A tragédia de Piancó e os seus desdobramentos em Itaporanga

Em 17/01/2010

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Itaporanga(PB) – Este foi o ano de duas grandes barbáries na região: começou com uma tragédia e está terminando com outra, tão terrível quanto a primeira. No vigésimo segundo dia de 2009, ou seja, em 22 de janeiro, o Vale amanheceu chocado com o estupro seguido de morte da menina Sandra Furtado de Olanda, de apenas 14 anos, no sitio Capim, município de Santa Inês. Além da estudante, cujo corpo foi encontrado em uma gruta, a mãe dela e duas netas também foram gravemente feridas, mas conseguiram sobreviver.

Passados exatos onze meses, dia 21 de dezembro, a pouco mais de uma semana para encerrar o ano, o Vale foi tomado, novamente, pela comoção: a Rua Antônio Arantes, do bairro Alto Belo Horizonte, em Piancó, foi palco de uma barbaridade: uma criança de apenas cinco anos, Kettelly Aianny Costa da Silva, foi violentada sexualmente e morta por estrangulamento.

O acusado, Antônio Marcos Pereira do Nascimento, conhecido por Antônio de Geraldo, que faria 37 anos no dia 2 de janeiro, solteiro e pedreiro, foi preso e morto horas depois no interior de uma cela da delegacia de Itaporanga por populares revoltados com o crime cometido por ele.

A criança e o acusado moravam na mesma rua: conforme os levantamentos policiais, no começo da noite, a menina brincava enfrente à casa do homem, que vivia sozinho, e foi atraída pelo maníaco para dentro da casa dele, onde terminou violentada, torturada por socos e mordidas e estrangulada.

Depois do crime, o homem, que reside na última casa da rua, que se limita com uma área baldia e com o cemitério da cidade, deixou o corpo da criança a pouco mais de 150 metros do local e retornou para casa tranqüilamente. “A intenção dele era enterrar a criança, porque já tinha começado até um buraco, mas como não deu tempo porque o bairro todo já estava à procura da menina, ele jogou o corpo da criança lá”, disse emocionado um morador do bairro.

Eu vivo aqui em Piancó há 55 anos e nunca tinha visto uma brutalidade dessa”, opinou outro piancoesnse, uma das centenas de pessoas que estiveram no velório da criança, que é de uma família humilde: o pai, conhecido por Antônio de Judite, é agricultor e pedreiro, e a mãe, chamada de Laurenir, presta serviço à Prefeitura como auxiliar de serviços gerais no Caps.

Encontro do corpo e prisão do acusado
Ao notar o desaparecimento da menina, os pais da criança iniciaram uma procura desesperada por ela e logo mobilizaram todo o bairro. Quando o corpo de Ketelly foi encontrado já passava das 8h da noite: desespero e comoção para os pais da criança que tinham esperança de reencontrá-la bem, mas a acharam trucidada e morta.

A Polícia Militar foi acionada e tomou conhecimento, através de uma testemunha, que a menina teria sido vista com o acusado momentos antes de desaparecer. Policiais foram até à casa de Antônio Marcos, que estava bêbado e dormindo. Ele negou que tivesse visto a menina, mas a polícia encontrou no quintal da residência uma calcinha e um par de sandálias, objetos que foram reconhecidos pela mãe como sendo da criança, cujo corpo foi encaminhado para o Instituto de Medicina Legal de Campina Grande, só retornando no dia seguinte.

Diante dessas evidências e do fato do corpo da menina ter sido encontrado a poucos metros da casa do acusado, que, conforme informações da polícia, era fugitivo da Justiça de Brasília, onde havia sido condenado também pelo estupro de uma criança, os policiais não tiveram dúvidas e deram voz de prisão ao homem, que foi autuado em flagrante pelo delegado Édson Vasconcelos. “Ele negou que tenha cometido o crime, mas há evidências suficientes contra o acusado”, comentou o delegado.

O mais impressionante, conforme ainda a polícia, é que os vizinhos do acusado não ouviram nenhum grito da criança, que, possivelmente, foi amordaçada pelo criminoso. Mas alguns moradores disseram ter ouvido um som de música alto proveniente da casa onde a menina foi trucidada, o que pode ter sido uma estratégia do acusado para que os vizinhos não notassem nenhum barulho suspeito.

