Dez coisas que você ainda faz pelo seu filho e não precisa

Em 16/05/2024

Tempo de leitura: 8 minutos

O desenvolvimento da autonomia infantil depende das chances que a criança tem para treinar e reconhecer as próprias capacidades. Para isso, dar oportunidades é fundamental.

 

Seja por estar no piloto automático e resolver as tarefas na correria do dia a dia, seja por achar que seu filho ainda não está pronto para fazer muitas delas sozinho, a verdade é que deixar a criança desenvolver autonomia pode não ser algo tão natural quanto se imagina.

É preciso ter atenção, um olhar sensível e muita paciência, afinal, o pequeno ainda está aprendendo. Aquilo que um adulto faria em poucos segundos vai demorar muito mais e o resultado, provavelmente, vai estar longe do que você considera ideal – mas é assim que ele aprende, desenvolve habilidades e vai ficando cada vez mais independente.

Para entender melhor quais tarefas as crianças conseguem fazer sozinhas de acordo com as fases de desenvolvimento, conversamos com a especialista em neurociência e desenvolvimento infantil Ane Macedo, e com Anna Dominguez Bohn (Foto acima), pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

Confira a seguir.

01. Dar comida na boca

Deixar o bebê levar os alimentos à boca – seja com as mãos, no começo, ou com os talheres, posteriormente – demora mais e faz sujeira.

Mas além de ser importante para a conexão dele com a refeição, isso é essencial para o trabalho motor e, sobretudo, para que ele perceba que é capaz de fazer algo sozinho.

Nesse processo, o mais importante não é a ação em si, mas a psicologia da ação, ou seja, o caminho emocional por trás dela, pois o bebê está desenvolvendo a percepção de auto-capacidade”, inicia a especialista em neurociência e desenvolvimento infantil Ane Macedo.

Ela explica que, por meio da voz de seu cuidador e de como ele o guia nesse processo com um olhar de compaixão, empatia e calma, é gerado um sentimento intuitivo no bebê de que ele pode e deve se arriscar, tomando o seu tempo para aprender, experimentar e se desenvolver.

Segundo Anna Dominguez Bohn, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), independentemente do método utilizado para fazer a introdução alimentar, permitir que a criança pegue os alimentos e tente levá-los à boca sozinha é essencial.

Entre 12 e 18 meses, é esperado que a criança consiga se alimentar, principalmente usando as mãos. Também é comum que já consiga espetar os alimentos com pequenos garfos e levá-los à boca. Entre 18 e 24 meses, muitas conseguem usar colheres e comer sozinhas”, explica, ainda que precisem de alguma ajuda.

Um conselho que ela dá é que os adultos façam as refeições com a criança para que ela os observe e tente imitar seus movimentos. “Ao redor dos 4 anos, é importante que a criança já tenha maior destreza com os talheres e comece a usar faca sem ponta, sempre sob supervisão. A partir dos 6, a maioria não precisa mais de supervisão e pode se alimentar totalmente sozinha”, diz a médica.

02. Descascar frutas

Oferecer a fruta descascada e cortadinha facilita para a criança e torna tudo mais prático, mas tira dela a oportunidade de desenvolver sua coordenação motora fina, treinar a atenção, a paciência, entre outras habilidades.

Perto dos dois anos, comenta Ane Macedo, vale incentivar o pequeno a tirar a casca da banana. Mais para frente, outra opção sugerida é a mexerica, “porque essas frutas são fáceis de descascar, seguras, saudáveis e também oferecem outros benefícios, como o desenvolvimento do olfato e do tato”, acrescenta.

Assim, ao perceber que seu filho já tem interesse em realizar a tarefa sozinho, é interessante deixar que ele a faça sempre que possível – ainda que demore mais e faça alguma bagunça.

03. Escolher as roupas

Se só de pensar nessa possibilidade você já se preocupa com o resultado, calma. Há maneiras de dar à criança a oportunidade de escolher sem complicação.

Isso está relacionado ao desenvolvimento do processo de tomada de decisão”, ressalta a especialista em desenvolvimento infantil.

Segundo ela, uma criança de três a cinco anos ainda não vai entender uma explicação sobre aonde vai ou quais atividades vai fazer.

Por isso, recomenda-se dar apenas duas opções para que escolha entre elas. Na medida em que for desenvolvendo o senso crítico, pode aumentar para três opções e assim gradativamente, até que ela tenha total acesso ao próprio guarda-roupa”, sugere.

04. Trocar de roupa

Vestir uma camiseta ou uma calça pode demandar muito esforço dos pequenos, mas tirar as peças – começando com itens mais fáceis, como meias e shorts simples, por exemplo, é um ótimo exercício. “Ao redor de 2 anos, muitos já conseguem tirar esses elementos, ao menos parcialmente”, diz a pediatra Anna Bohn.

