Fome: Argentinos desenterram carne de frango estragada para comer

Em 22/11/2020

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Sem ter o que comer, moradores de Porto Iguaçu cavam para pegar 1,2 mil caixas de frango descartadas por órgão sanitário.

A crise gerada pela pandemia do coronavírus levou moradores de Puerto Iguazú, na Argentina a desenterram carne de frango para comer. As carnes foram apreendidas pela prefeitura e não estavam próprias para o consumo, mesmo assim, os moradores com crianças se arriscaram por causa da fome.

Na última segunda-feira (16Novembro2020),  foi informado que polícia local apreendeu cerca de 1.200 caixas de frangos no bairro Altos del Paraná, no Antigo Clube de Pesca, no valor aproximado de dois milhões de pesos, como parte de uma investigação por suposto contrabando. A força reteve o material por quase três dias,  sem refrigeração e sob o forte sol missionário, para terminar de enterrá-lo na manhã de terça-feira(17NOvembro2020).

Segundo o Movimento Ativo Social e Político Iguaçu (MAS), ciente do particular procedimento, um grupo de moradores que passam fome na cidade, aproximou-se do local munido de ferramentas, desenterrou o produto contaminado pela falta de frio e contato com o solo, que havia sido apreendida pela Prefeitura Naval argentina e levou para casa.

Esta mercadoria apreendida foi enterrada nas dependências da Terceira Seção da Polícia da Província de Misiones, localizada na área de 2.000 hectares de Puerto Iguazú, pelo Serviço Nacional de Segurança Alimentar (SENAS), em colaboração ao Município de Puerto Iguazú.

Apreensão de carnes

De acordo com a Marinha argentina, a carnes de frango foram apreendidas após uma denúncia de contrabando. Durante a apreensão, foram identificadas 30 pessoas envolvidas no caso, em um lugar conhecido como um ex-Clube de Pesca, em Puerto Iguazú.

Segundo a Marinha, os suspeitos que estavam no local agrediram a equipe do órgão federal com pedras. Um dos soldados ficou ferido e o veículo da Marinha foi danificado.

Foram apreendidas caixas com frangos, azeites, farinhas e outros alimentos sem documento aduaneiro, além de dinheiro e 20 celulares.

O vídeo mostra algumas pessoas escavando a terra para pegar as 1,2 mil caixas de carnes, – entre eles estão crianças, idosos e mulheres – onde carne e pés de frango foram enterrados pelas autoridades sanitárias. As cenas bárbaras mostram pessoas famintas desenterrando a comida estragada, usando enxadas, picaretas e as próprias mãos.

Relatos

Conforme o representante do movimento social, Claudio Altamirano, as imagens divulgadas nas redes sociais retratam a crise econômica que os moradores enfrentam.

Toda essa situação complexa, socioeconômica, faz com que Porto Iguaçu esteja afundada na miséria, na pobreza e na fome. Essas imagens são o reflexo fiel, a realidade de como estamos hoje em Porto Iguaçu. A fome bate forte nas portas e também esvazia os potes das famílias. Eles tiveram que desenterrar frango para poder comer”.

A cidade tem cerca de 105 mil habitantes e liga o país, pela Ponte Tancredo Neves, a Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, que tem mais de 250 mil moradores. Puerto Iguazú depende do turismo economicamente, mas as fronteiras estão fechadas desde março.

De acordo com a Prefeitura de Puerto Iguazú, as carnes tinham ficado mais de 24 horas sem refrigeração e estavam impróprias para consumo, por isso, foram descartadas pelo Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Alimentar (Senasa).

A Marinha argentina, que apreendeu as caixas de frango, não se manifestou sobre o descarte dos alimentos ou sobre as imagens dos moradores nas redes sociais.

 

Crise econômica

De acordo com Carlos Altamirano, as imagens divulgadas mostram a transformação do que ocorreu em Puerto Iguazú. Dependente do turismo, o município abriga as Cataratas, como Foz do Iguaçu.

Por causa da pandemia, o Parque Nacional Iguazú está recebendo apenas visitantes da Província de Misiones, na Argentina. O funcionamento do parque tem ocorrido nos fins de semana, com 500 ingressos no sábado e 500 no domingo.

Antes do novo coronavírus a visitação média diária era de 4 mil pessoas no parque, em Puerto Iguazú. “Essa é a verdadeira imagem de Porto Iguaçu, não a imagem da maravilha natural, das Cataratas, de milhões de turistas, de todo glamour, de filmes famosos, dinheiro, ouro, perfume. Essa não é a realidade daqui“, disse.

Em Foz do Iguaçu, as Cataratas têm recebido 525 visitantes por hora como forma de restrição na pandemia. A média de visitação tem sido de 1,5 mil pessoas por dia.

O representante do movimento explicou que durante a pandemia as organizações sociais têm ajudado as famílias da periferia da cidade.

Eles mantêm quatro centros comunitários para atender moradores com serviços de assistência social. A alimentação é preparada nas cozinhas dos centros com doações e alimentos comprados com fundos das próprias organizações, conforme Altamirano.

Temos merenda, damos três copos de leite três vezes por semana. Fazemos um trabalho social de acompanhamento das crianças, que não podem ir à escola porque não há escola. Por causa da pandemia, há nove meses não há escola aqui, então há crianças que estão atrasadas nas tarefas”.

Protesto

Grupos de organizações sociais de Puerto Iguazú fizeram um protesto, na quinta-feira (19Novembro2020), cobrando medidas de assistência social do poder público aos moradores que foram flagrados desenterrando os frangos.

Segundo o representante do Movimento Ativo Social e Político Iguaçu, as carnes descartadas poderiam ter sido direcionadas para abrigos de bairros da periferia assim que foram apreendidas, para serem consumidas pelas famílias que passam fome.

Nós, das organizações sociais, estamos questionando se esses alimentos, em vez de serem enterrados, poderiam ter sido direcionados para cozinhas comunitárias dos bairros, onde há muitas crianças, famílias, mulheres e idosos com fome, em Porto Iguaçu“.

O movimento informou que, até a publicação desta reportagem, não havia recebido nenhum retorno da Prefeitura de Puerto Iguazú e da Marinha da Argentina sobre as reivindicações apresentadas.


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