Duelo entre o real e o imaginário no novo livro de Linaldo Guedes

Em 03/08/2012

Tempo de leitura: 4 minutos


João Pessoa(PB) –
A poesia de Linaldo Guedes é um grito carinhoso que continua mais forte no seu silencio, que nos pergunta o tempo todo sobre organização e alma, sobre vida e acordo, poesia que é um solapo em nossa quietude e ler “Metáforas para um duelo no sertão do poeta” Linaldo Guedes nos permite um momento onde a quietude não é uma calmaria, antes é uma necessidade de sobrevivência, pois é preciso depois da leitura fechar o livro e organizar o turbilhão de imagens, de buscas, de caminhos que de forma firme e duradoura ocupam nosso cérebro.

Há e sempre houve muitos duelos no sertão, o sangue brota de peitos lacerados e cabeças erguidas, e o poeta da Paraíba, nos revela um outro duelo dentro de todos os duelos sertanejos, o duelo que marca a fronteira entre o real e o imaginário, entre a escolha e o imposto, entre o ser e o nada, um duelo travado na fome que não nos devora e sim nos impulsiona como fortes para caminhar entre espinhos e sedes, a fome que é o caminhar, o viver entre nuvens de ideias e poucas certezas, a fome que nos mantém vivos.

É, portanto, desta fome que trata o livro do poeta Guedes, uma fome bela e que no sertanejo às vezes coberta como poeira por outras fomes pode nos aparentar fracos ou mesmo vitimas. E a poesia de Linaldo não tem a dor do fracasso ou da vingança, mas a serenidade da percepção que a vida sofre mas também é uma festa, é uma espera e é sempre uma luta dentro de muitas outras lutas.

"meu pai sorriu
à sombra da goiabeira

nada de rugas na face
apenas a névoa
de um tempo escondido pela sombra das horas
".

O passado na figura do pai é de uma melancólica e doce lembrança, não no sofrimento, mas na névoa que reescreve o rosto na falta de rugas e numa sombra, a da goiabeira, uma outra faz suave e sábio o nosso existir, o das horas.

E enfrentando a religião sem raivas e sem medos ele afirma:

"matraca silenciosa
liturgia de augusto
remoendo
moendo
doendo
moenda
– bagaço de homem no altar dos sertões
".

E o poeta Linaldo Guedes brinca com sua infância, seu crescer, sua família e entre alegrias e descobertas ele afirma a sadia desavença entre idades e sexos no ninho, que é um pouco revelado na sombra da goiabeira, salta agora em Lili, em Deci, Didi, Laura, em Laudeni, na galega Neném e se junta na rede com o pai, embalado em natais onde a família tocaiava sonhos de olho no alpendre, pois sabedor que

"liturgia de oração
– negação do jejum do prazer
"

Linaldo declara:

"nunca conseguira entender a falta de pão"

Pois é com poesia que o poeta enfrenta dores e calúnias

"sou um homem marcado
marcado para doer
gado preso no curral
quando não, abatido
comendo Baudelaire
na erva daninha de meu capim
".

E continua caminhando por entre fantasmas nas brincadeiras de muitas humanidades, fazendo duelar os medos dos 12 anos, bumba meu boi e sombras na parede, com a dura realidade do homem quarentão que nada teme, mas

"tanto medo aos 12
aos 40, medo só de seu olhar de graúna
"

Linaldo Guedes não vive por ai afirmando sua sertanidade, antes universal sabe das necessidades de superar mitos e vencer etapas

"cansei de pasárgada
este negócio de sentar-se eternamente no trono
não compensa a mulher que queremos
"

Podemos então arriscar que “Metáforas para um duelo no sertão” do poeta paraibano LINALDO GUEDES, publicação da editora Patuá é não um mergulho no próprio umbigo do poeta, mas sim a afirmação da vida com toda a dor e o prazer que tem no fato de viver e que também soa este livro como uma canção que pode ser um grito forte saudando nossas fomes e um esperançoso desejo de duelar.

Recomendo a leitura de “Metáforas para um duelo no sertão”, que com certeza vai abrir horizontes e permitir o deleite do belo numa terra árida e fazer plainar azedumes em dias de fugas, Um livro com um coração repleto de amores e fomes e sempre um coração decidido.

* Por Ronaldo Braga – poeta baiano.


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