

Sobre a fama de brega, ele respondeu que incomodou e seguia incomodando. “Quando as pessoas falam de brega, sempre se referem a uma coisa ruim. Então eu brigo por isso. Agora, eles até quiseram colocar o brega como uma coisa bacana, mas eu acho que é uma forma de pedir desculpa, e isso é mau. Se for ver, você tem que chamar o Chico Buarque de brega, a Maria Bethânia, o Caetano Veloso, o Gilberto Gil. Eles gravaram as músicas que a gente grava. Eles gravam melhor? Não. Isso foi uma coisa cruel que eles fizeram”.

Na entrevista, Wando também comentava a música “Emoções”, gravada em 1978, que ele dizia versar sobre a relação entre dois homens: “Fiz isso porque acho que o relacionamento masculino é uma coisa válida. Não por ter aderido, mas porque eu tenho amigos que vivem esse tipo de coisa”.

Recentemente, o nome de Wando vinha sendo lembrado graças ao documentário “Vou rifar meu coração”, de Ana Rieper, que vem frequentando o circuito dos principais festivais de cinema do país desde alguns meses atrás. Há pouco tempo, teve boa recepção na Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada no último dia 28. O filme trata justamente da música tida como “brega” e traz depoimentos de cantores como Amado Batista, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, Peninha, além de Wando e de ouvintes que contam suas histórias com obras do “gênero”.

Discografia

"Glória Deus no céu e samba na terra"(1973)

"Wando"(1975)

"Porta do sol"(1976)

"Ilusão"(1977)

"Gosto de maçã"(1978)

"Gazela"(1979)

"Bem-vindo"(1980)

"Pelas noites do Brasil"(1981)

"Fantasia noturna"(1982)

"Coisa cristalina"(1983)

"Ui-Wando paixão"(1986)

"Coração aceso"(1987)

"O mundo romântico de Wando"(1988)

"Obsceno"(1988)

"Dor romântica"(1989)

"Tenda dos prazeres"(1990)

"Depois da cama"(1992)

"Mulheres"(1993)

"Dança romântica"(1995)

"O ponto G da história"(1996)

"Chacundum"(1997)

"Palavras inocentes"(1998)

"S.O.S. de amor"(1999)

"Picada de amor"(2000)

"Fêmeas" (2001)

"O melhor de Wando ao vivo"(2002)

"Romântico brasileiro, sem vergonha"(2005).

Confira vídeo da última apresentação do Cantor WANDO



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