Praticar antes do banho ou numa troca de roupas pode entrar na rotina de forma despretensiosa e, com o tempo, ir evoluindo até que a criança consiga fazer tudo (ou grande parte) sozinha.

Nesse processo, o próprio adulto fazer apenas para “ir mais rápido” pode acabar atrapalhando, então é importante ter atenção para não passar por cima das oportunidades.

Aos 5 anos, já é esperado que possam se vestir sozinhos, pondo e tirando peças, se não forem muito complexas, como as que têm muitos botões. Com 7 anos, espera-se que não precisem mais de ajuda”, relata a médica.

05. Escovar os dentes

Assim que se inicia o processo de escovar os dentes, quando nascem os primeiros (algo que varia entre 6 e 12 meses), a pediatra recomenda aos pais e cuidadores que dêem o exemplo e escovem os dentes junto ao filho.

Deixe ele explorar a própria escova e fique junto, enquanto ele te observa. A partir de 2 anos, você pode incentivá-lo a escovar primeiro e combinar que você escova ao final para garantir”, aconselha.

Segundo Anna, é importante que, aos 5 anos, a criança já seja capaz de desenvolver a tarefa sozinha, ainda que sob supervisão.

06. Dar banho

Aqui, vale a mesma lógica anterior: deixar que o pequeno comece a treinar, até que ele desenvolva plena autonomia.

Tarefas como lavar o cabelo, por exemplo, podem ser mais complicadas e levar mais tempo, mas nada impede que ele vá fazendo sozinho o que já consegue – para isso, é importante dar a oportunidade.

O incentivo pode começar de forma precoce, com a criança lavando pés e mãos entre 2 e 3 anos, sempre sob supervisão. Ao redor dos 4, já é possível que ela lave mais partes, como abdome, tórax, pernas e braços, ainda sob supervisão. Entre 6 e 7 anos, já podemos esperar que ela tome banho com autonomia”, detalha a médica.

07. Fazer algumas pequenas tarefas domésticas

A formação de um ser humano completo passa pela construção do senso de colaboração, o que gera um sentimento de pertencimento. Além disso, crianças amam interagir e se sentir parte”, diz Ane Macedo.

Pensando nisso, incentivar o pequeno a fazer pequenas tarefas domésticas é muito interessante, e deve ir evoluindo em complexidade conforme ele cresce.

Colocar as peças usadas no cesto de roupas sujas, guardar os brinquedos e levar a louça usada até a pia (atentando-se aos utensílios de vidro de acordo com a idade) são ótimos exemplos de atividades que, uma vez aprendidas, você não precisa mais fazer pelos filhos.

08. Arrumar a mochila da escola

Quando as crianças ainda estão nos primeiros anos da educação infantil, a organização da mochila que vai para a escola é responsabilidade dos cuidadores. Ainda assim, ensinar o pequeno a guardar os itens e a cuidar do material é essencial.

Com o tempo, essa arrumação pode contar com a participação da criança, conversando com ela sobre as atividades do dia, o que será usado, como os itens devem ser guardados na volta.

Além de ajudar no desenvolvimento da autonomia, esse tipo de atividade traz noções relevantes. “É importante incentivar o cuidado, a organização e a manutenção dos pertences próprios e externos (do quarto, de casa, da escola, do parque, entre outros). A responsabilidade social se inicia com a responsabilidade pessoal e com o auto-gerenciamento, e isso se aprende primeiro em casa”, destaca a especialista em neurodesenvolvimento.

09. Dirigir as brincadeiras

Se tem uma coisa que os pequenos sabem fazer muito bem é brincar. Porém, na ânsia de propor atividades educativas, muitas vezes pais e cuidadores acabam tentando direcionar as brincadeiras de forma desnecessária.

Isso depende muito da idade. No início, a criança busca por um guia que mostre as regras e interaja com ela, mas, depois, a busca por autonomia e expressão surge naturalmente. Nesse processo, é preciso dar espaço e incentivar a criança a ter as próprias ideias”, explica Ane.

10. Fazer escolhas por ele

Retomando a escolha das roupas, é possível ampliar a ideia para outras áreas da vida. Certamente, a criança não pode escolher sozinha o tempo todo – isso nem é seguro, afinal, ela não tem a maturidade nem os conhecimentos dos adultos.

Mas isso não é motivo para que os pais decidam tudo e imponham suas escolhas: “guiar é diferente de impor vontades próprias”, lembra a profissional, “e guiar é abrir caminho para que a geração seguinte tenha voz própria e, em determinado momento, siga sozinha de forma plena e capacitada”, acrescenta.

Vale lembrar, por fim, que sentir que se tem algum poder de decisão faz parte do desenvolvimento infantil e colabora para construir a consequente noção de responsabilidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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