Tentativa de linchamento e morte dentro do xadrez
Revoltados com o crime, dezenas de pessoas aglomeraram-se enfrente à delegacia e ameaçaram invadir o local para linchar o acusado. Temendo pela integridade física do detendo, agora em poder do Estado, o delegado diligenciou pela transferência do suspeito para Itaporanga, onde ele chegou no final da noite.

Recolhido a uma cela que fica fora da delegacia e sem qualquer segurança, o preso foi executado com um tiro de espingarda calibre 12 na madrugada do dia 22, por volta das 03h00m. Conforme os três agentes que estavam de plantão, quatro homens em um Fiat Uno vermelho são os suspeitos do crime. “Eles disseram que quando ouviram o disparo e saíram da delegacia, os suspeitos já estavam fugindo”, comentou o delegado regional Ivaldo Dias.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado nomeou um delegado exclusivo para apurar a execução do detento. Dr. Pedroza já começou a ouvir os agentes que estavam de plantão na madrugada do fato. Em contato com a reportagem da Folha, ele adiantou que foi um equívoco deixar o preso no xadrez da delegacia, que não dispõe de uma estrutura física de segurança adequada.

No momento do crime, não havia nenhum outro detento no xadrez, a não ser o acusado, mas o correto seria ter encaminhado o detento para Patos ou direto para o presídio de Itaporaga, que é seguro, conforme algumas autoridades policiais ouvidas pela Folha, embora, para isso, fosse necessária uma autorização da Justiça local, já que o preso era proveniente de outra comarca.

O delegado também apura informações de que o detento foi posto no local algemado e que a porta de acesso às duas celas do xadrez não tenha sido fechada adequadamente, uma vez que não há sinais de arrombamento. Mas há também a possibilidade dos homens terem atirado no preso da parte de cima do xadrez, cujo teto é parcialmente vazado para a circulação de ar.

Embora acusado de um dos mais terríveis crimes já ocorridos na região, a execução de Antônio Marcos dentro do xadrez da delegacia de Itaporanga trouxe grande constrangimento ao Estado, que poderá ser obrigado pela Justiça a pagar uma indenização milionária à família do falecido, cujo corpo, depois de passar pelo IML, foi sepultado em Campina Grande.

A família do acusado, por orientação da polícia, resolveu não enterrar o corpo em Piancó para evitar tumulto: isso porque alguns populares locais ameaçavam atear fogo no defunto.

Sepultamento e comoção
Desde a chegada do corpo da menina no meio da tarde até o sepultamento, no começo da noite, a mãe da criança permaneceu ao lado do caixão: o que se via no rosto profundamente triste da mulher eram lágrimas e gritos de dor e revolta. Era sua única filha. Restou-lhe agora somente o filho, um menino de sete anos que é deficiente cerebral.

O pai da menina também ficou profundamente abalado, embora aparentasse um pouco mais de equilíbrio emocional. Primos, tios, avós e bisavós também ficaram desconsolados. No começo da noite de 22 de dezembro, em meio a muitas lágrimas que se misturavam a forte neblina que caía sobre a cidade, Kettelly foi sepultada.

Uma semana depois do fato, a família da criança permanece consternada: é uma dor que vai acompanhá-la para o resto da vida. O pai e a mãe da menina foram levados para a casa de parentes em Cajazeiras. Mas em meio a tanta dor, um consolo: conforme informações de moradores do bairro, o proprietário da casa onde ocorreu o fato e que estava alugada ao acusado, decidiu demolir o imóvel e doar o terreno à família da menina para que no local seja erguida uma capela em homenagem à memória da criança.

Outro fato lamentável
No mesmo dia em que a pequena Kettelly foi violentada e morta, a Polícia Militar de Piancó começou a procurar um outro suposto criminoso sexual: Ailton Marcos de Souza, de 37 anos, é acusado de manter relações sexuais com a própria filha, de apenas 14 anos.

Ele foi denunciado pela própria esposa. A menor confirmou os abusos e revelou que há mais de quatro anos era violentada pelo pai. A família reside no Campo Novo, um bairro periférico de Piancó.

Depois de vários dias em diligência, a polícia conseguiu prender o acusado, que foi capturado no último sábado, 26, e está recolhido à cadeia pública de Piancó.

* Transcrita da Edição nº 161(Ano IX – De 09 à 29 de Dezembro de 2009) do Jornal Folha do Vale. O jornal de maior circulação na região do Vale do Piancó, no sertão do Estado da Paraíba.



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